De campeão de remo ao Holocausto: o rastro de Wächter em fotos inéditas

Álbuns de família, recém-abertos, apresentam a vida íntima do comandante da SS

Roberto Almeida


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Atualizada em 20/09, às 21h01

Bei meiner division SS [Junto da minha divisão SS]”, diz a legenda da foto, guardada no sótão do Castelo Haggenberg, na Áustria. Nela aparecem juntos, lado a lado, Karl Otto Gustav Freiherr von Wächter, então governador da Galícia (hoje noroeste da Ucrânia), Heinrich Himmler, comandante-geral da SS, e Hans Frank, governador geral da Polônia invadida.

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Esse retrato, com três dos principais responsáveis pelo Holocausto, simboliza o auge da carreira política de Wächter dentro do partido nazista, como comandante da SS e governador. O menino vienense, nascido no dia 8 de julho de 1901, cumpria ali funções que mais tarde o tornariam parte do grupo dos maiores criminosos do século 20, com papel crucial na Segunda Guerra Mundial.

Quando garoto, durante a Primeira Guerra Mundial, Wächter seguiu as mudanças de país de seu pai, o general austríaco Josef Freiherr von Wächter, membro do extinto partido nacionalista austríaco Großdeutsche Volkspartei, ou Partido da Grã-Alemanha. Sua infância foi construída sob o ideal de uma sólida identidade alemã.

Arquivo/Horst Wächter
No mesmo álbum de fotos empoeirado, e até hoje inédito, mais imagens recriam sua juventude em Trieste, na Itália, onde cursou o primário e aprendeu italiano, e em Budweis, então parte do reduto alemão na República Tcheca. Era o mais jovem de três filhos do ministro. Tinha duas irmãs.

Após chegar a Viena, embebido em um nacionalismo galopante, entrou para a “Reserva Alemã” (Deutsche Wehr). Entre 1919 e 1922, foi duas vezes campeão austríaco de remo, mas praticava também natação, escalada e esqui na neve. Entrou para o curso de direito na Universidade de Viena e, em oito semestres, tornou-se advogado.

[Foto de Wächter em cartão militar]

No dia 1º de abril de 1923, aos 21 anos, Otto Gustav von Wächter, ou apenas Otto Wächter, deu um passo crucial em sua carreira. Nessa data, ele assinou sua filiação ao então proibido partido nazista da Áustria, o "Nationalsozialistische Partei Deutscheösterreiches", ou Partido Nacional Socialista da Áustria Alemã.

Cadastrado sob o número 301.093, o jovem vienense passara a fazer parte da SA, ou "Sturmabteilung", o grupo paramilitar que sustentou a ascensão de Adolf Hitler ao poder na década de 1920 até sua eleição a chanceler, em 1933. Seu destino, a partir daquele ponto, já estava selado e culminaria com a invasão da Polônia e o início da Segunda Guerra Mundial.

Personalidade e ascensão

Documentos oficiais do partido nazista, analisados por Opera Mundi no arquivo do ativista Simon Wiesenthal em Viena, descrevem com elogios a personalidade de Wächter. Ele era de um “caráter expansivo” e tinha “força de vontade” para “aplicar decisões”. Foi classificado como “muito inteligente”, “justo” e “vigoroso”. Bebia moderadamente e era não fumante.

No álbum de fotos, o recém-admitido nazista aparece atlético, frequentando clubes esportivos. Em uma de suas viagens para esquiar na neve, em 1929, quando quebrou uma perna, conheceu Charlotte Bleckmann, filha de um industrial, com quem se casaria em 1932 e teria seis filhos - dois meninos e quatro meninas.

Arquivo pessoal/Horst Wächter

Última foto de Otto Wächter, na primavera de 1949

Apenas dois anos depois, em 1934, Wächter participaria diretamente da tentativa de golpe (Putsch), que falhou, mas vitimou o então chanceler austríaco Engelbert Dollfuss, aliado de Benito Mussolini, que, com suas pretensões fascistas tornara ilegal o Partido Comunista e dissolvera o Parlamento Austríaco. A trama, apesar de não ter dado resultados imediatos, abriu caminho para o processo de anexação da Áustria, a chamada "Anschluss", em 1938.

O distanciamento da vida familiar era inevitável. Em meio à convulsão política, Wächter se refugiou em Berlim, onde cumpriria funções como advogado do partido nazista. Seus retratos seguintes seriam, em grande parte, relacionados à ascensão na hierarquia militar até ingressar na SS, ou "Schutzstaffel", o Esquadrão de Proteção a Hitler, liderado por Heinrich Himmler.

Arquivo/Horst Wächter
Otto Wächter (esq.) durante encontro com líder do Schutzstaffel, Heinrich Himmler (centro)

No período em que conquistou suas principais promoções na SS, e foram várias de 1935 até o final da guerra, Wächter guardou tempo para ensaios fotográficos. Orgulhoso das novas posições na carreira, posava em diversos ângulos. Nas legendas das páginas, fazia anotações sobre a escalada na hierarquia militar, como em 1938, quando se tornou SS-Standartenführer, patente máxima de um oficial de campo e equivalente a coronel.

Guerra e gueto

Naquele ano, o mesmo da entrada de Hitler na Áustria, Wächter já tinha dois filhos - teria ainda outros quatro, seguindo a ideologia nazista de ter a maior prole possível. Típico burocrata disciplinado, ganhara a confiança de Himmler e partiria para as funções mais decisivas de sua carreira em 1939, quando tornou-se governador da Cracóvia, na Polônia recém-invadida, e decretou a perseguição os judeus.

“Todos os judeus acima de 12 anos no distrito da Cracóvia devem, a partir do dia 1º de dezembro de 1939, colocar em suas casas uma marca visível...Os judeus que não o fizerem devem sofrer uma punição severa...”, ordenou ele, assim como outras medidas para obrigar poloneses ao trabalho forçado. Em 1941, decretaria também a criação do Gueto de Cracóvia.

Wächter foi questionado por seu próprio pai, em carta, sobre as políticas nazistas em relação aos judeus. O documento está guardado nos arquivos do filho, Horst, no Castelo Hagenberg. Em resposta, de 22 de abril de 1941, ele lamentou e afirmou que “as medidas eram de interesse da nação como um todo.” Meses depois, em uma reunião de governo no dia 20 de outubro de 1941, Wächter diria que a “solução radical à questão judaica é inevitável.”

Arquivo Horst Wächter

Otto Wächter com os filhos, em foto de arquivo do filho Horst


Galícia e Wiesenthal

Em janeiro de 1942, Wächter era nomeado governador do distrito da Galícia em Lemberg, hoje Lviv, na Ucrânia. Sete meses depois, ele receberia ordens da SS para a erradicação dos judeus do gueto da cidade. Suas ações no cargo o tornariam “o nazista mais odiado” pelo ativista e escritor judeu Simon Wiesenthal, que morava em Lviv durante a invasão alemã.
 

No dia 15 de agosto de 1942, relata Wiesenthal em seu livro, "Os Assassinos entre Nós", Wächter fiscalizou pessoalmente o transporte de quatro mil judeus para campos de extermínio - entre eles, estava sua mãe, que nunca mais foi vista. Wiesenthal também seria enviado para campos de trabalho, mas sobreviveu e dedicou sua vida a caçar nazistas no pós-guerra. “Wächter matou pelo menos 800 mil judeus”, escreveu ele. O filho de Wächter, Horst, contesta as informações (leia a entrevista aqui).

Governo da Polônia

No final de seu período à frente da adminstração da Galícia, Wächter investiu em laços com Andrey Andreyvitch Vlasov, notório opositor de Josef Stálin, e, em 1945, já no final da guerra, foi transferido para o Reichssicherheithauptamt, o departamento responsável, entre outras coisas, pela inteligência do Reich, em Berlim, onde encabeçou a criação de exércitos de voluntários para combater ao lado dos nazistas. O projeto de guerrilha não frutificou. A guerra estava já próxima do fim.

[Otto Wächter durante discurso na Polônia}

Derrota e fuga

O dia 8 de abril de 1945 deu início à fase mais atribulada e, até agora, pouco documentada da vida de Wächter. As correspondências entre ele e a mulher, Charlotte Bleckmann, reunidas no arquivo de Horst Wächter, no Castelo Hagenberg, são as únicas fontes de informações sobre o que estava por vir.

Com a guerra próxima do fim, o ex-governador da Galícia telefonou para Charlotte, que morava em Zell am See (a cerca de 400 km de Viena). Logo em seguida, ela enterrou as jóias da família e queimou arquivos referentes ao seu governo - possivelmente o Arquivo Wächter, considerado importantíssimo por Wiesenthal para esclarecer a atuação nazista na Cracóvia e na Galícia.

“Minha mãe ficou desesperada e não sabia o que fazer”, afirmou Horst a Opera Mundi. Na época, ele tinha apenas seis anos, mas lembra com clareza os primeiros passos da família no pós-guerra. O pai era fugitivo, fez visitas esporádicas e era tratado como “um tio da América do Sul”.

A partir de 1946, Wächter adotou uma identidade falsa - circulava sob o nome de Alfredo Reinhardt - e então escapou para Roma, sob o zelo de Alois Hudal, bispo da igreja Santa Maria Dell’Anima, perto da Piazza Navona.

Governo da Polônia

Otto von Wächter (dir.) com outros membros do governo alemão nazista da Polônia ocupada

O templo, com laços germânicos, foi o trampolim de nazistas que, munidos de passaportes falsos oferecidos pela Cruz Vermelha, fugiram para o anonimato em diversos países e continentes. Wächter tentou, mas não conseguiu o documento antes de morrrer. Em cartas trocadas com um amigo que já vivia na Argentina, citou o Brasil como o destino mais fácil e seguro de entrar, mesmo sem passaporte.

Morte súbita

Pouco depois de obter informações sobre as rotas de fuga, em maio de 1949, Wächter foi dado como morto. A data de falecimento, que consta nos documentos da família, é o dia 15 de julho daquele ano. Alois Hudal, bispo que notoriamente ajudou nazistas, ficou encarregado de dar a extrema-unção. A causa foi uma icterícia grave, que ele teria contraído ao nadar nos canais da capital italiana.

Governo da Polônia

“Eu lamento que o nacional-socialismo não tenha chegado a um entendimento com a igreja. Muitas coisas seriam diferentes na Alemanha e na Europa de hoje. O poder do bolchevismo teria sido destruído”, teria dito Wächter a Hudal, antes de morrer. O corpo seria enterrado no cemitério Verano, em Roma.

[Otto Wächter (centro) com membros do partido nazista]

A morte do “nazista mais odiado” só chegaria aos jornais dois meses depois, em setembro de 1949, quando foi classificado como “assassino de Dolfuss”, por sua participação no Putsch de 1934. Wiesenthal nunca acreditou na versão de Hudal e buscou, até 1987, sem sucesso, informações sobre o Arquivo Wächter, que teria sido queimado por Charlotte.

Somente 22 anos depois, em 1971, seu restos mortais voltariam à Áustria sob sigilo e de forma ilegal, em uma manobra feita por sua mulher. Munida de um documento de transporte da ossada para Palermo, na Sicília, ela conseguiu levá-lo ao cemitério Pfarrkirche Fieberbrunn, no Tirol. Em 1985, Charlotte morreu e foi enterrada ao seu lado.

Desde então, a família se absteve de buscar ou divulgar informações sobre a história do patriarca, Otto Wächter. A última foto, com todos reunidos, data da primavera de 1949, meses antes de ser dado como morto. O assunto tornou-se tabu até que Horst decidiu revisar os documentos que tinha em casa. Eles contam em detalhes essa história, ainda ausente da bibliografia da Segunda Guerra Mundial.

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