Esquerda cresce e ganha espaço dos partidos tradicionais na Espanha

De acordo com pesquisa divulgada hoje, IU tem atraído eleitores do PSOE, que apresenta queda histórica; PP não conseguiria formar governo sem apoio de centro-esquerda

Redação


O crescimento da IU (sigla em castelhano da Esquerda Unida) e seu fortalecimento como terceira força política na Espanha foi a principal novidade em uma pesquisa de opinião eleitoral divulgada nesta quinta-feira (02/01) pelo jornal El Mundo.

O levantamento, realizado pelo instituto Sigma Dos em parceria com a publicação, mostra também queda acentuada dos dois partidos que monopolizam politicamente a Espanha nas últimas décadas: o governista PP (Partido Popular), da direita conservadora, e o PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol), de centro-esquerda, principal bancada de oposição – o critério principal usado pela realizadora da pesquisa para determinar o desempenho é em relação à última eleição geral, disputada em 2011. 

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De acordo com a pesquisa, o PP somaria atualmente 33,3% dos votos,  11,3 pontos percentuais a menos do que o registrado na eleição de 2011. O resultado não é de todo ruim para os governistas, pois sua vantagem sobre a centro-esquerda seria ainda maior, O PSOE chegou ao pior nível histórico dessa avaliação (realizada desde 2003), com 24,4% de preferência, ou 8,9 pontos percentuais atrás dos rivais – na eleição de 2011, eles somaram 28,76%.

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O coordenador-geral e líder da Esquerda Unida é o agricultor Cayo Lara

Segundo a avaliação da pesquisa, o cenário econômico tradicional do fim de ano, que prevê contratações temporárias para o Natal e o Réveillon, sempre favorece o partido governante. A aprovação da nova lei de aborto, mais restritiva do que a anterior, também pode ter feito com que o partido voltasse a ter apoio de setores mais conservadores.
 


No entanto, esse percentual torna virtualmente impossível para o PP obter maioria no Congresso de Deputados, principal órgão legislativo espanhol, pois ele teria dificuldades em fazer alianças – com o resultado apresentado hoje, seria necessário um governo de coalizão nos moldes alemães entre PP e PSOE para garantir uma maioria absoluta, cenário pouco realista.

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A preferência pela IU, que obteve 6,9% dos votos da eleição passada, mais que dobrou, alcançando 14,7% dos entrevistados (1,3 ponto a mais do que em novembro). Outro partido que apresenta bom resultado é a UPyD (União Progresso e Democracia), de centro, que de 4,7% chegou a 9,8% - no entanto, está em queda há dois meses.

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Muito do crescimento da IU é atribuído à fuga de adeptos do PSOE. Segundo a avaliação da pesquisa, o discurso do líder do partido esquerdista, Cayo Lara, está alinhado com as necessidades da população afetada pela crise econômica. Por apresentar alternativas vistas como radicais pelo PSOE, e sem propor concessões, como age historicamente a centro-esquerda europeia, ganha parte de um eleitorado que acredita não ter mais nada a perder.

Foram realizadas mil entrevistas por telefone entre os dias 26 e 28 de dezembro com margem de erro de 3,6 pontos.

Avaliação

Se o PP ganhou terreno eleitoral no último mês, recuperando 2,7 pontos, a avaliação do governo de Mariano Rajoy continua muito negativa. Todos os ministros ficaram abaixo da média de aprovação. Quase dois terços dos entrevistados (63%) consideram o desempenho de Rajoy como ruim ou muito ruim (entre eles, 29% de simpatizantes do PP), enquanto 68,9% diz o mesmo sobre sua equipe, especialmente os mais jovens (apenas 8,6% avaliam como boa ou muito boa).

O quadro de insatisfação, no entanto, ainda merece cuidados, já que ainda resta algum tempo para a próxima eleição geral, ainda sem data definida. Como a última ocorreu em novembro de 2011, a próxima deverá se realizar somente em 2015, salvo no caso de antecipação.
 

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