Referência em transporte público, Bogotá virou refém do trânsito após salto populacional

Para minimizar consequências do “trancón”, capital colombiana é organizada em zonas específicas de interesse cultural e gastronômico

Vitor Sion

Vitor Sion/Opera Mundi

Terceira cidade mais populosa da América do Sul, Bogotá sofre com trânsito diário


Apesar de ser exemplo de transporte público na América Latina, Bogotá obriga seus moradores a alterarem sua rotina em função do trânsito caótico da cidade. O Transmilenio, sistema de corredores de ônibus criado em 2000, não dá mais conta do crescimento populacional – Bogotá abriga atualmente mais de 7,5 milhões de habitantes.

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Assim que desembarca na capital colombiana, além de escutar sugestões para visitar pontos como a Catedral de Sal, em Zipaquirá, o viajante também recebe alertas sobre as horas de pico (das 7h30 às 10h e das 15h30 às 20h). Nesses períodos, as filas para pegar o Transmilênio são enormes e o tempo de espera pode chegar a até uma hora. A alternativa, então, poderia ser um táxi. Mas não é bem assim.

Nas principais atrações turísticas da cidade, é possível conseguir um carro especial (sem logotipo e o sistema de cobrança municipal), mas pode gastar até o dobro do que em uma corrida normal. No resto da capital colombiana, a cena mais comum é um taxista encostar o carro, perguntar o destino do passageiro e desistir. Com o tráfego parado, as buzinas são constantes mesmo nas ruas mais estreitas e, nesse cenário, os motoristas pensam duas vezes se a viagem realmente compensa.

 


A alternativa para os turistas vem por meio dos próprios bogotanos, que acharam uma maneira original de driblar a falta de organização. Foram desenvolvidas zonas geográficas específicas para quem quer encontrar um bom bar, café ou restaurante – bem baratos em comparação com os padrões paulistanos. No Parque de la 93 (o número é referência à rua que corta o quarteirão), as opções vão desde redes de lanchonete fast food a elegantes casas francesas e italianas.

Existe também uma grande concentração de bibliotecas, museus, centros culturais e universidades no centro da cidade. Ali, jovens caminham de cima para baixo pelas ladeiras características da capital colombiana com livros e apostilas nas mãos.

“Roteiro da cidade”

Perto desse centro cultural fica a Praça Bolívar, um dos lugares mais importantes de Bogotá. Lá, estão localizados – um em cada extremo – o Congresso Nacional, o Palácio da Justiça, a Prefeitura de Bogotá e a Catedral Primada. A história de cada construção é contada por guias voluntários, que ficam no local à espera dos turistas.

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Parque Simón Bolívar, o principal da capital colombiana, é rodeado pela Cordilheira dos Andes


O prócer Simón Bolívar, assim como na Venezuela, batiza diversas praças e monumentos na cidade, além do principal parque, rodeado pelos Andes e que costuma receber shows com capacidade para até 100 mil pessoas.

Outra parada obrigatória da rota turística é o Cerro de Monserrate, um dos melhores lugares para se observar Bogotá. Do alto dos 3.160 metros de altitude (500 metros acima de Bogotá), a vista garante ótimas fotos e ainda há dois bons e caros restaurantes.

 

A menos de uma hora de viagem de carro a partir de Bogotá (48 quilômetros) está localizada a Catedral de Sal, na cidade de Zipaquirá. Construída abaixo da superfície, a catedral fica a até 180 metros de profundidade e ocupa 8.500 metros quadrados. No caminho até o principal santuário, há esculturas de sal mostrando cada etapa da via crúcis.

Política

Quem visita Bogotá não fica alheio aos temas políticos do país. Atualmente, os bogotanos debatem principalmente as eleições presidenciais de 2014 e os diálogos de paz entre o governo e as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Apesar de contar com forte apoio da comunidade internacional, o possível acordo negociado pelo presidente Juan Manuel Santos não é unanimidade no país.

O antecessor e então correligionário de Santos, Álvaro Uribe, opõe-se tão fortemente à ideia de sentar à mesma mesa que os guerrilheiros, que deixou o governista Partido de la U para formar uma nova força política, denominada Centro Democrático.

“Ao tentar fazer um acordo com a guerrilha, o presidente Santos fez um movimento para o centro, mas está correndo um risco alto, pois não deve atrair o voto dos eleitores mais progressistas. Enquanto isso, Uribe segue forte nas províncias”, afirmou a Opera Mundi o prefeito de Bogotá, Gustavo Petro, durante visita a São Paulo no final de janeiro.

Vitor Sion/Opera Mundi

Vista do Congresso Nacional, localizado em uma das extremidades da Praça Simón Bolívar


Santos definiu o mês de novembro como prazo final para as negociações e o sucesso ou fracasso dessa empreitada terá forte impacto nas eleições do próximo ano.

Até mesmo em Bogotá, onde o eleitorado é considerado mais progressista, o possível acordo é visto com desconfiança. “Os guerrilheiros estão fazendo muitas exigências, como a indicação de um ministro de Estado. Não acho que a guerrilha tenha o direito de fazer tantos pedidos. Preferia o modo como Uribe lidava com isso, sem negociação e com forte investimento no Exército”, afirma o taxista Fernando Moreno, enquanto espera a fila de carros avançar. 

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