Neto da presidente das Avós da Praça de Maio adota nome da família e vai se chamar Guido

Ministério Público pediu que processo sobre apropriação de Ignácio Hurban seja incorporado ao da mãe Laura, para esclarecer relações em torno da adoção ilegal

Redação

Depois de ter encontrado a verdadeira família, após mais de 36 anos sendo procurado pela avó materna, Ignacio Hurban decidiu que o processo de aceitação de sua nova realidade incluirá a adoção do nome escolhido pela mãe ainda grávida e pelo qual foi chamado durante todo esse tempo pelos familiares. Assim, o neto da presidente da Associação das Avós da Praça de Maio, Estela de Carlotto, passará a se chamar Ignacio Guido.

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Apesar de ter tomado conhecimento de que o verdadeiro nome do neto era Ignacio, Estela se recusou a chamá-lo assim e explicou o motivo da relutância assim que o conheceu: “Vou te chamar de Guido porque sua mãe, do cativeiro, trouxe a mensagem dizendo que estava te esperando e que se fosse homem, que para te chamarmos de Guido”.

“Olho Guido e penso que esteve na barriguinha de Laura [sua filha morta durante a ditadura militar]. Me encontrei com uma pessoa maravilhosa. Encontrei Guido e então Laura não está morta”, disse Estela durante entrevista à radio Metro nesta quinta-feira (15/08).

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Estela já declarou diversas vezes que o encontro de Guido não a fará arrefecer a busca pelos demais 400 netos que seguem desaparecidos. “Temos que seguir buscando os que faltam porque outras avós têm que sentir o que eu estou sentindo”, declarou anteriormente.

Investigação

O encontro que comoveu a Argentina, além de ter impulsionado a curiosidade de jovens que pensam que também podem ser filhos de desaparecidos, deu um fôlego novo ao debate em torno dos milhares de desaparecidos políticos durante a ditadura militar no país (1976-1983).

Hoje, o Ministério Público pediu que o processo a respeito da apropriação de Guido seja transferido para a cidade de La Plata, em Buenos Aires. De acordo com o órgão, o caso deve ser acrescentado à investigação em torno do sequestro e homicídio de Laura Carlotto no centro de detenção clandestino “La Cacha”, localizado neste município.

“Nem o lugar de nascimento da criança, nem o distrito onde foi inscrito falsamente são dos dados centrais a ter em conta”. Os promotores de Justiça Hernán Schapiro e Marcelo Molina esclareceram que o que realmente tem relevância é o “fato de que a apropriação de Guido Montoya Carlotto teve como antecedente imediato, necessário e imprescindível o sequestro e privação ilegal da liberdade de sua mãe”.

Os promotores ressaltaram que o fato da criança ter sido entregue a um casal que não podia ter filhos no município de Olavarría é um laço a mais na cadeia de fatos criminosos do sequestro e assassinato de Laura Carlotto. Além disso, a investigação conjunta permitirá esclarecer questões como os elos de cumplicidade que permitiram a apropriação do bebê e a trama de pessoas envolvidas no esquema ilegal.

Assim, o caso sairia da tutela da juíza María Servini de Cubría. De acordo com a imprensa argentina, Estela não gostou do comportamento da magistrada que revelou a identidade do neto, que a presidente das avós queria preservar.

Entenda o caso

No dia 5 de agosto, a Associação das Avós da Praça de Maio anunciou que aresidente havia encontrado o neto desaparecido há 36 anos. Daniel Mariani, militava na organização Montoneros, assim como Laura. Mariani morreu durante o tiroteio no qual a mãe, Laura, foi capturada para ser posteriormente transferida para o centro clandestino de detenção La Cancha. Guido foi separado da mãe assim que nasceu no Hospital Militar Central de Buenos Aires. Testemunhas disseram que ela só pôde vê-lo por cinco dias. Dois meses depois, foi assassinada e teve os restos entregues à família.

Pianista, arranjador e compositor, Guido é autor de três discos e já trabalhou com importantes nomes da música argentina e internacional. Ele passou a ter dúvidas sobre a identidade e por isso se apresentou voluntariamente à sede das avós para fazer um exame de DNA, que confirmou que ele é o filho de Laura.

A recuperação de Guido coroa o intenso trabalho que Estela realizou desde novembro de 1977, quando a filha Laura, de 23 anos e grávida de dois meses, foi detida e levada para o campo de concentração na cidade de La Plata.

Formada em magistério, profissão que exerceu durante 17 anos, Estela de Carlotto se incorporou em 1978 ao então recém-fundado grupo de Avós da Praça de Maio, e dois anos depois foi nomeada vice-presidente.

Em 1987, sobre a base de um projeto da organização, foi aprovada uma lei que criou um Banco Nacional de Dados Genéticos. Nele ficou registrado o mapa genético de cada uma das avós de Praça de Maio.

Em dezembro de 1998, o parlamento argentino aprovou a lei de Criação do Fundo de Reparação Histórica para a localização e restituição de crianças roubadas, que outorgava às Avós de Praça de Maio um subsídio que equivalia na época a US$ 25 mil mensais durante dois anos. Em 2004, o fundo foi restabelecido com um subsídio mensal de 15 mil pesos (US$ 3,9 mil).

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