Na posse, Maduro acena à unidade nacional: "estou disposto a conversar até com o diabo"

Novo presidente da Venezuela convocou a população a "fazer nesses seis anos um milagre econômico e social"

Marina Terra

Em uma cerimônia carregada de emoção, Nicolás Maduro foi juramentado como presidente constitucional da Venezuela nesta sexta-feira (19/04). Maduro se postulou ao cargo após a morte de Hugo Chávez em 5 de março e a convocação de eleições pelo CNE (Conselho Nacional Eleitoral), realizadas no domingo (14/04). No dia, o presidente saiu vencedor com pouco mais de 50% dos votos sobre o candidato derrotado Henrique Capriles. Ele, por sua vez, questiona o resultado. O poder eleitoral venezuelano aceitou nesta quinta-feira (18/04) auditar 46% dos votos restantes, processo que deve demorar um mês.

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A filha de Chávez, Maria Gabriela, entregou a faixa presidencial a Maduro, ajudada pelo presidente da assembleia, Diosdado Cabello

“Venezuelanos e venezuelanas, me dirijo sem exclusões. Falo à uma pátria inclusiva, de todos e todas”, disse Maduro no início do discurso de posse, já com a faixa presidencial, entregue pela filha de Chávez, Maria Gabriela. Ele em seguida agradeceu a presença das mais de 60 delegações internacionais à cerimônia. “Agradeço o esforço, dadas as circunstâncias especiais que estamos vivendo”, afirmou, se referindo aos dias de tensão vividos na Venezuela desde a eleição. Pouco depois, um homem interrompeu o discurso. Ele logo foi retirado do local por seguranças

Maduro lembrou as oito pessoas que morreram durante onda de violência na segunda-feira (15/04), desatada após Capriles rechaçar a proclamação de Maduro como presidente no CNE, um procedimento obrigatório após o anúncio do resultado. Na ocasião ele pediu que seus simpatizantes descarregassem a "arrechera" (indignação) nas panelas, mas alguns setores promoveram incêndios e vandalização. “Não vai existir impunidade com os crimes contra os humildes”, ressaltou.

Maduro acenou para a oposição. “Quero um diálogo direto com o camponês, o trabalhador, a classe média. Que demos um abraço. Se têm diferenças, mantenham. Mas se aceitam meu convite, venham comigo. Nós garantimos a paz desse país”, disse. “Só estou aqui pelas circunstâncias histórias. Estou disposto a conversar até com o diabo. Até com o novo Carmona se for necessário, para que acabe o ódio contra o povo venezuelano”, continuou, ao se referir a Capriles, fazendo alusão ao empresário Pedro Carmona, que deu golpe em Chávez em 2002.

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Maduro chega à Assembleia Nacional para a cerimônia de posse, que foi acompanhada por centenas de chavistas do lado de fora

O presidente eleito fez uma reflexão sobre a perda de votos do chavismo para a oposição. A diferença entre Maduro e Capriles foi de quase 2%, com o candidato opositor recebendo pelo menos 600 mil votos a mais do que na eleição passada, de outubro de 2012. “É fundamental escutar e trabalhar pela parte do país que não votou em nós. Me assumi como filho de Chávez, assumi como aquele que vai garantir seus sonhos, mas somente juntos somos Chávez. Esse governo será de ressurreição nacional”, pontuou Maduro. “Ganhamos apesar da guerra econômica, elétrica e psicológica”, sublinhou.



Maduro convocou a população a “fazer nesses seis anos um milagre econômico e social”, anunciando que irá completar a Missão Vivenda com um “poderoso plano Barrio Tricolor para melhorar os setores populares do país”, sem dar maiores detalhes. “Quero fazer uma revolução dentro da revolução”, prometeu, completando que pretende empreender a revolução da “eficácia, contra o burocratismo e as falhas”, propondo a criação de micromissões, para gestão pública e acompanhamento constante.

Sobre o tema da violência, Maduro afirmou que “essa é a grande revolução que precisamos fazer”, ressaltando que, de acordo com pesquisas feitas pelo governo, a insegurança é a principal preocupação de 80% da população. “Jovens que estão em grupos violentos já responderam positivamente ao nosso chamado, que entreguem as armas. Vamos construir novos valores, por um lado dizendo não ao culto das armas e à violência e do outro fortalecendo a autoridade”, disse.

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