Guido, neto de Estela de Carlotto, é músico e vive na província de Buenos Aires

Recuperação de Guido, desaparecido desde o nascimento, coroa o trabalho que a presidente das Avós da Praça de Maio começou em 1977

Redação

Após 36 anos de busca, Estela de Carlotto, presidente da associação Avós da Praça de Maio, encontrou nesta terça-feira (05/08) o neto nascido em cativeiro em 1978, durante a ditadura militar argentina. A identidade do neto número 114 foi revelada por jornais argentinos. Trata-se do músico Ignacio Hurban, chamado pela familia Carlotto de Guido.

Divulgação

Ignacio Hurban, durante apresentação

Pianista, arranjador e compositor, Guido é autor de três discos e já trabalhou com importantes nomes da música argentina e internacional. Casado, vive na cidade de Olavarría, na província de Buenos Aires, como informou o jornal Clarín.

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O neto perdido de Estela, que tem outros 13, tinha dúvidas sobre sua identidade. Por isso, se apresentou voluntariamente para fazer um exame de DNA, que confirmou que ele é filho de Laura.

Coincidência ou não, a música “Para a Memória” pode ser entendida como o percurso feito por ele em busca de sua própria história. "O exercício de não esquecer nos dará a possibilidade de não repetir", diz a apresentação da música. Um trecho, em tradução livre diz: “caminho ao sol, que faz a sombra de tudo igual/ se ao espremer do vento contra um peito trabalhador/ já não há feridas que marquem os braços de um homem inteiro/ nem há canções que apanhem o que não guarda no peito”.

Ouça a música na íntegra:

Daniel Mariani, pai de Guido, morreu durante o tiroteio no qual sua mãe, Laura, foi capturada para ser posteriormente transferida para o centro clandestino de detenção La Cancha. Guido foi separado da mãe assim que nasceu no Hospital Militar Central de Buenos Aires. Testemunhas disseram que ela só pode vê-lo por cinco dias. Dois meses depois, foi assassinada e teve os restos entregues à família.

Ativismo

A recuperação de Guido coroa o intenso trabalho que Estela realizou desde novembro de 1977, quando a filha Laura, de 23 anos e grávida de dois meses, foi detida e levada para o campo de concentração na cidade de La Plata.

Formada em magistério, profissão que exerceu durante 17 anos, Estela de Carlotto se incorporou em 1978 ao então recém fundado grupo de Avós da Praça de Maio, e dois anos depois foi nomeada vice-presidente.

Em 1987, sobre a base de um projeto da organização, foi aprovada uma lei que criou um Banco Nacional de Dados Genéticos. Nele ficou registrado o mapa genético de cada uma das avós de Praça de Maio.

Em dezembro de 1998, o parlamento argentino aprovou a lei de Criação do Fundo de Reparação Histórica para a localização e restituição de crianças roubadas, que outorgava às Avós de Praça de Maio um subsídio que equivalia na época a US$ 25 mil mensais durante dois anos. Em 2004, o fundo foi restabelecido com um subsídio mensal de 15 mil pesos (US$ 3,9 mil).

Em 1999, Estela recebeu em nome da associação que preside, o Prêmio de Direitos Humanos da República Francesa. Entre várias outras honrarias recebidas, se destaca o Prêmio dos Direitos Humanos da ONU, concedido em dezembro de 2003.

Em outubro de 2005, ela foi nomeada doutora honoris causa pela Universidade Autônoma de Barcelona (UAB), e em 2006 as Avós foram candidatas ao prêmio Príncipe de Astúrias da Concórdia.

A ativista participou de vários filmes sobre a repressão da ditadura, e promoveu o Teatro pela Identidade, que com suas apresentações visa conscientizar sobre a busca de crianças que foram roubadas de seus pais durante o regime repressor.

Em maio de 2003, ela pôde comemorar a derrubada no parlamento das leis de Ponto Final e Obediência Devida, que livravam de responsabilidade mais de mil agentes do regime militar e que em 2005 também foram declaradas nulas pela Corte Suprema de Justiça.

Outra conquista veio em 2004, quando o governo argentino decidiu transformar o edifício onde funcionava a Escola Superior de Mecânica da Marinha de Buenos Aires, o mais conhecido dos centros clandestinos de detenção que funcionou durante a ditadura militar, em um Museu da Memória.

No dia 4 de junho, Estela prestou depoimento à Justiça pelo desaparecimento de sua filha Laura em um julgamento por crimes contra a humanidade.

*com informações da Agência Efe

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