Meios comunitários aumentam consciência de indígenas e negros em Honduras

Novas emissoras privilegiaram a participação de jovens e mulheres, desempenhado um trabalho educativo e cultural

Giorgio Trucchi

A normativa especial para a mídia comunitária recentemente aprovada em Honduras, assim como a criação da AMCH (Associação de Meios de Comunicação Comunitários de Honduras), como estímulo para que organizações sociais e comunidades sejam incitadas a solicitar ao Estado novas frequências ou o reconhecimento daquelas já usadas para transmitir de “forma livre”, são elementos que evidenciam a crescente conscientização dos hondurenhos sobre a importância da comunicação e da quebra do oligopólio informativo que existe no país.

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É um processo iniciado há vários anos com o apoio e o empenho determinantes das populações indígenas e negras de Honduras, e continuado depois do golpe de Estado de 2009, quando ficou ainda mais evidente a capacidade das grandes corporações de informação de criar “cercos midiáticos” e manipular a realidade que o povo hondurenho estava vivendo.

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A Rádio Guarajambala e a Rádio A Voz Lenca AM e FM são três emissoras comunitárias que operam com a coordenação e o financiamento autoadministrado do Copinh (Conselho Cívico das Organizações Populares e Indígenas de Honduras). Criadas com muito esforço e coragem no começo do novo século, essas rádios têm como objetivo principal o trabalho de contrainformação e de comunicação alternativa popular, capacitando as pessoas em temas como a defesa dos direitos humanos, da terra, dos recursos naturais e dos direitos dos povos indígenas.

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“Sua presença no território da comunidade indígena lenca tem sido fundamental para criar consciência na população sobre as grandes problemáticas que afetam sua vida. Além disso, permitiu quebrar o cerco midiático imposto pelos meios corporativos de informação, e reunir várias comunidades para que defendam seus recursos naturais da investida do grande capital nacional e transnacional”, disse Tomás Gómez, correspondente da Rádio Guarajambala, a Opera Mundi.

Giorgio Trucchi/Opera Mundi

Gómez: "presença [das rádios] no território da comunidade indígena lenca tem sido fundamental para criar consciência na população"

As emissoras comunitárias do Copinh, cujas frequências foram reconhecidas pelo Estado em 2007, privilegiaram a participação de jovens e mulheres, desempenhado um trabalho educativo e cultural fundamental para as novas gerações. “Na nossa programação, não há uma mercantilização da informação. Queremos percorrer caminhos de libertação, reivindicando nosso direito de lutar por nossa cultura, nossa identidade e cosmovisão, pela refundação de Honduras”, afirmou Gómez.

Por estar levando adiante esse trabalho de contrainformação e de conscientização do povo lenca, e promovendo inúmeras campanhas contra os megaprojetos hidrelétricos e de mineração, a Rádio Guarajambala e a Rádio A Voz Lenca sofreram vários ataques e atentados. “Com nosso trabalho diário, enfrentamos o poder político, econômico e judicial, e, por isso, sofremos repetidos cortes de energia elétrica, ameaças e agressões contra locutores e correspondentes, e danos severos aos transmissores e aos equipamentos” lembrou o jovem correspondente.

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Entretanto, a repressão não pôde parar o trabalho das emissoras e o Copinh está solicitando 15 novas frequências para várias comunidades lencas que querem levar adiante seu projeto de rádio comunitária.

A Voz de Zacate Grande

Dez comunidades da península de Zacate Grande, na costa sul de Honduras, lutam há mais de 11 anos para que seu direito de viver e de trabalhar na terra onde permaneceram por mais de 80 anos seja reconhecido. Segundo os membros da ADEPZA (Associação para o Desenvolvimento da Península de Zacate Grande), esse direito estaria em perigo por causa da “insaciável voracidade do latifundiário Miguel Facussé Barjum”, cujo nome está ligado ao sangrento conflito agrário que afeta a região de Baixo Aguán, no nordeste do país.

No próximo dia 14 de abril, a rádio comunitária A Voz de Zacate Grande completará quatro anos no ar. Durante esse tempo, a emissora que envolve um polpudo grupo de jovens se transformou em um dos bastiões da luta das comunidades em defesa de suas terras, denunciando a presença de guardas de segurança, policiais e militares, e a repressão feroz desatada contra os membros da ADEPZA.

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Também tem sido um amplificador das denúncias contra a criminalização a judicialização do protesto social, que deixou um saldo de dezenas de detidos, presos, atingidos e feridos. De acordo com informações fornecidas por moradores de Puerto Grande, comunidade onde funciona a rádio, atualmente há mais de 90 pessoas acusadas de vários delitos e 45 receberam ameaças de morte.

“A rádio teve um papel fundamental no rompimento do cerco midiático imposto pelos latifundiários. Sabíamos que, nas comunidades, ninguém estava percebendo o que estava acontecendo e como os estavam enganando. Foi por meio da rádio que pudemos alertar a população e reunir mais pessoas para lutar contra o acúmulo e a concentração de terra”, disse Pedro Canales, presidente da ADEPZA.

Giorgio Trucchi/Opera Mundi

Canales: "a rádio teve um papel fundamental no rompimento do cerco midiático imposto pelos latifundiários"

A Voz de Zacate Grande tem sofridos repetidas intervenções militares e sofreu várias tentativas de fechamento e de despejo. Em abril de 2011, os comissários nacionais e internacionais da Comissão da Verdade visitaram a comunidade de Puerto Grande. Durante a visita, puderam escutar os testemunhos de dezenas de pessoas que sofrem sistemáticas ameaças, perseguição judicial e repressão por parte dos corpos repressivos do Estado, os órgãos competentes para fornecer justiça e os guardas privados de Facussé.

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“Quero destacar a importância de os jovens da comunidade terem organizado a rádio A Voz de Zacate Grande, porque é um instrumento com o qual podem informar e formar a comunidade. Trata-se de uma luta contra um sistema, contra um Estado que se organiza para proteger uns poucos que pretendem ser donos de tudo. É uma situação que me indigna”, disse, naquela ocasião, a então juíza salvadorenha Mirna Perla.

Quatro anos depois, a rádio está finalmente às vésperas de ter sua frequência reconhecida pelo Estado. “A perseguição contra os jovens e os dirigentes que lutam pela terra tem sido terrível. Eu mesmo sofri vários atentados a tiros, sabotaram meu veículo e me ameaçaram. Nesse sentido, apesar de considerarmos muito positiva a decisão da CONATEL (Comissão Nacional de Telecomunicações) de aprovar uma normativa especial para meios de comunicação comunitários, não podemos esquecer do que nos aconteceu e lamentamos que a CONATEL não tenha feito isso antes”, concluiu Canales.

Movimento social e popular

De acordo com o padre Ismael Moreno, diretor da Rádio Progresso, qualquer projeto de movimento social e popular em Honduras “tem de incorporar uma estratégia para quebrar o cerco midiático e a concentração dos meios de comunicação”, e também para “construir articulações, tanto em um nível interno como nacional e internacional”.

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Nesse sentido, uma estratégia de comunicação em redes e a apropriação das novas tecnologias são imprescindíveis para qualquer proposta que pretenda se configurar como uma alternativa ao modelo existente. “Acho fundamental que, nessa conjuntura, as rádios comunitárias possam se apropriar de um poder tão importante como são as frequências de rádio, transformando-as em parte de sua estratégia de luta”, afirmou Moreno.

Carlos Enamorado, coordenador da AMCH e diretor da Fundação Semente, reforçou essa tese, descrevendo a experiência peculiar da Rádio Revelação. A rádio nasceu no marco de um projeto dirigido a fomentar a participação dos jovens da zona rural do município de Curarén, na região central do país. Motivados pelo exemplo da vizinha A Voz de Zacate Grande, dez jovens começaram a realizar um diagnóstico de comunicação da região e, em 2010, decidiram montar sua própria rádio, reunindo um número crescente de colegas.

“Atualmente, a Rádio Revelação tem 150 jovens organizados em coletivos de trabalho, que levam adiante uma estratégia importantíssima de desenvolvimento local e de defesa do território, em um dos municípios mais pobres do departamento de Francisco Morazán”, explicou Enamorado.

Giorgio Trucchi/Opera Mundi

Rádio Revelação nasceu no marco de um projeto dirigido a fomentar a participação dos jovens da zona rural hondurenha 

Para o desenvolvimento e a sustentação do projeto da rádio, em relação à capacitação e formação dos jovens e compra de equipamento, foi fundamental o apoio, entre outros, da Fundação Semente, uma organização que trabalha com quase 400 mulheres camponesas, cujos filhos se envolveram e estão administrando a emissora comunitária, da Rádio Progresso, da Alter ECO (Alternativas de Comunicação) e da Oxfam Internacional.

A permissão para operar entregue pela prefeitura municipal permitiu, desde o início, frear qualquer tentativa de perseguição por parte das autoridades de telecomunicações. “A rádio contribuiu para frear a fuga de jovens para os Estados Unidos, para transformar os processos sociais e os padrões culturais, para falar aberta e publicamente de temas sobre os quais outros meios não falam, informando e sensibilizando a população sobre violência de gênero, sexualidade, defesa do território e dos recursos naturais”, afirmou Enamorado.

Um tema que diz respeito a toda a comunidade é a mineração. “Os jovens se informaram, visitaram outras experiências de resistência contra a mineração a céu aberto, realizaram seminários e foram fortalecendo seus conhecimentos para poder se contrapor ao projeto de mineração que pretende-se implementar na região”, disse o diretor da Fundação Semente.

O reconhecimento, em agosto passado, da frequência da Rádio Revelação tem dado energia para o trabalho dos jovens. “O que conquistamos nesses meses não apenas nos deu mais força para esta experiência, mas também está fortalecendo todo o movimento de rádios comunitárias e é o início de um processo muito mais amplo, que visa a criar uma nova Lei de Mídia  que democratize as comunicações no país”, disse Enamorado.

Segundo ele, a nova normativa representa, ao mesmo tempo, uma oportunidade e um grande desafio para as organizações e para as comunidades. “Esperamos que aproveitem esta conjuntura. Na AMCH, vamos continuar promovendo um sistema de meios de comunicação alternativos entrelaçados e encadeados nacionalmente, para, assim, conseguir uma maior incidência na população”, concluiu.

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