Cultura em Portugal está empobrecendo, diz reitor de universidade

Para Mario Moutinho, política cultural do país está sendo liquidada por cortes orçamentários

Fabíola Ortiz

Sem Ministério da Cultura há um ano, Portugal vive decadência na área da cultura com cada vez menos recursos para produções e projetos culturais. A cultura no país passa por um “processo de empobrecimento”, admitiu o reitor da Universidade Lusófona, Mario Moutinho.

Leia mais: 
Efeitos da crise: medidas de austeridade ameaçam setor cultural na Espanha
Patrimônio histórico grego corre risco com a crise, alerta arqueóloga


“O panorama em Portugal está negro, é um desestímulo total. O orçamento para a área da cultura é irrelevante”, disse ao Opera Mundi, Moutinho que esteve no Rio de Janeiro, nesta última semana, para participar do Encontro Internacional Museus de Cidade.

Enquanto o Brasil está de vento em popa desfrutando da abertura de editais e financiamentos públicos para a cultura, Portugal segue no sentido oposto, lamenta Moutinho.

“O clima dos dois países é completamente oposto. O Brasil está a viver ainda um momento de grande ascensão com novos projetos e com políticas mais inteligentes. E em Portugal está a haver uma grande retração. Neste momento, não existe uma política de desenvolvimento e sim de retirada de recursos do trabalho e passá-los ao pagamento de juros internacionais. É um descalabro. Nunca o país pagou tantos impostos e nunca os impostos produziram tão poucas benfeitorias”, criticou o reitor.

Governo está abrindo mão de seus museus

Moutinho que já foi assessor principal no Museu Nacional de História Natural de Lisboa afirma que o governo português está abrindo mão de seus museus e entregando-os a autarquias, aos municípios, que contam com ainda menos recursos para mantê-los. A iniciativa da rede portuguesa de museus, criada na década de 90, que reunia 130 museus e apoiava parcerias e projetos foi dissolvida e todas as pessoas demitidas.

“A rede de museus foi liquidada. É desolador terem matado a iniciativa. Neste momento, estão a despedir todos os diretores dos museus de Estado. O investimento do governo na área da cultura é irrelevante. A miséria está partilhada”, ressaltou Moutinho. 

Em Portugal há 1.400 museus, dos quais apenas 30 estão sob a administração do governo e o restante são de autarquias ou associações. Grande parte deles foi criado depois da Revolução dos Cravos, dia 25 de abril de 1974, com a derrubada do regime salazarista. Nestas últimas três décadas, houve um boom de criação de museus.

“Sem grande filosofia por trás. De fato, estamos num momento em que a governança da cultura é uma comissão em extinção, uma comissão liquidatária das estruturas que existiam no domínio da arqueologia, do teatro, do cinema e da museologia. É um momento em que estão a fechar as portas de tudo. A indústria cultural está em decadência pois havendo menos recursos, há menos produções”, acrescentou o reitor da Universidade Lusófona.

Cenário obscuro a curto prazo

Moutinho afirma que não consegue visualizar uma melhora a curto prazo e se mostra bastante pessimista. “O país está preso às políticas financeiras internacionais. Quem souber quando isso vai acabar ganha o Prêmio Nobel. Não há dúvida que a tendência e de continuar a agravar-se”.

No entanto, o museólogo vê alternativas como cooperações e parcerias entre países como o Brasil. A cada ano, muitos brasileiros rumam a Portugal para aperfeiçoar seus estudos na área da museologia. Enquanto no Brasil faltam profissionais qualificados, em Portugal, sobram.

“No âmbito da formação em museologia, a articulação com o Brasil é essencial. Temos alunos do Brasil que vão fazer cursos na Universidade Lusófona. Neste sentido, estamos a nos beneficiar das políticas do Brasil que mudaram o contexto e agora há uma grande necessidade de profissionais. Essa parceria é um balão de oxigênio num momento em que há retração”, admitiu.

Comentários