Militarização e novas leis não resolvem crise migratória nas Américas Central e do Norte, diz economista

Onda de crianças imigrantes que tentam cruzar a fronteira dos EUA sozinhas foi motivada por ação de quadrilhas

Vanessa Martina Silva

As consequências decorrentes da imigração aos Estados Unidos não são uma novidade, mas a questão ganhou novos contornos desde que uma onda migratória surgiu no último ano com milhares de crianças que passaram a buscar o “sonho americano”, desacompanhadas. A questão  provocou um intenso debate na região, principalmente após as denúncias de que essas crianças estavam sendo detidas em condições precárias . Na quarta-feira (10/09), procuradores de México, Estados Unidos, El Salvador, Honduras e Guatemala concordaram em criar uma estratégia para evitar a imigração desses jovens. A medida deverá ser oficializada nos próximos dias.

Agência Efe

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Em entrevista a Opera Mundi, o jornalista e economista mexicano Miguel Ángel Ferrer Hernández afirmou que sempre existiram crianças imigrantes, mas que o novo fenômeno se deve à ação de máfias que atuam na América Central e no México que, via redes sociais, disseminaram a informação, falsa, de que o governo norte-americano estaria concedendo facilidades como cidadania ou estadia legal a essas crianças.

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Até o momento, os governos de México e Estados Unidos responderam à crise com militarização (mais tropas nos EUA e na fronteira sul do México) e promessa de aprovação de leis para a imigração. Essa discussão, de acordo com o jornalista que estuda o tema há anos, não ataca a real motivação que leva milhares de crianças, jovens, mulheres e homens a arriscarem suas vidas para tentar melhores condições nos Estados Unidos. Eles deixam para trás uma realidade de violência, miséria, falta de oportunidades e, no caso dos mais jovens, assédio de organizações criminosas. “A imigração é um fenômeno universal que não pode ser controlado mediante leis”, opina Hernández.

Agência Efe

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Eterno retorno da imigração

Os “espaldas mojadas" (costas molhadas), chamados assim por tentarem cruzar o Rio Grande a nado para entrar nos Estados Unidos, fazem parte do imaginário coletivo mexicano. A música “el bracero fracasado”, gravada pela cantora Lila Downs, conta a história de um homem que tentou cruzar a margem sem os “atravessadores”, também chamados de “coiotes”, mas é pego em solo norte-americano e obrigado a voltar como um “braseiro fracassado”. O álbum La Línea (em espanhol) e Border (em inglês), premiado mundialmente, é todo dedicado a este tema.

Pessoas que cruzam a fronteira sem autorização, chamados de “indocumentados”, quando deportados “tentam um regresso por distintos caminhos, distintas fronteiras com o grau de sofrimento que isso significa”, fazendo disso um círculo vicioso, pontua Hernández.

Economia como fator determinante

Longe de discussões neste sentido, milícias se organizam para tentar resolver o problema “com as próprias mãos”, valendo-se, muitas vezes, de violência para inibir os imigrantes. No próximo sábado, 20 de setembro, a milícia civil Patriots pretende fechar todos os postos fronteiriços do país, em uma ação para cobrar medidas “efetivas” dos governos norte-americano e mexicano.

Na visão do também economista, o tema é mais complexo porque essa situação “convém aos Estados Unidos, já que a economia do país depende, em grande medida, do trabalho dos indocumentados que, por serem perseguidos, recebem salários menores”.

Assim, a ação efetiva “que os governos podem tomar para controlar esse fluxo é criar melhores condições econômicas e sociais nos países de origem dos imigrantes. Essa seria a única maneira de frear a imigração, mas não há em países como Guatemala e Honduras nenhuma política de desenvolvimento econômico que possa reverter o cenário atual”, analisa o jornalista.

A mesma situação é observada no México, conta Hernández. Após a entrada em vigor do Nafta (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio), o país passou a estar “ligado aos EUA política e economicamente, o que o impede de fazer esforços autônomos e de se posicionar como nação independente e soberana”.

Em 2013, o país cresceu apenas 1,1%, segundo dados do Inegri (Instituto Nacional de Estatística e Geografia). O setor industrial foi o que obteve o pior desempenho na estatística. “O México não cresce em setores importantes. É um país de desempregados, com cifras altíssimas de salários-miséria, metade das pessoas vivendo de maneira informal, em cinturões de pobreza”.

Como não há nenhuma tentativa de mudar a política econômica mexicana por parte do governo do presidente Enrique Peña Nieto, aponta Hernández, não haverá mudança significativa no tema da imigração, exceto pelo fluxo de crianças que tende a diminuir na medida em que elas forem percebendo que a suposta facilidade de permanecer nos EUA não passa de boato. “Essa é uma situação agravante, que mostra a face mais dolorosa e dramática da imigração, que sempre vai acompanhada de dor”, conclui.

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