Esperanças e contradições marcam Expo 2015, megaevento sobre alimentação em Milão

Com investimento bilionário e realizado com dinheiro público mesmo em tempos de crise, Expo 2015 enfrenta críticas por sua estrutura faraônica

Giorgio Trucchi

Realizadas com dinheiro público mesmo durante a crise, as Expos (Exposições Universais) são eventos internacionais extraordinários que acontecem a cada cinco anos e que envolvem milhões de pessoas ao redor de um tema específico de interesse geral. Durante seis meses (maio-outubro de 2015), a cidade de Milão, no norte da Itália, será a sede da próxima Exposição Universal — a Expo 2015 — cujo tema será “Alimentar o planeta, energia para a vida.”

Os números oficiais do megaevento do qual o Brasil já tentou ser sede — a cidade de São Paulo candidatou-se e perdeu a corrida para sediar a Expo 2020 — são impressionantes. Um recinto expositivo de 110 hectares, situado a noroeste de Milão, hospedará os pavilhões de 148 países e de dezenas de organizações internacionais, sociedade civis, ONGs e empresas. Em todo o entorno do estabelecimento será realizado um mastodôntico complexo de grandes obras urbanísticas e de infraestrutura de transporte para a mobilidade automobilística, fluvial e ferroviária.

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Marco/Flickr/CC

Realização da Expo 2015 — megaevento do qual São Paulo já quis ser sede — enfrenta críticas internas de ONGs na Itália

O megaevento contará com milhares de atividades temáticas e terá vários espaços relacionados a cadeias específicas de alimentos (café, arroz, cacau, espécies, frutas e verduras, cereais e tubérculos) e cadeias de identidade (bio-med, agricultura-nutrição e alimentação).

Os organizadores e compradores dos terrenos onde ficará a Expo 2015 — duas sociedades anônimas (Expo Spa e Arexpo Spa), que têm participação estatal majoritária e cujas estruturas administrativas são financiadas por fundos públicos — esperam não menos de 20 milhões de visitantes — 30% estrangeiros —, assim como a geração de cerca de 200 mil empregos diretos e indiretos em 5 anos e a participação de cerca de 36 mil voluntários.

O investimento realizado é de quase € 1,7 bilhão ao qual será necessário somar outro € 1,4 bilhão em termos de gastos de administração para a organização do evento e gastos capitalizados. O custo total do evento e de toda a logística e das infraestruturas se aproxima dos € 11 bilhões. De acordo com os planos, a Expo 2015 geraria € 25 bilhões de nova atividade produtiva e garantiria mais de € 10,5 bilhões em novas riquezas no território.

Entretanto, as expectativas vão muito além do aspecto puramente econômico. A grande inovação dessa nova Exposição Universal está na convicção de dar prioridade aos “legados imateriais”, isto é, a definição de diretrizes para enfrentar os desafios do novo milênio. Neste sentido, o verdadeiro desafio será “traçar caminhos novos e propor soluções concretas e reais para garantir, a cada pessoa, o direito a uma alimentação suficiente, sã e segura, priorizando a sustentabilidade ambiental, social e econômica da indústria da alimentação”, lê-se no documento oficial de apresentação da Expo 2015

Apesar dos números e das grandes expectativas à mesa, a gigantesca maquinaria que, durante quase 8 anos, vem preparando as condições para realizar esse megaevento está enfrentando fortes críticas e até uma oposição ferrenha.

Expo dos Povos

O ano de 2015 é a data limite colocada pelas Nações Unidas para alcançar os oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, plataforma aprovada no ano 2000 para resgatar do subdesenvolvimento os povos do mundo. No próximo ano, a Assembleia Geral desse organismo multilateral terá de avaliar os resultados conquistados e definir novas estratégias.

Nesse contexto geral, são mais de 40 as associações, organizações e ONGs que integram a Expo dos Povos e que, de forma simultânea ao evento oficial, realizarão um Fórum dos Povos, oportunidade em que promoverão temas e conceitos relacionados à soberania alimentar e ao direito à alimentação, promovendo o debate público sobre um conceito diferente do mote "Alimentar o Planeta, sensibilizando e envolvendo a cidadania e as instituições.

“Um megaevento como esse traz consigo problemas graves que estão relacionados ao consumo do solo, à exploração laboral, à corrupção e até a infiltrações mafiosas. Entretanto, acreditamos que é uma ocasião importante para fazer nossa voz ser escutada sobre temas prioritários como o direito à alimentação e à sustentabilidade ambiental, social, econômica e institucional”, disse Glosuè de Salvo, porta-voz da Expo dos Povos, a Opera Mundi.

Além disso, publicaram um manifesto. Esse documento pretende dar respostas reais ao desafio alimentar do planeta de maneira sustentável. “Reafirmamos os conceitos de soberania alimentar, justiça ambiental e direitos humanos como um novo horizonte de batalha política e um novo paradigma da luta contra a fome e a pobreza”, ressaltou De Salvo.

Nesse sentido, o Fórum dos Povos dará voz aos movimentos camponeses do mundo e elaborará um documento final (Carta de Milão), no qual estarão reunidas as análises e as propostas de soluções reais à grave problemática da fome e da pobreza.

“Convocamos as instituições locais, nacionais e internacionais a tomarem posições políticas claras sobre o modelo de desenvolvimento e a forma de se fazer agricultura que querem promover. Queremos que nos digam como pensam alimentar o planeta de forma sustentável, respeitando os direitos fundamentais. Queremos estar ali para comunicar politicamente e incidir na consciência e no imaginário das pessoas. Queremos propor soluções”, concluiu o também responsável pela Área de Incidência e Campanhas da organização Mani Tese.

Não à Expo!

A posição do Comitê Não à Expo que reúne dezenas de organizações, sindicatos de base, movimentos sociais e populares e militantes da esquerda radical italiana, é muito mais contundente. Para eles, a Expo 2015 não é uma oportunidade, mas uma tragédia para o território, os bens comuns e o orçamento público.

“A Exposição Universal representa um modelo de desenvolvimento antigo que já não tem razão de ser no novo milênio. Acarretará uma dívida pública superior aos 9 bilhões de euros, gerará consumo de solo para grandes obras e infraestruturas totalmente inúteis e subtrairá da produção de alimentos mais de 100 hectares de terrenos antigamente agrícolas — os quais, uma vez terminado o megaevento, serão em sua maioria privatizados e urbanizados”, disse Abo, do coletivo Off Topic, uma das organizações que integram o comitê, a Opera Mundi.

Reprodução/Facebook

Canteiro de obras em local onde será realizada a Expo 2015, em Milão, entre os meses de maio e outubro deste ano

Os números da investigação realizada pelo Não à Expo corroboram essa tese e, ao mesmo tempo, aprofundam as dúvidas sobre o significado desse megaevento. A quantidade prevista de visitantes já não é 35 milhões, mas quase a metade, enquanto os empregos diretos não chegariam sequer a 4 mil e são precários.

Além disso, em seu planejamento, a Expo Milão 2015 parece evitar temas sensíveis como as políticas impostas pelo agronegócio, a produção e a comercialização de organismos geneticamente modificados e os efeitos da expansão das monoculturas. Tampouco enfoca elementos como o uso de agrotóxicos, o acúmulo e a concentração de terras e territórios em poucas mãos (land grabbing) e o despejo forçado de comunidades indígenas, negras e camponesas em um modelo de desenvolvimento baseado na pilhagem e na exploração dos recursos naturais e dos bens comuns.

Da mesma maneira, a presença das grandes corporações do agronegócio faz temer que queiram usar a Expo 2015 como “cavalo de Troia para lançar uma nova ofensiva e voltar a abrir a porta da Europa para os transgênicos”, aponta o comitê.

Também os escândalos de corrupção que, nos últimos meses, recaíram sobre a maquinaria da Expo Milão 2015 são prova evidente da continuação de um sistema criminal que envolve setores do empresariado, da política e os golpes mafiosos que dominam o norte da Itália. Para esses setores, os megaeventos e as grandes obras conexas são uma oportunidade à qual é impossível renunciar.

Nesse sentido, a forte crítica do No Expo é multifatorial.

“Querem nos impor um modelo de cidade, de desenvolvimento e de uso do território e dos bens comuns. Nossa rejeição é absoluta e sem mediações. Que significado tem falar de “alimentar o planeta” quando o pavilhão dos Estados Unidos é financiado pela Dupont – uma das maiores empresas do agronegócio –, o sul da Suíça contará com a presença massiva da Nestlé e o patrocinador oficial do pavilhão italiano será a San Pellegrino, propriedade da mesma Nestlé?”, perguntou-se Abo.

A oposição à Expo Milão 2015 tem crescido. Investigações profundas estão sendo realizadas para sustentar as fortes críticas, que tiveram como resultado a publicação de relatórios e do livro Expopolis, escrito pelo coletivo Off Topic e pelo jornalista Roberto Maggioni.

“A Expo 2015 será um fracasso e sua herança será mais dívidas, mais cimento e mais precariedade. Por sorte, o trabalho com os territórios tem se transformado em um processo de formação política, que radicaliza a qualidade do conhecimento e dos conteúdos, transformando a preocupação inicial das pessoas por bairro em uma luta mais ampla para a cidade” concluiu o ativista do coletivo Off Topic.

Grandes obras

A questão das grandes obras cruza de maneira transversal todo o entorno da Expo Milão 2015. Um exemplo muito claro disso é representado pela construção de três novas rodovias e o projeto das Vias de Água.

No caso das Vias de Água, por exemplo, o projeto inicial previa um pequeno desvio das águas do canal Villoresi para construir um sistema de canais navegáveis. Atualmente, a especulação edilícia e a corrupção o transformaram em um projeto sem sentido, que prevê a construção de um único canal de cimento de 22 quilômetros, com um custo aproximado de € 90 milhões.

A cidadania se rebelou contra o projeto e, até o momento, conseguiu deter as escavações.

“A Exposição Universal não é mais do que um espelho, uma tela atrás da qual se esconde o verdadeiro objetivo de promover transformações profundas do território, do ponto de vista estrutural e infraestrutural. O fato de ocupar 110 hectares de terrenos agrícolas reponde à lógica de tornar efetiva a transformação urbanística desse território”, garantiu Luca Martinelli, redator da revista Altreconomia a Opera Mundi.

De acordo com o jornalista, a mesma lógica serviu para a construção das três rodovias. “É um verdadeiro paradoxo: de um lado se promove o lema “alimentar o planeta, energia para vida” e, do outro, se incentiva uma obra totalmente inútil, que ocupará de forma definitiva mais de 100 hectares de solo agrícola e cujo investimento é superior a € 10 bilhões”, completou Martinelli.

Além disso, vários terrenos que serão afetados pelas rodovias são parte do Parque Agrícola Sul de Milão, o maior parque agrícola da Europa, onde existem projetos inovadores e estratégicos de construção de máquinas agroalimentares e de agricultura biológica como, por exemplo, os DESR (Distritos de Economia Solidária Rural).

“Enfim, a Exposição Universal tem um único objetivo real: especular e acumular benefícios e dinheiro”, concluiu o jornalista do Altreconomia.

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