Hoje na História: Vítor Emanuel II é proclamado primeiro rei da Itália

Hoje na História: Vítor Emanuel II é proclamado primeiro rei da Itália

Max Altman

Em 17 de março de 1861, o primeiro parlamento italiano, reunido em Turim, consagra o rei do Piemonte e da Sardenha, Vítor Emanuel (em italiano, Vittorio Emmanuelle) como “rei da Itália pela graça de Deus e da vontade da Nação”. Assume o nome de Vítor Emanuel II. A Itália está quase inteiramente unificada restando apenas o reinado veneto e Roma, em virtude da presença do Vaticano, hostis à unificação.

A Itália precisou esperar pelos efeitos da Revolução Francesa para que seus anseios de liberdade e unificação se vissem renascidos. Adormecido por séculos, sonho de poetas, o legítimo sentimento de voltar a formar uma pátria foi reavivado pelos feitos espetaculares de um jovem general republicano de apenas 27 anos, nascido na Córsega, de família italiana, Napoleone Buonaparte (que mais tarde, ao estudar em Paris, afrancesou o nome para Napoléon Bonaparte), que se tornara o comandante em chefe dos exércitos franceses na Itália.

A unificação nacional italiana, alcançada depois de uma luta de quase 30 anos (1831-1861), foi um movimento político e cultural sui generis que contou com a participação das mais diversas personalidades daquela época, notadamente, um reconhecido intelectual, um extraordinário homem de ação e um grande compositor.

Pode-se dizer que o messias da Itália contemporânea assumiu a forma de três Giuseppes: Giuseppe Mazzini (1805-1872), Giuseppe Garibaldi (1807-1882) e Giuseppe Verdi (1813-1901). Um pelas ideias, outro pelas armas e o último pela arte, dotaram o povo peninsular da teoria, da espada e do hino, para que nas esteiras do risorgimento vissem concluído o sonho da unificação nacional.
 
Movimentos revolucionários em Mântua (1852) e em Milão (1853), fracassaram. Todavia, o derradeiro esforço de obter um sucesso pela via revolucionária acabou numa tragédia de grandes proporções. Em 2 de julho de 1857, o mazzinista Carlo Pisacane, vindo de Gênova desembarcou na costa napolitana, com 300 seguidores, para surpreender as autoridades bourbônicas. Foram cercados e trucidados pelos camponeses da região, suspeitos de serem bandidos. Com o malogro de Pisacane, encerraram-se as possibilidades de os mazzinistas servirem como a vanguarda do processo nacional italiano. O insucesso político de Mazzini e o exílio forçado de Garibaldi em Nova York, em 1850, abriram as portas para o Conde de Cavour, primeiro-ministro do Piemonte e funcionário da Casa de Sabóia. Líder do Partido Moderado, Cavour chefiou o processo seguinte da unificação nacional. Cavour, ao contrário de Mazzini, tinha um Estado por detrás e não grupos desorganizados de patriotas.

Com a adesão de Garibaldi - que até então era o mais audaz condottiero (condutor) dos republicanos – à causa do Vítor Emanuel II e de Cavour, em 1859, a sorte estava lançada.

Mazzini era estreitamente vinculado aos carbonários, os jacobinos italianos do início do século XIX. Ao longo da sua vida empunhou a bandeira da unificação da Itália, então apenas uma expressão geográfica, religiosa e cultural, mas não um Estado poderoso como a França ou a Espanha. Em 1831, no exílio em Marselha, fundou o movimento a Jovem Itália, com a intenção de mobilizar seus concidadãos para a causa da construção de uma nação “Una, Independente, Libera, Repubblicana”. Encarnou com Verdi e Garibaldi, a paixão por uma Itália livre do controle do imperador estrangeiro e independente do Papa.

Garibaldi, “o herói de dois mundos”, como ficou consagrado, foi um dos mais notáveis comandantes do século XIX. Dotado de uma coragem pessoal assombrosa, nada lhe parecia impossível. Fugido da Europa em 1836, ele lutou no Brasil na Revolução Farroupilha (1837-40) e no Uruguai comandou a Legião Italiana durante o longo cerco de Montevidéu (1845-51). Retornando à Itália, lutou com seus companheiros "camisas vermelhas" pela unificação.

Verdi morreu aos 87 anos. Num pesado dia do inverno de Milão, em 27 de janeiro de 1901, uma massa incalculável saiu às ruas para prestar uma da mais belas e comoventes homenagens ao maior compositor italiano. À passagem do féretro, o povo cantou a célebre passagem Va, Pensiero, da ópera Nabucco. No libreto desta obra, os judeus escravizados pelo rei Nabucodonosor pediam inspiração para resistir com coragem às aflições. Estreada em 9 de março de 1842, os espectadores sentiram que ali, no coro do Va, Pensiero, nascia uma versão italiana da Marselhesa. Desde então, Va, pensiero consagrou-se como o hino da unificação italiana, enquanto o nome de Verdi era inscrito nos muros das cidades dessa forma: "Vittorio Emmanuelle Rè DItália".

Somente depois da morte de Cavour em 1861, o rei passou a exercer maior influência sobre o governo. Sua ação foi coroada com a incorporação de Veneza e de Roma, proclamada em 1870 capital da nação, provocando a separação definitiva entre o estado italiano e o Vaticano.



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