Israelenses postam 'selfies' na web para incentivar vingança após assassinato de jovens

Postagens nas redes sociais pedem retaliação contra árabes por morte dos três jovens judeus; ministra da Justiça rejeita "justiça com próprias mãos"

Felipe Amorim

Selfies, hashtags, páginas e postagens nas redes sociais são a mais nova ferramenta utilizada para alimentar o ódio entre israelenses e palestinos. Desde que os corpos dos três jovens judeus ortodoxos foram encontrados em Hebron há quatro dias, a web tem sido palco de uma campanha feroz que incita o linchamento de árabes e clama por vingança, retaliação e justiçamento dos adolescentes assassinados.

A intensidade do grito por vingaça é tamanha que chamou a atenção das próprias autoridades de Israel — ainda mais após a morte de um jovem palestino e a escalada das tensões com diversos episódios de violência registrados entre as duas partes.


Leia mais: Palestinos usam "Muro da Vergonha" como telão para ver jogos da Copa

"Odiar os árabes não é racismo, é uma questão de valores!", estampa um cartaz segurado por duas jovens israelenses, que, sorridentes e maquiadas, posam para uma selfie postada na web sob a hashtag #IsraelDemandsRevenge ("Israel exige vingança"). As imagens são muitas: rapazes, muitos dos quais integrantes do Exército, posam sem camisa, alguns segurando armas e com dizeres vingativos e estrelas de Daví tatuadas no corpo.

["O povo de Israel exige vingança", escreveu o rapaz em seu peito, usando o quepe do Exército israelense"]

Segundo o jornal israelense Haaretz, as postagens têm se concentrado em uma página no Facebook intitulada "O Povo de Israel Exige Vingança". Após acumular uma série de imagens que viralizaram pela rede social e mais de 37 mil seguidores, o endereço parece ter sido removido do ar.

Aqui, é possível ver algumas das mensagens postadas ontem logo após a notícia da morte de Muhammed Hussei Abu Khdeir, 16, cuja execução está sob suspeita de ser um ato de vingança. "Que belo início de manhã", diz um. "Foi só um? Precisamos de dez mil! Bom trabalho, espero que continue assim!", escreve outro. "Se o governo não quiser eliminá-los, nós iremos".

A campanha do ódio online acabou despertando a atenção das autoridades de Israel. Após o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, ter pedido calma e rejeitado "justiça com as próprias mãos", foi a vez da ministra da Justiça, Tzipi Livni, lembrar do respeito à lei. Segundo o NY Times, a ministra, em sua página no Facebook, assinalou que, se o assassinato do menino palestino tiver mesmo sido um caso de justiçamento, também deverá ser encarado como um ato de terrorismo.

Reprodução

Segurando uma arma de fogo, militar israelense escreveu no corpo: "Vingança!"

"Nós devemos começar a lidar com esse incitamento nas redes sociais. Isso pode ser feito por meio da educação, mas, com todo o respeito, eu não posso esperar que uma geração inteira cresça e seja educada com valores que rejeitem a violência e os assassinatos.", disse Livni, ressaltando que os responsáveis por "compartilhar" o ódio e o desejo de "morte aos árabes" deverão "pagar seu preço".

Quatro dos jovens soldados que postaram fotos já foram punidos pelo Exército e condenados a dez dias de detenção em uma prisão militar. Os recrutas, segundo reporta o Haaretz, são integrantes de um batalhão de combate estabelecido no fim dos anos 1990 apenas para judeus ultra-ortodoxos. "Isso é um assunto grave que não condiz com a conduta esperada de um soldado das Forças de Defesa Israelenses", comentou um porta-voz do Exército.

Reprodução

Fotografia mostra estrela de Daví e dizeres "Vingança" feitos com munição do Exército israelense

Ódio dos dois lados

A campanha do ódio não é exclusividade de israelenses. Também nas redes sociais, palestinos celebraram o sequestro dos jovens judeus — Eyal Yifrach, 19, Naftali Fraenkel, 16, e Gilad Shaar, 16 —, chamando-os de "os três Shalits", em referência ao sargento israelense Gilad Shalit, mantido prisioneiro do Hamas por cinco anos, libertado apenas em 2011 em troca de mil palestinos detidos.

Além disso, uma estudante de medicina em Haifa pode sofrer punições disciplinares na universidade por ter celebrado a morte dos jovens. "A equipe da Palestina marcou três gols hoje mesmo estando de fora da Copa do Mundo", postou em sua página no Facebook.

Comentários