Governo gaúcho recua e desiste de acordo com empresa israelense acusada de ocupar área palestina

Segundo assessor do governador Tarso Genro (PT), fim de protocolo com Elbit para construção de polo aeroespacial tem caráter 'administrativo'

Patrícia Dichtchekenian

O governo do Rio Grande do Sul desistiu nesta semana de uma parceria com a Elbit - principal corporação bélica israelense - para a criação de um polo aeroespacial. A decisão vem dias antes do fim do mandato de Tarso Genro (PT) à frente do estado. Em entrevista a Opera Mundi, o assessor de imprensa do governador, Guilherme Gomes, explicou nesta quarta (03/12) que a decisão foi “administrativa, não política”.

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Mikhail Frunze/Opera Mundi
Segundo Gomes, o edital da FINEP (Financiadora de Estados e Projetos; órgão vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia de fomento à inovação) forneceu recursos abaixo do previsto, o que inviabilizaria o objetivo inicial do protocolo com a Elbit para implementar a produção aeroespacial na região.

[Genro está no último mês de mandato]

“Como o resultado dos recursos foi abaixo da nossa expectativa, tomamos a decisão de encerrar o protocolo com a Elbit”, afirmou o assessor. “O governador já manifestou apoio à causa palestina, que é o mesmo posicionamento do governo federal, mas o rompimento de contrato com a Elbit não tem nada a ver com isso”, complementou.

Ontem, o embaixador da Palestina no Brasil, Ibrahim Mohamed Khalil Alzeben, foi ao Rio Grande do Sul presenciar a abertura da exposição fotográfica sobre a temática palestina, intitulada "Retratos da Resistência - Um povo que luta para não desaparecer", em cartaz em uma galeria na Assembleia Legislativa do Estado.

Lá, Alzeben recebeu uma carta assinada por Genro em que informa o cancelamento do protocolo com a empresa militar israelense. Segundo o assessor do governador, a carta serviu justamente para explicar o caráter “administrativo” da desistência do acordo. 

Procurada por Opera Mundi, a secretaria da Embaixada da Palestina afirmou hoje não saber do fim do acordo entre o Estado gaúcho e a Elbit e informou que o diplomata estava em trânsito entre Rio Grande do Sul e Brasília. Já a Embaixada de Israel não retornou as ligações.

A decisão foi celebrada e classificada como “grande vitória” na América do Sul pela campanha global BDS (Boicote, Desinvestimentos e Sanções), movimento pró-palestino pelo isolamento internacional de Israel, em nota difundida em seu site oficial.

“Israel é capaz de sustentar suas violações de direitos humanos por causa da colaboração internacional, inclusive por meio de negociações como esta que o Rio Grande do Sul acaba de cancelar”, comentou um dos membros da campanha, Jamal Juma, no comunicado. “Com o despertar do massacre contra palestinos em Gaza, esperamos que outros governos tomem medidas para acabar com a cooperação militar com Israel”, acrescenta. 

Entenda o caso

Em 29 de abril de 2013, o governador gaúcho assinou um protocolo com a Elbit para parceria no polo aeroespacial gaúcho. O empreendimento seria a segunda base nacional para lançamento de satélites. Na ocasião, Tarso Genro concedeu entrevista exclusiva a Opera Mundi, quando refutou as restrições apresentadas. “Se isso é um problema, não é do Rio Grande, mas do governo brasileiro”, disse. “A colaboração na área de defesa é uma pauta nacional".

A Elbit, segundo informou, já seria sócia da Embraer em uma empresa de capital misto, que estava renovando tecnologia dos aviões Bandeirantes, utilizados pela Força Aérea Brasileira. “Nosso estado tem o dever de estabelecer relações com quaisquer empresas em função de seu projeto regional de desenvolvimento”, argumenta.

Carlos Latuff/ Opera Mundi


A corporação israelense é denunciada por sua colaboração na construção do muro que segrega os territórios palestinos, além de fornecer equipamentos de segurança para colônias judaicas consideradas ilegais pelas ONU (Organização das Nações Unidas) e que ocupam a região da Cisjordânia.

A gravidade das denúncias contra essa companhia já provocou reação de países europeus, incomodados com o desrespeito às resoluções internacionais. O governo norueguês, por exemplo, obrigou seus fundos públicos a venderem todas as ações da Elbit que tinham em carteira. Processos semelhantes aconteceram na Alemanha e na Holanda.

À época da assinatura do protocolo, organizações pró-Palestina, como Stop the Wall e Coalition of Women for Peace, entregaram uma carta ao governador reclamando da iniciativa, que também constrangeu lideranças da Autoridade Nacional palestina.

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