Após intervenção a empresa, venezuelanos ficam horas em filas à espera de produtos mais baratos

Milhares de pessoas se dirigiram a lojas da Daka, acusada de especular com preços de itens importados

Luciana Taddeo

Luciana Taddeo/Opera Mundi
Desde a noite desta sexta-feira (08 / 11), quando o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, ordenou a “ocupação imediata” da rede de eletrodomésticos Daka, a maior do país, após o início de um operativo contra a especulação com os preços dos produtos, milhares de pessoas formaram filas em frente aos estabelecimentos comerciais da empresa, na expectativa de conseguir produtos a preço inferior aos que costumam encontrar no mercado.

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Sentada em um banquinho trazido de casa, no meio da fila em frente à loja da rede em Caracas, com um picolé na mão, a aposentada Maria Soto, de 70 anos, afirmou que antes era “impossível” adquirir itens eletrônicos devido aos altos preços. “Quero comprar uma TV, um ar-condicionado e um forninho”, disse a Opera Mundi, garantindo que se necessário esperaria mais algumas horas na fila. “Fizeram bem em intervir. Os empresários conseguem importar com o valor oficial do dólar e depois querem nos cobrar a preço paralelo, não pode ser”, queixou-se.

Segundo o governo venezuelano, a Daka teria colocado à venda itens com um sobrepreço de até 1200% em produtos importados. Os altos preços dos eletrodomésticos foram corroborados por alguns dos presentes na fila, que mostravam esperanças com a intervenção. Para o venezuelano Wilson Pinzón, de 37 anos, que enfrentou a longa espera para comprar um ar condicionado para sua loja de sapatos, a intervenção de empresas de produtos importados adquiridos com dólares ao valor oficial de 6,30 bolívares é uma medida que deveria ter sido tomada há tempos.

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“O governo devia ter feito essas intervenções há dois, três anos, para que já não tivéssemos este problema de especulação. Os empresários compram os equipamentos com dólares do Cadivi (Comissão de Administração de Divisas da Venezuela) e deveriam vender a este valor”, afirma. O comerciante Antonio Valero, de 35 anos, concorda que a medida deveria ter sido tomada há mais tempo. Segundo ele, a demora na fiscalização sobre a aplicação dos dólares adquiridos pelas empresas para a importação mostra que o governo “não tem mão dura suficiente”.

Neste sábado, o Indepabis (Instituto venezuelano para a Defesa das Pessoas no Acesso a Bens e Serviços), realizou novas inspeções a empresas. Durante o operativo, o organismo determinou que a empresa General Import, que distribui brinquedos, eletrodomésticos e produtos para o lar, realiza remarcação de preços em artigos disponíveis. Segundo o diretor da entidade, Eduardo Samán, um procedimento administrativo será iniciado para determinar a existência de “usura genérica” por parte da empresa.

 


Durante a tarde, o organismo informou, por meio do Twitter, que uma das empresas inspecionadas, a Imgeve, diminuiu em até 50% os preços dos eletrodomésticos. A Daka, por sua vez, terá que vender seus produtos a preços fixados no início de outubro. “Não podemos permitir que os salários e benefícios se percam e sejam devorados por preços especulativos (...) estamos anulando o aumento de preços injustificados”, informou Samán durante inspeção na loja.

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De acordo com ele, os produtos têm seus preços alterados pela rede mesmo quando não são mercadoria recém-chegada. Citando alguns exemplos, disse que uma secadora estava sendo vendida a 76,5 mil bolívares, quando seu preço deveria ser 39,9 mil. Segundo o chefe do Órgão Superior para a Defesa da Economia, Hebert García Plaza, será preciso empreender ações legais contra empresas que cometam usura. Ele afirmou que operativos serão realizados nos setores de calçados, roupas, brinquedos e alimentos.

A possibilidade de conseguir produtos a preços regulados, que segundo os que aguardavam na fila poderiam chegar à metade do fixado anteriormente pela rede, fez com que muitas pessoas se aproximassem do local sem demanda específica. Foi o caso do colombiano Samuel Ostino, de 27 anos, que diz residir em Caracas e trabalhar com “economia informal”. ”Escutei da intervenção e vim pra cá porque os preços vão diminuir. Vou comprar o que encontrar. Com tanta gente, é preciso ver o que sobra, mas vou ficar aqui mais cinco, seis se necessário”, contou ele, que afirmou estar na fila deste a noite de ontem.

Luciana Taddeo/Opera Mundi

Redução dos preços em empresa ocupada levou milhares de pessoas a esperar horas na esperança de comprar itens mais baratos 

A Guarda Nacional Bolivariana foi acionada para resguardar os comércios intervindos para a fixação de “preços justos”. Na Daka, a força policial controla o acesso dos consumidores desde a noite desta sexta. Devido à longa espera e à grande quantidade de pessoas que aguardavam o momento de poder entrar na loja, uma lista foi organizada para estabelecer a ordem de chegada dos consumidores. Por diversos momentos, os consumidores que esperavam há horas entoavam coletivamente demandas como “lista, lista”, exigindo que a organização fosse cumprida.

Samán pediu que a população mantivesse a calma durante a inspeção dos estabelecimentos e que não se dirigisse aos locais com desespero. Segundo ele, os preços justos serão garantidos em todos os comércios. Em alguns casos, como no estabelecimento Pablo Electrónica, a revisão de preços durará mais de um dia, impedindo acesso ao público. Segundo a imprensa local, avisos na loja já informam os clientes que, quando as portas do comércio reabrirem, somente um artigo poderá ser adquirido por pessoa.

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