Crise mundial e golpe de Estado castigaram economia hondurenha

De 2009 a 2012, a quantidade de pobres aumentou em 2,1 milhões. Dívida total do país, de 14 bilhões, superou 70% do PIB

Giorgio Trucchi

De acordo com o observatório do mercado de trabalho do Ministério do Trabalho de Honduras, em 2012, 67% da população – 5,5 milhões de pessoas – estava abaixo da linha de pobreza, dentre os quais 3,8 milhões estavam em situação de pobreza extrema. Dados do FOSDEH (Fórum Social da Dívida Externa de Honduras) evidenciam que, de 2009 a 2012, a quantidade de pobres aumentou em 2,1 milhões.

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A atual crise econômica de Honduras é produto da combinação de dois elementos: a crise financeira mundial e o golpe de Estado de 2009. Atualmente, a dívida total, calculada em quase 14 bilhões de dólares, superou 70% do PIB (Produto Interno Bruto) e o déficit fiscal chegou a 6%, enquanto 63% dos assalariados e 80% dos que trabalham por conta própria ganham menos que o salário mínimo e que o equivalente de cesta básica.

Raf Flores, subcoordenador do FOSDEH, estima que durante os últimos anos, “para cada 100 pessoas que passaram a integrar a população, 145 entraram em estado de pobreza, e os programas governamentais para a redução de pobreza não estão tocando nos fatores determinantes que a originam”. Além disso, há vários setores de classe média baixa que já passaram para condições de pobreza, enquanto a taxa de desemprego e de subemprego alcançaram quase 80%.

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“A situação não é apenas muito complicada: também não vemos uma visão estratégica integral do governo de como enfrentar essa problemática para gerar crescimento e, por sua vez, diminuir a lacuna de rejeição e exclusão social que vem se ampliando e que se manifesta por uma maior quantidade de migrações, pobreza e insegurança social”, afirma Flores a Opera Mundi.

Giorgio Trucchi/Opera Mundi

Raf Flores: em quatro anos, “para cada 100 pessoas que passaram a integrar a população, 145 entraram em estado de pobreza"

Segundo o economista, a principal atividade econômica que tem mantido um forte crescimento é a financeira. Isto se deve à emissão de grandes quantidades de títulos do governo de curto prazo e com alta taxa de juros. “O negócio do sistema financeiro é emprestar ao Estado e receber taxas de juros de quase 15% anuais. O mercado está tão saturado que o Banco Central está lhes garantindo duas vezes mais juros e lucros”, explica.

Durante os primeiros meses do golpe, o governo de fato de Roberto Micheletti conseguiu sobreviver econômica e financeiramente às custas do aumento desmedido do endividamento público. Os principais receptores dos títulos do governo foram justamente os setores e grupos financeiros que apoiaram o golpe e que, hoje, seguem endividando o país.

“Com essa situação a lacuna entre o poder aquisitivo das pessoas está se ampliando. O custo da cesta básica foi subindo, mas os salários não compensaram esse aumento, acentuando a curva de pobreza”, conta Flores.

O item que gera mais divisas para o país são as remessas familiares, que no ano passado alcançaram US$ 3 bilhões. Por outro lado, houve uma forte contração do setor produtivo, agrícola e industrial e da construção. Esse último, que historicamente encabeçou a geração de postos de trabalho em Honduras, não apenas não pôde recuperar-se da crise originada pelo golpe, mas também se transformou em um campo privilegiado para a lavagem de dinheiro.

Elementos de ingovernabilidade

“Os elementos de instabilidade político-econômica derivados da crise de 2009 ainda persistem, assim como se acrescentaram elementos de ingovernabilidade. O governo se lançou em medidas extemporâneas que não resolveram o problema, aprofundando o processo de privatização ou a concessão de bens públicos”, relata Flores.

De fato, na mira da COALIANZA (Comissão para a Promoção da Aliança Público-Privada) estão as rodovias, os portos, as telecomunicações, assim como a energia elétrica, os aquedutos e a rede de esgoto, os principais recursos naturais para o desenvolvimento de megaprojetos de mineração e hidrelétrica, e até o próprio território com a aprovação de reformas e de leis que impulsionam as Regiões Especiais para o Desenvolvimento (RED), mais conhecidas como cidades-modelo.

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“São processo muito pouco transparentes, cujo custo em termos de redução de entradas fiscais se desconhece. O investimento público está desaparecendo, ao passo que quase 50% dos ingressos tributários se perdem entre a rolagem da dívida e o gasto com salários. Ganhe quem ganhe em novembro [eleição presidencial], vai encontrar um país muito complicado e terá de atacar os fatores determinantes da imobilidade, exclusão e inequidade social, estabelecendo novas regras do jogo e impulsionando um pacto e um acordo econômico e social sério no país”, concluiu Flores.

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