Filho de chanceler confirma documento: "meu pai sabia que Allende no poder despertaria direita mais dura"

Juan Gabriel Valdés, porém, diz que seu pai não usaria a expressão "forças vivas da nação" para se referir ao exército

Victor Farinelli

A revelação de que Brasil e Chile discutiram, já em 1966, a possibilidade de dar um golpe de Estado contra um governo formado pela esquerda chilena, quatro anos antes da eleição que elegeu Salvador Allende, envolveu uma conversa entre dois personagens principais: os chanceleres Juracy Magalhães e Gabriel Valdés.

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A reportagem de Opera Mundi procurou Juan Gabriel Valdés, filho do então chanceler Gabriel Valdés, e que também foi ministro das Relações Exteriores, entre 1994 e 1999 – curiosamente durante o governo de Eduardo Frei Ruiz-Tagle, filho do presidente para o qual seu pai trabalhou. Segundo Juan Gabriel, “tanto meu pai quanto o próprio presidente Allende sabiam que a chegada dele ao poder e a participação do Partido Comunista no governo despertariam o temor da direita mais dura do país, que tinha muita influência entre os militares”.

Congreso Nacional de Chile

Valdés (centro) também foi presidente do Senado chileno após a democratização do país, em 1990


O ex-chanceler, porém desmente algumas palavras usadas por Juracy Magalhães em seu relato da conversa: “meu pai jamais usaria o termo ´forças vivas da nação´ e outros que são utilizados no documento, e que são de responsabilidade do diplomata brasileiro que os descreveu”.
 


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Valdés Filho lembra que seu pai foi um dos responsáveis por organizar a transição entre os governos de Frei Montalva e Salvador Allende, o que lhe permitiu também desenvolver uma ligação de amizade com o presidente socialista. Ele relata que “Allende conversou com meu pai sobre a iminência do golpe, em um jantar em nossa casa – que também contou com a presença de Frei Montalva. Ambos eram conscientes de que o golpe viria, mas Allende tinha a convicção de que o respaldo popular do governo seria suficiente para resistir. Sua medida a respeito foi se desfazer da proteção dos militares, em quem já não confiava, passando a ser resguardado exclusivamente pelos GAP (Grupo de Amigos Pessoais)”.

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Depois do golpe, Gabriel Valdés se manteve no Chile sem direitos políticos, já que seu partido (a Democracia Cristã) foi posto na clandestinidade. Nos anos 80, Valdés formou parte de um grupo de intelectuais que tentava denunciar à comunidade internacional os abusos aos direitos humanos no país. Em 1986, promoveu a visita do senador norte-americano Ted Kennedy a Santiago, e teve seu carro apedrejado por um grupo de estudantes pinochetistas, quando ambos tentavam deixar o aeroporto, logo após a chegada de Kennedy.

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Flickr/Sebastián Piñera

Valdés (centro) durante a visita de Ted Kennedy (à direita) ao Chile


Opera Mundi também tentou contatar o Palácio de La Moneda para ter uma declaração oficial a respeito, mas a assessoria de imprensa governamental alegou que as autoridades ligadas ao presidente Sebastián Piñera estão trabalhando no processo de transição, junto com seus substitutos no governo de Michelle Bachelet, e que por isso preferem não dar mais declarações.

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