Esclarecer cumplicidade entre empresários e ditadura é dever com os próprios militares, diz jornalista argentino

Segundo Horacio Verbitsky, executivos se reuniam com Forças Armadas para definir torturas na Argentina

Felipe Amorim

Esclarecer a relação de cumplicidade entre o empresariado e a ditadura argentina é um dever do Estado à sociedade, mas também para com os próprios militares condenados pelos crimes e violações aos direitos humanos. A opinião é do jornalista argentino Horacio Verbitsky, para quem é importante visualizar a imagem completa do processo golpista: “Do contrário, poderia parecer que de repente desembarcou uma nave espacial na Argentina e chegou um grupo de sádicos militares que começou a cometer crimes espantosos de pura maldade”, explicou a Opera Mundi.

Verbitsky esteve em São Paulo na tarde da última segunda-feira (25/11) para uma sessão pública na Comissão Estadual da Verdade Rubens Paiva, na Assembleia Legislativa, ocasião em que lançou seu mais recente livro Cuentas Pendientes: los cómplices económicos de la ditadura.

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Na sua 21ª obra, organizada em parceria com Juan Pablo Bohoslavsky, Verbitsky enumera diversos tipos de cumplicidade financeira entre o alto capital e o aparelho da ditadura militar. Segundo o jornalista apurou, era comum que empresários do setor industrial se reunissem com generais e coronéis para fazer o planejamento da repressão.

A colaboração do meio empresarial também se dá por mecanismos mais indiretos. Muitas empresas, por exemplo, forneciam fichas e registros de seus funcionários a serviços de inteligência do governo argentino — facilitando sequestros e desaparecimentos, portanto. Verbitsky lembrou ainda que grandes empresas emprestavam seus carros para que agentes da repressão pudessem transitar pelas ruas levando presos políticos sem serem notados.

A forte aliança entre alguns setores do capital argentino e o governo ditatorial rendeu alterações significativas na ordem econômica e benefícios convenientes a esses aliados. O regime de exceção permitiu, por exemplo, que diversas leis trabalhistas fossem derrogadas, expondo a classe trabalhadora a mais exploração. O aparelho da repressão também foi usado para concentrar ainda mais o capital em certos setores, facilitando apropriações e fusões e inclusive sequestrando alguns empresários de menor expressão.

Primazia da política

No que diz respeito à transição da ditadura à democracia e ao acerto de contas do passado, é notório que a Argentina se encontra em posição bem mais avançada. Enquanto o Brasil segue amarrado pela Lei de Anistia e criou no ano passado a Comissão Nacional da Verdade, o país vizinho já colocou atrás das grades centenas de militares — muitos dos quais em presídios comuns.

Para Verbitsky, é difícil comparar a maneira como os dois países latino-americanos lidam com a própria memória; os processos são muito particulares. O que o jornalista faz é ressaltar a importância do contexto histórico atual favorável e propício para que se investigue o passado com isenção e afinco. “Em um cenário de primazia da política sobre os poderes econômicos, se abre espaço para responsabilizar a cumplicidade e os crimes da ditadura”, observou.

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