Antiga região comunista se tornou a mais cool (e cara) de Berlim

Bares e galerias são marca de bairros localizados atualmente na região leste da capital alemã

Nina Lemos

Nina Lemos/Opera Mundi

Mitte foi uma das regiões que sofreram mudanças mais rapidamente no leste de Berlim após a queda do Muro


O antigo lado comunista de Berlim, a região leste da capital alemã, é hoje, 25 anos depois da queda do Muro, a mais artística, animada e sofisticada da cidade. 

Bairros de classe operária como o Mitte, Prenzlauerberg e Friedrichshain foram adotados por jovens artistas nos anos 90, assim que o muro caiu. Resultado: viraram hoje as regiões mais “nobres” de Berlim.


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Ícones do mundo descolado, como o hotel Soho Hause e a loja do designer Karl Lagerfeld, ficam no Mitte, uma das primeiras áreas a serem ocupadas pelos artistas, muitas vezes ilegalmente. Os prédios estavam vazios, abandonados, era só entrar. 

Volta no tempo

O leste de hoje é diferente do de 25 anos atrás. “Havia menos carros, tráfego e agitação. As pessoas moravam em prédios sem aquecimento e sem banheiro no apartamento. Era muito, muito diferente”, diz a estudante Szus Beitrag, 40 anos, nascida e criada no leste de Berlim. 

Para ela, regiões como o Mitte mudaram completamente porque as pessoas têm mais interesses comerciais nesses lugares. “São no centro, bom para negócios e escritórios. Ninguém quer saber das regiões mais periféricas do leste”, diz.

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Algumas dessas regiões mais “centrais” mudaram tanto que viraram reduto de milionários. Um exemplo é a Auguststrasse, também no Mitte, referência da arte contemporânea no mundo. A KW, um dos centros de artes mais importantes da Europa fica ali. 

Em uma travessa da Augustrasse você encontra  a igualmente sofisticada Sophiestrasse. Lá está em cartaz a exposição “Berlin Wonderland: wild years revisited”, do livro homônimo publicado pelos fotógrafos A.Fessel e C. Keller,  que mostra fotos da região logo depois da queda do muro.

Karl Marx é fashion

A cena alternativa criada nos anos 90 criou ícones da subcultura, como o Berghain, o clube de música eletrônica mais cultuado do mundo, em Friedrichshain, escolhido por Lady Gaga em 2013 para o lançamento de seu clipe. 

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E até a Karl Marx Alee, antiga Stalin Alle, ícone comunista do leste, agora é chique. É ali que fica o bar Babette, badalado e frequentado por pessoas da moda e das artes. O bar é palco, por exemplo, de festas da Semana de Moda de Berlim. Seu dono, Maike Schieroh, 46 anos, é um dos pioneiros na ocupação do leste. “O leste virou o que é hoje porque depois da queda do muro tudo era muito barato e fácil de fazer aqui. Se você queria criar uma galeria de arte, simplesmente criava. É por isso que essas regiões hoje são tão badaladas. Eram centros culturais para reunir pessoas com os mesmos interesses”, diz ele, sentado em seu bar atual, que fica em um prédio modernista que funcionava como um salão de beleza na época da Alemanha Oriental.

E Maike fez isso, com amigos:  abriu três clubes na região (dois ilegais) e uma galeria de arte em Friedrichshain. 

“Os lugares mais legais de Berlim para mim são no leste porque essa parte da cidade está sempre em movimento. Sempre tem algo novo abrindo. O oeste para mim é o mesmo que era em 92, quando me mudei para cá”, diz Stefano Peters. 

Stefano nasceu em uma Berlim diferente mas não larga o leste. “Já morei no oeste, mas prefiro o leste. As pessoas parecem mais cabeça aberta. Mas vai ver eu acho isso porque eu sou do leste, afinal, nasci aqui”, diz. 

Nem tão alternativo assim  

Tanta movimentação artística transformou algumas regiões antes alternavas em bares burgueses. O maior exemplo disso é Prenzlauerberg, que faz fronteira com o Mitte. O bairro é famoso pelo número de crianças, absurdamente alto para a Europa: 2, 5 filhos por casal. 


Aos sábados, uma feira com produtos orgânicos e veganos reúne centenas de pessoas bem vestidas que tomam champanhe ao ar livre.

O bairro mais animado de Berlim atualmente é o que mais mudou nos últimos anos: Friedrichshain. Lá ficam ruas como a Boxhagnerstrasse e a Simon Dach Strasse, famosas por seus bares e cafés. Jovens de toda a Europa são atraídos para a região.

Nina Lemos/Opera Mundi

Imagem da rua Simon Dach, em Friedrichshain


“Quando eu morava em Friedrichshain nos anos 90, o bairro só tinha uns quatro bares, foi por isso que resolvi abrir o meu primeiro, para ter onde ir”, diz Maike.

Hoje, só na Simon Dach, é possível contar mais de 30 bares, um seguido do outro.  “E acho que ainda vão abrir mais”, diz Maike, que vê com bons olhos as mudanças que aconteceram em Berlim nos últimos 25 anos. “Não acho que a gentrificação seja um grande drama. A cidade é muito grande. Quem quiser abrir um negócio novo, juntar artista, pode, por exemplo, ir para Marzahn [zona periférica no leste de Berlim]”.

Marzahn já está próximo de virar cool. Exemplo: Lichtenberg, vizinho de Marzahn, é um dos bairros mais famosos de Berlim no mal sentido. A região é conhecida por ser cinza, feia, residência de trabalhadores na época do comunismo e, depois da queda do Muro, um lugar perigoso, especialmente pela presença de skinheads. Hoje é uma das mais procuradas pelos especuladores imobiliários e com maior processo de gentrificação. É possível alugar um apartamento no bairro em 2015 por 2 mil euros (seis mil reais) por mês, em um dos muitos novos condomínios na região.

A mudança em Berlim não tem hora para parar. As obras, que continuam pelas ruas da cidade como parte da paisagem, só confirmam isso. 

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