Michoacán: autodefesas surgem em contexto de paramilitarização do México

Qual é o papel do Estado e das autodefesas formadas por civis no contexto da violência no estado mexicano?

Federico Mastrogiovanni

Em 4 de janeiro, um teco-teco Cessna, que transportava um dos líderes do movimento de autodefesas do Estado de Michoacán, José Manuel Mireles, sofreu um acidente. Mireles, um dos membros do Conselho de Autodefesa, foi transportado para Morelia, a capital, e de lá, trasladado em um helicóptero black hawk, da Polícia Federal para um hospital no Distrito Federal.

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O acidente gerou uma série de questionamentos sobre o papel do Estado e das autodefesas no contexto da violência em Michoacán. Muitas são as perguntas que surgiram sobre como interpretar um movimento que, desde fevereiro de 2013, chamou a atenção nacional e internacional.

Juan José Estrada Serafín/Opera Mundi

Soldados e civis armados na cidade de Cuatro Caminos, em Michoacán. Estado não tem controle da segurança na região

Uma das consequências principais foi a militarização de algumas regiões de Michoacán pela Polícia Federal e Exército, em uma tentativa, declarada pelo secretário de governo, Miguel Ángel Osorio Chong, de acabar com a violência e apaziguar a área.

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Poucas semanas antes, o governo de Michoacán estava sendo acusado de apoiar indiretamente o cartel de narcotráfico Cavaleiros Templários, fato que, junto ao surgimento dos grupos de autodefesa e da polícia comunitária, acarretou na intervenção federal ordenada pelo presidente Enrique Peña Nieto.

O governo não parece ter uma estratégia clara. Uma das primeiras ações do Exército foi desarmar as autodefesas na localidade de Cuatro Caminos, em 14 de janeiro. Mas, frente à oposição da comunidade, oficiais do Exército abriram fogo, matando quatro civis, entre os quais uma menina de 11 anos.

De acordo com o acadêmico e analista Edgardo Buscaglia, a razão dessa aparente esquizofrenia do Estado mexicano é sua debilidade e fragmentação. Trata-se de “um Estado débil”, afirma Buscaglia, ressaltando o tema da corrupção. “A mão direita do Estado não sabe o que a mão esquerda está fazendo. É um Estado que está capturado por diferentes grupos empresarias legais e ilegais”, diz.

Em meio à tanta confusão, como sugere o famoso lema do filme Todos os Homens do Presidente, é útil “seguir o dinheiro” – follow the money. Quando se interpreta a situação do México como uma série de negócios, levados adiante com a ajuda de grupos armados que fazem o “trabalho sujo”, é mais fácil seguir esse caminho.

Juan José Estrada Serafín/Opera Mundi

Armas de alto calibre, como fuzis, são usados pelos membros das autodefesas de Michoacán, no México

Nessa linha de investigação, Simón Sedillo, jornalista independente e acadêmico nos Estados Unidos e no México pelo SURCO AC (Serviços Comunitários e Redes de Conhecimentos em Oaxaca A.C.) aposta que “o conflito é administrado por uma agenda empresarial bastante evidente”.

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De acordo com ele, no discurso sobre a violência, o governo tenta colocar o tema do narcotráfico “à parte, mas sabemos que três quartos do lucro do 'narco' estão nos bancos norte-americanos ou europeus, como o caso do HSBC demonstrou”. Em 2012, a instituição bancária foi acusada de permitir que o narcotráfico mexicano lavasse dinheiro sujo da venda de drogas.

“Isso quer dizer que os grupos criminosos são totalmente parte da agenda neoliberal. De uma perspectiva mais ampla, o que temos no México é uma guerra de baixa intensidade que, em Michoacán, começou a ter como alvos os povos indígenas da Meseta Purépecha [região do estado mexicano], considerados ameaças a esses interesses políticos e à exploração da região”, afirma Sedillo.

Reprodução
Em seu trabalho de pesquisa sobre o mapa militar no México, Sedillo cita o tenente-coronel do Exército dos Estados Unidos, Geoffrey Demarest, que esclarece que a simples posse comunal da terra é considerada uma ameaça aos interesses políticos e econômicos porque, diz o militar, “a posse comunal da terra é uma posse informal, e as posses informais da terra dão margem à criminalidade e à insurreição.”

[Oscar Naranjo, promotor de movimentos armados paramilitares colombianos]

“Colombinização”

O paramilitarismo no México não é algo novo, mas, no último ano, vem sendo associado à estratégia do PRI (Partido Revolucionário Institucional) de desenvolver uma política de “colombianização” do país.

O fato de um dos primeiros consultores de Peña Nieto ter sido o general colombiano Oscar Naranjo – peça-chave no governo de Álvaro Uribe e promotor de movimentos armados paramilitares –, é suficiente para levantar a suspeita de que, no México, queiram implementar o que, na terminologia de Naranjo, são os “grupos de choque”.

Segundo Buscaglia, o “México experimentou o paramilitarismo político no passado”, mas, o que o preocupa é que “agora está muito descentralizado, o Estado está muito fragmentado: ou seja, alguns governadores controlam grupos armados que o governo central não controla. O governo federal controla alguns grupos paramilitares que o governo municipal não controla.”

O próprio conceito de paramilitarismo levanta questões, ainda que nem sempre avaliadas com as precauções necessárias. Por exemplo: policiais militares no México podem representar a militarização da política. Mas, no contexto como um todo e dos povos indígenas de muitas partes do mundo, a paramilitarização consiste na militarização de civis.

De acordo com Sedillo, é possível reconhecer paramilitares desse tipo no México se eles tiverem certos requisitos: se forem civis; que lhes chegue armamento ou treinamento das autoridades ou de grupos transnacionais; estejam impunes; promovam o terror entre a população e controlem territórios.

No final, diz, os paramilitares servem para que o Exército e a Polícia não precisem sujar as mãos em certas ações contra a população, frequentemente por interesses econômicos. O procedimento é chamado pelo filósofo e ativista político norte-americano Noam Chomsky de “atrocidades negáveis”, onde o Estado pode dizer “não fomos nós, foi entre eles, entre indígenas, ou entre religiões, ou entre vizinhos’, para, depois, justificar uma militarização.”

Em muitas partes do país há grupos que se encaixam nesses requisitos e, em todos os casos, o Estado, em suas articulações, lhes garante relativa impunidade. Se há civis armados ou treinados pelo Estado, que cumprem “atrocidades negáveis” totalmente impunes, semeando o terror e controlando territórios, quase que certamente estamos frente a um grupo paramilitar. No caso de Michoacán, este parece ser o kit de identidade perfeito dos Cavaleiros Templários.

Então, quem são os verdadeiros paramilitares na região? Os Templários, para Sedillo, estão protegendo interesses econômicos e políticos transnacionais. “Estão metendo a mão pra extrair tudo o que está brotando, mas também para defender a extração desses recursos. Isso é muito mais paramilitar que qualquer autodefesa. Os grupos do crime organizado têm todos os requisitos que se busca em um paramilitar”, diz.

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