Morre o escritor Stéphane Hessel, pai intelectual dos indignados

Pensador e humanista francês revolucionou protestos populares pelo mundo com seu livro de 32 páginas

Redação

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Pensador e escritor Stéphane Hessel more nesta quarta-feira e deixa como legado uma história humanista e 


O pensador, escritor e diplomata franco-alemão Stéphane Hessel, autor do popular manifesto "Indignai-vos", morreu nesta quarta-feira (27/02) aos 95 anos, informou sua esposa Christiane Hessel-Chabry à imprensa francesa.

Hessel nasceu em Berlim, em 1917, numa família de descendência judaica e se naturalizou francês 20 anos depois, indo para a França durante a Segunda Guerra Mundial. O pensador se uniu a Charles de Gaulle na Resistência Francesa, foi capturado pela Gestapo (polícia secreta nazista) em 1944, passou pelos campos de concentração de Buchenwald e Dora-Mittelbau, escapou com identidade trocada, foi recapturado e conseguiu fugir na transferência para o campo de Bergen-Belsen.

Após o final do conflito, iniciou sua carreira diplomática no Ministério de Relações Exteriores francês como embaixador na China e depois como secretário da comissão, onde redigiria a Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1948. Hessel era militante do Partido Socialista desde 1986 pela proximidade com François Mitterand, presidente francês entre 1981 e 1995. Ele também mostrou cumplicidade com José Luis Zapatero, ex-primeiro-ministro espanhol do PSOE (Partido dos Trabalhadores Socialistas da Espanha).

Mas sua fama mundial chegou pelas mãos do "Indignai-vos", um manifesto político publicado na França em outubro de 2010, e que em palavras do autor "conclama os jovens a se indignar". Em apenas 32 páginas, Hessel fez uma chamada à resistência da população que inspirou movimentos de protesto no mundo todo, entre eles, os "Indignados" do movimento 15-M da Espanha. “A pior das atitudes é a indiferença, é dizer ‘não posso fazer nada, estou me virando’”, afirmou.

"Este livro transformou totalmente minha vida. Eu era um pequeno diplomata aposentado que levava uma vida tranquila e agora não posso passear por Paris sem que alguém me pare na rua para me agradecer. É maravilhoso", disse o autor há alguns meses.

Publicado em outubro de 2010 por uma pequena editorial de Montpellier, no sul da França, quase sem promoção midiática e com custo de €3, o livro se transformou em um grande sucesso de vendas, com quase um milhão de exemplares vendidos em dez semanas. O livro ultrapassou fronteiras, foi traduzido para cerca de 30 idiomas e vendeu quase quatro milhões de exemplares.

“A razão básica de ser da Resistência era a indignação. Nós, veteranos dos movimentos de resistência e das forças combatentes da França Livre, apelamos às jovens gerações para manter viva a indignação, transmitir essa herança da Resistência e dos seus ideais. Estamos dizendo: assegurem a continuidade, indignem-se! Os responsáveis políticos, econômicos, intelectuais e a sociedade toda não devem se omitir nem se deixar impressionar pela atual ditadura internacional dos mercados financeiros, que ameaça a paz e a democracia”, denuncia em suas páginas.

“Hessel conquistou seu leitor ocidental graças a seu inegável carisma pessoas e à história de guerra. Além disso, sue mensagem se torna clara e concisa para o povo farto das promessas de políticos e cada vez mais desiludido com o liberalismo capitalista”, diz o jornal Libération.

Agência Efe

Hessel e o líder espiritual do Tibete, Dalai Lama, durante conferência em Toulouse em 15 de agosto de 2011


Depois do sucesso editorial, Hessel se transformou em uma referência da esquerda, sempre sendo muito crítico com as políticas levadas a cabo no ocidente, em particular sobre imigrantes, políticas sociais e mercados financeiros. O autor, porém, renunciou aos direitos do livro desde o início.

"Acredito que há um risco, que é o de que as pessoas se indignem, protestem e depois tudo continue na mesma. É preciso que a indignação dê lugar a um comprometimento conjunto", disse em entrevista ao Público em 2011.

Depois de “Indignai-vos”, escreveu outro livro que também teve êxito, “À nous de jouer” (algo como “Nossa oportunidade” e traduzido na Espanha para “Comprometa-se!”). Publicado no fim de 2011, o livro é uma conversa com um jornalista e ativista francês de 25 anos, Gilles Vaderpooten. Ali, Hessel traça em oito aspectos seu conceito de democracia, compromisso, rebeldia e de insurgência sempre com palavras. A promoção do livro o levou à Itália, onde precisou ser repatriado por alguns dias por um problema de saúde que custou sua vida.

* Com informações de EFE, Público.es, Público.pt e ElMundo.es

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