Jovens, mulheres e imigrantes são os principais alvos da crise na Itália

Depois da queda de Berlusconi, Monti impulsionou uma drástica reforma trabalhista e do sistema de aposentadoria

Giorgio Trucchi

Dario Anzani é educador na Cooperativa Social “Comunità del Giambellino”. Há mais de 20 anos, trabalha pelas ruas do bairro Giambellino, uma das zonas historicamente mais conflituosas de Milão, cidade que, há algumas décadas, se gabava por ser a capital econômica e industrial da Itália. “A crise econômica está castigando duramente e os principais afetados são os (as) jovens”, disse.

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Para Cristina Tajani, conselheira municipal de Milão para a política trabalhista e o desenvolvimento econômico, os dados sobre o desemprego nesta cidade, ainda que em níveis inferiores à tendência nacional (10%), seguem sendo alarmantes, situando-se em 6%.


Giorgio Trucchi/Opera Mundi

Tajani (foto à esquerda) é a conselheira mais jovem (34 anos) da Junta municipal encabeçada pelo prefeito esquerdista Giuliano Pisapia que, em maio de 2011, pôs fim a 20 anos de “berlusconismo” na cidade. Também para ela, a situação do emprego juvenil precisa de ações urgentes.

“Ainda que tenhamos registrado uma leve diminuição nos últimos dois anos e estejamos muito longe da média nacional (35%), a taxa de desemprego juvenil (entre 15 e 24 anos) em Milão ainda supera os 20%”, explicou a Opera Mundi.

A conselheira adverte que, em meio à crise, as mulheres são as que mais estão sofrendo com a queda de postos de trabalho, “em um mercado de trabalho que se tornou mais flexível e precário como nunca antes se havia visto, e que dificilmente protege a maternidade”. Uma situação que, para Anzani, tem muito a ver com a evolução de uma crise econômico-financeira, que nas últimas duas décadas se mesclou com a deterioração dos valores em todo o tecido social. “Modelo individualista de Berlusconi foi como um terremoto. Um modelo que contribuiu de maneira determinante para a modificação do tecido social italiano”, opinou.

Durante os últimos 20 anos trabalhando na educação de rua, Anzani disse ter assistido a uma modificação brutal do território. “Anos atrás, grupos jovens se encontravam em cada parque ou canto da cidade, relacionando-se com sua própria história e linguagem. Nós intervínhamos para reconhecer quais eram as dinâmicas de cada grupo e ajudar com a evolução positiva de tais dinâmicas e o desenvolvimento de valores compartilhados”, contou.

Hoje em dia, isso já não é possível. Os grupos praticamente desapareceram e os poucos que ficaram se transformaram em “um conjunto de sujeitos que apenas compartilham o consumo de substâncias ilegais. A sociabilidade dos jovens já não existe.”

Segundo ele, contribuiu de forma determinante para essa situação não apenas o advento das novas tecnologias e a comunicação virtual, mas sobretudo “esse manto de indiferença e intolerância que se respira como produto de um modelo individualista que fragmentou a sociedade.”

“É uma crise que precisa de uma resposta ampla e coordenada, que volte a posicionar a importância do gasto público e das relações sociais”, conclui Tajani, recordando os esforços que a prefeitura de Milão está fazendo por meio de vários “pacotes de medidas anticrise”, como a assistência direta às pessoas, os incentivos às empresas para reativar a ocupação e o apoio para a criação de novas empresas (start-up), com um claro enfoque juvenil.

Êxodos

Lutz Kühn é alemão, tem 60 anos e passou os últimos 26 na Itália, onde trabalhou como engenheiro eletrônico no setor da telefonia. Em 1993, começou a trabalhar para a empresa alemã Siemens, que, em 2005, criou uma joint-venture com a Nokia.

Em 2008, a empresa de capital alemão-finlandês tomou a decisão de reduzir as atividades e anunciou um excedente de pessoal. Faltavam a Lutz – assim como para muitos colegas – seis anos para sua aposentadoria (2014) e lhe ofereceram um “incentivo para o êxodo”.

Em troca da renúncia imediata e definitiva ao posto de trabalho, a empresa lhe garantia 3 anos de “mobilidade” (2009-2011), durante os quais receberia um salário reduzido (80%), além do pagamento, em apenas uma parcela, do equivalente às 36 mensalidades que ainda faltavam para chegar sua aposentadoria (2012-2014).

Depois da queda do governo Berlusconi em 2011, o governo técnico de Mario Monti e sua ministra do Trabalho, Elsa Fornero, impulsionaram uma drástica reforma trabalhista e do sistema de aposentadoria. Eliminaram a aposentadoria por velhice, elevaram de forma progressiva a idade de aposentadoria e passaram do sistema retributivo para o contributivo, deixando milhares de trabalhadores, que haviam aceito o plano de incentivo para o êxodo, sem os meios mínimos de sobreviver.

“No meu caso, a reforma impulsionada pela agora ex-ministra Fornero estendeu minha idade de aposentadoria até o ano 2019, isto é, mais cinco anos, durante os quais não terei nem salário e nem pensão”, afirmou Kühn.

Segundo dados do INPS (Instituto Nacional de Previdência Social), não seriam menos de 390 mil os trabalhadores nessa situação. Até o momento, os programas do demissório governo Monti preveem medidas alternativas à reforma somente para 130 mil pessoas. Ninguém até o momento sabe o que acontecerá com os outros 250 mil trabalhadores em “exôdo” e suas famílias.

“Felizmente, eu vivo sozinho, tenho minha casa e alguns pequenos investimentos. Vou poder aguentar essa situação até minha aposentadoria, mas há muitas pessoas que estão desesperadas e não sabem o que fazer”, explicou Kühn.

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Kühn: "vou poder aguentar essa situação até minha aposentadoria, mas há muitas pessoas que estão desesperadas"

Mas ele não ficou de braços cruzados e, junto com a CGIL de Milão (Confederação Geral Italiana do Trabalho), se envolveu no movimento de protesto. “O que fizeram não é humanamente justo porque não podem mudar as regras do jogo sem levar em conta as consequências, deixando centenas de milhares de pessoas em uma situação muito difícil”.

É por isso que a sede central da CGIL em Milão abriu um espaço para esses trabalhadores. “Todas as terças-feiras, escutamos as pessoas, damos orientações e conselhos, tratamos de responder a suas inquietudes. Estão preocupados, não sabem como poderão continuar pagando suas dívidas e hipotecas, querem saber se estão a salvo ou se foram pegos no pacotão dos exodados”, continuou o alemão.

Seguindo ele, é muito importante que as pessoas resgatem a dignidade como trabalhador e cidadão. “O governo fala de 'salvar' as pessoas, mas não devemos nos esquecer de que nos estão privando de um direito adquirido. Não estão dando nenhuma esmola, nem queremos ser salvos, simplesmente exigimos nossos direitos”, concluiu.

Últimos dos últimos

Paolo Oddi é advogado de imigração e membro da Associação de Estudos Jurídicos sobre a Imigração. Não tem a menor dúvida de que quem mais está pagando por essa crise são os setores mais desprotegidos, entre eles, os imigrantes, ainda mais se são irregulares ou ilegais.

Durante as últimas duas décadas, a Itália adotou uma política imigratória marcadamente proibicionista e um de seus efeitos tem sido a impossibilidade de regularizar o estado migratório para centenas de milhares de cidadãos extracomunitários (não pertencentes à União Europeia). “Essa situação nos levou a buscar trabalhos precários e mal pagos, expostos à chantagem dos empregadores e à ameaça de sermos detidos e expulsos”, contou Oddi.

O mercado de trabalho, em plena crise, aproveitou essa grande quantidade de mão de obra, engrossando os bolsos com trabalho irregular e pobreza. A precarização trabalhista cresceu juntamente com a precarização dos direitos dos imigrantes, e as políticas repressivas levaram a uma maior inviabilização desses sujeitos sem direitos.

Embora recentemente a Corte Constitucional tenha declarado a inconstitucionalidade de alguns dos aspectos mais nefastos da Lei 189, de Regulação da Imigração (conhecida como Ley Bossi-Fini) – entre outros, o “delito de clandestinidade” e a “ilegalidade migratória” como agravante da pena –, a perda do trabalho, até para um imigrante regular, “afunda as pessoas em uma espiral de chantagem e debilidade, e isso a despeito do fato de os imigrantes constituírem uma força vital e um recurso extraordinário para o país”, afirmou o advogado de imigração.

O Centro de Identificação e Expulsão (CIE)

“O CIE ou ex-CPT (Centro de Estância Temporal) é a abominação e uma violação aos direitos fundamentais”, sentenciou Oddi. Com a Diretiva de Retorno da União Europeia (2008), que entrou em vigor na Itália em 2011, foram de fato unificadas as políticas de expulsão de imigrantes de todos os países membros.

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Oddi, sobre os centros de identificação e expulsão: “São verdadeiras prisões, uma espécie de Guantánamo"

Com ela, determinou-se uma detenção administrativa, não superior a 18 meses, de pessoas extracomunitárias que não poderiam ser expulsas de outra forma. “Na Itália, temos sido incapazes de criar condições civis para a detenção dessas pessoas”, falou o advogado.

Com efeito, não apenas não há clareza sobre os direitos das pessoas detidas, nem tampouco sobre a regulamentação dos procedimentos de reclusão, mas também não há pessoas encarregadas da direção desses Centros, nem uma instância judicial que fiscalize o que ocorre ali.

“São verdadeiras prisões, uma espécie de Guantánamo onde as pessoas vivem em condições sub-humanas, e onde reina o caos e causalidade. Ali se misturam criminosos que cometeram vários delitos com pessoas que simplesmente perderam o emprego e não podem renovar sua permissão para continuar no país”, explicou Oddi.

Muitas vezes, quando conseguem se salvar do processo de expulsão, os imigrantes se misturam com os setores mais pobres da população italiana e com os “novos pobres” da crise.

Casa della Carità

A Casa della Carità (Casa da Caridade) é uma fundação cuja sede central surge fora de Milão e desenvolve suas atividades com apoio do arcebispado e da prefeitura. Seu objetivo é zelar pelos direitos das pessoas que se aproximam da estrutura residencial e criar novos caminhos para a autonomia, assim como conscientizar as instituições e os cidadãos sobre os direitos de cidadania.

A cada ano, oferece hospitalidade a mais de 300 pessoas e vários serviços a milhares de cidadãos em dificuldade. Em seus 10 anos de existência, a Casa atendeu necessidades urgentes de pessoas oriundas de 90 países no mundo.

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Emanuela “Tea” Geromini (foto à esquerda) é assistente social e há sete anos começou a trabalhar com a Casa della Carità. Ela explica que o Centro de Escuta, onde desempenha seu trabalho, registrou entre 2009 e 2012 um aumento significativo das demandas, sobretudo por parte de cidadãos estrangeiros.

“Há muito mais gente que chega para buscar apoio e que vive em situações extremamente difíceis. Os pedidos de emprego, por exemplo, sextuplicaram e isso nos indica que o trabalho se converteu em uma prioridade”.

Também houve um aumento substancial do número de famílias despejadas. “Perdem o emprego e não conseguem continuar pagando a hipoteca, ficando assim expostas ao despejo. Muitas vezes, essa situação gera formas diversas de transtorno mental, aumentando a carga de sofrimento que já os oprimia”, continuou a assistente social.

No caso dos estrangeiros, essa situação leva à perda da autorização de permanência no país. “Pessoas que talvez tenham vivido legalmente na Itália por até dez ou 20 anos se encontram de repente sofrendo uma condição de clandestinidade, expostos à precariedade e até à detenção e à expulsão”, explicou Geromini.

No caso das mulheres, há uma verdadeira perda de identidade. “Ficam atadas a uma dupla ausência: de seu país de origem e da Itália, onde, com muita dificuldade, tinham adquirido um status, uma razão de ser”.

Geromini adverte também para o perigo de um recrudescimento do racismo e de novas formas de discriminação racial. “A crise e a necessidade de encontrar a quem culpar por todas as suas desgraças acentuam a intolerância em relação a grupos estrangeiros. Uma guerra entre pobres em que somente há perdedores.”
 

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