"Eles começavam a matar de manhã": sobreviventes lembram o horror vivido em Ruanda

Vinte anos após massacre que ceifou a vida de quase um milhão, locais de memória são visitados por ruandenses e estrangeiros

Fabiola Ortiz

O luto oficial em Ruanda começou nesta segunda-feira (07/04) data oficial do início do genocídio. Uma série de eventos de homenagens e tributos tem sido realizada desde o início do ano. Sob o nome em Kinyarwanda (língua falada no país) de Kwibuka, os ruandeses dedicam parte do tempo para reverenciar os mortos e relembrar a tragédia que manchou de sangue a história do país.

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A palavra Kwibuka significa lembrar, explicou o diretor do Memorial do Genocídio de Gisozi, Honoré Gatera. “São três dias de luto para lembrar o genocídio em seu vigésimo aniversário. É um grande evento. O tema é lembrar, unir e renovar”.

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Crânios expostos no Memorial do Genocídio de Gisozi, onde mais de 250 mil pessoas receberam sepultamento em Ruanda

Esta semana de abril significa para muitos ruandeses o luto para os quase um milhão de mortos. “Há aqueles que foram diretamente impactados. Outros, carregam feridas físicas e psicológicas. É um tempo de se unir e lembrar que essas pessoas precisam ser cuidadas e ter nossa assistência. Vamos lembrar para sempre, temos que unir a população e precisamos de uma nova geração para o país viver em paz”, ressaltou Gatera.

O memorial de Gisozi fica localizado em uma calma área da capital e fica próximo a uma colina. Gatera explica que a ideia de criá-lo foi iniciativa da prefeitura de Kigali, isso porque após o genocídio havia milhares de corpos espalhados por ruas e terrenos baldios. Em 2001, o memorial passou a ser usado para dar um sepultamento digno aos mortos.

Em 2004, o espaço foi aberto para o público, trazendo um viés educativo e didático. Agora a equipe do memorial está digitalizando seu arquivo do genocídio para disponibilizar o acesso online. “Mais de 259 mil cadáveres tiveram um sepultamento digno aqui”, disse o cientista social que dirige há quatro anos o memorial. “Sempre carregamos a memória de um evento, lembrar num sentido positivo é melhor que esquecer. E pelo que vemos na história da humanidade, que nunca aprendemos com o Holocausto, com o Camboja ou com os Bálcãs”, analisou.

Em sua opinião, é preciso educar as novas gerações para prevenir um novo genocídio. “Em Ruanda, nós acendemos a memória porque é uma forma de tratar com respeito as milhares de pessoas que perdemos. Lembrar porque precisamos nos reconciliar e relembrar para educar”, justificou.

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Gatera: “Em Ruanda nós acendemos a memória porque é uma forma de tratar com respeito as milhares de pessoas que perdemos"

O processo de reconciliação é lento e impreciso, admitiu Gatera. Para ele, aos poucos o país tem conseguido curar as cicatrizes. “Sempre comparo com a lavagem cerebral que ocorreu em nosso país, quando fomos educados por 40 anos para a ideologia do genocídio”, disse. Segundo ele, eetificar os erros de quatro décadas pode levar ainda mais tempo.

Mortos em igreja

Diferentemente do famoso hotel Des Mille Collines, muitos casos não tiveram final feliz. Na esperança de serem poupados, centenas de tutsis correram para as igrejas em busca de refúgio. No entanto, a matança nesses lugares foi generalizada.

A pequena igreja Ntarama, que fica em uma zona rural no distrito de Bugesera, na Província do Leste de Ruanda, distante 40 minutos de Kigali, foi alvo de um ataque em massa perpetrado por hutus integrantes da milícia Interhamwe. Muitos ficaram comprimidos no pequeno espaço da igreja por uma semana após o início do genocídio. No entanto, no dia 15 de abril, às 11h, começaram três horas de matança.

“Todos foram mortos em um único dia. Durante o genocídio, os assassinatos ocorriam de dia e não de noite. Eles começavam a matar de manhã e paravam à noite”, contou Bellancilla Uwitanze, guia do memorial Igreja de Ntarama e também uma sobrevivente. Ele é de Butare, na Província do Sul.

Ali, lembrou, os corpos dos tutsis assassinados foram encontrados apenas três meses depois do genocídio. Os restos mortais não foram recolhidos imediatamente – ficaram estirados na igreja e ao redor do lugar por mais um ano. As ossadas só foram removidas em 1995.

“Milhares de pessoas foram mortas aqui. Não só dentro da igreja, mas no jardim e nas pequenas casas em volta. Mesmo após 1994, corpos de vítimas continuavam a ser encontrados na região e eram trazidos para cá para o sepultamento”, afirmou Bellancilla. Hoje, dentro do memorial, estão sepultadas mais de seis mil pessoas.

Para a sobrevivente, não é fácil trabalhar no memorial. Todo dia é ela quem narra a história sobre o genocídio e do que aconteceu na igrejinha. “Mas também é importante trabalhar aqui para ensinar as pessoas para que entendam que isso não deve ocorrer em nenhum lugar no mundo”, contemporizou.

Diversos membros de sua família foram mortas durante o genocídio. Na época, ela tinha 16 anos e diz ter sólidas lembranças daquele período. “Eu lembro de tudo. De como foi preparado pelo governo. Hoje eu perdôo, mas logo após o genocídio era impossível. Temos que continuar a vida”, falou.

A diferenciação entre as etnias remonta à colonização e à classificação social que se conferia a uma pessoa caso tivesse um determinado aspecto físico e poder aquisitivo. “Se você tinha mais de 10 vacas e fosse mais alto, diziam que você era um tutsi, pois significava que você era rico. Se fosse mais baixo, hutu. E isso ficava registrado nas carteira de identidade”, lembrou.

“Consegui escapar porque me escondi”

Sylvère Manuveli tem hoje 62 anos e vive bem ao lado da Igreja de Ntarama. Ele estava lá no dia em que mandaram sua família abandonar a casa. “Vim com meus pais, ainda jovem. Quando nos mudamos para cá, tudo era floresta. Muitos tutsis eram empurrados para esses lugares”, contou. 

Segundo ele, desde aquele tempo os tutsis já eram alvos de discriminação. “Não tínhamos permissão para continuar os estudos. Mesmo aqueles que eram inteligentes só podiam ir até a sexta série. Por isso, decidi trabalhar na terra com meus pais”, afirmou.

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Manuveli, que sobreviveu junto a um dos seis filhos ao genocídio, perdeu quase toda a família. "Consegui escapar porque me escondi"

Quando os assassinatos começaram em abril de 1994, a milícia Iterhamwe ordenou que a família de Manuveli saísse de casa. “Mas meu pai decidiu não sair. Ele foi queimado vivo. Minha mãe foi morta na igreja e está enterrada no memorial. Eu consegui escapar porque me escondi numa área de plantas aqui perto”, relatou.

Na época, ele tinha 42 anos. Somente um dos seis filhos se salvou com ele. “ Foi Deus. Fiquei um mês escondido no mato até poder voltar para casa”. Vinte anos depois, Manuveli tenta manter a vida pacata em Ntarama, na mesma casa onde viveu com a família. Já com os cabelos grisalhos e um olhar perdido, as lembranças ainda lhe fazem companhia. Ao relatar sua história, diz, sente que é uma forma de se livrar de um passado que ainda assombra a vila rural

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