Mulheres vão às ruas da Turquia para protestar contra assassinato de universitária

Jovem de 20 anos foi morta em tentativa de estupro na última quarta-feira; ativistas acusam governo Erdogan de negligência frente à escalada de violência contra mulheres no país

Carolina de Assis

Milhares de mulheres saíram às ruas de várias cidades da Turquia neste sábado (14/02) em protesto pela morte da universitária Özgecan Aslan, 20 anos, vítima de violência sexual. O bárbaro assassinato de Aslan revoltou mulheres em todo o país, que há anos alertam para a epidemia de violência misógina na Turquia e para a negligência e até conivência do governo do presidente Recep Tayyip Erdogan, que tende ao radicalismo islâmico, frente à questão.

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O corpo carbonizado de Aslan foi encontrado na sexta-feira (13/02) nos arredores de Mersin, cidade no sul da Turquia. Três homens foram presos acusados de participação no assassinato. Segundo a polícia turca, Aslan pegou uma van para voltar para casa após a aula na última quarta-feira (11/02). Ela ficou sozinha na van com o motorista, 26 anos, o pai dele e um amigo dos dois. Ela teria reagido à tentativa de estupro por parte do motorista com o auxílio do spray de pimenta que carregava para se defender. Ele então a golpeou na cabeça com uma barra de ferro e a esfaqueou repetidas vezes. Os três homens colocaram fogo no corpo de Aslan e o jogaram em um rio perto da cidade.

Declarações misóginas de diferentes representantes do governo de Erdogan alimentam a atmosfera de discriminação e violência, acreditam as ativistas. O próprio presidente declarou, em novembro do ano passado, durante uma conferência pelos direitos das mulheres em Istambul, que a igualdade entre mulheres e homens “vai contra a natureza”: “no trabalho, não se pode tratar homens e mulheres igualmente”, disse ele, acrescentando que mulheres não podem fazer o mesmo trabalho que homens fazem devido a sua “natureza delicada”.

Já o vice-primeiro-ministro Bülent Arınç acredita que “uma mulher não deve rir em público. Ela deve ser modesta em suas atitudes e proteger sua castidade”. Ayhan Sefer Üstün, dirigente do partido do presidente, o AKP (Justiça e Desenvolvimento), foi mais longe. Para Üstün, “mulheres que abortam após um estupro têm mais culpa do que o estuprador.” Ayşe Nedret Akova, do CHP (Partido da República do Povo), principal partido de oposição ao governo, e membro da Comissão Parlamentar sobre Violência contra Mulheres, declarou no fim de janeiro que estes comentários são um tipo de violência misógina, já que esta "não se faz somente através de espancamentos e tiros, mas também através da política e da religião".

Os protestos pelo assassinato de Aslan lembraram a escalada dos feminicídios na Turquia nos últimos anos. Segundo dados oficiais, em 2002 foram registrados menos de 100 casos no país, enquanto em 2014 este número chegou a 300. De acordo com levantamento do site Bianet, que se dedica a questões de direitos humanos e liberdade de expressão na Turquia, somente em janeiro desse ano 27 mulheres turcas foram mortas neste tipo de crime.

Em declaração à BBC News, Sevda Bayramoglu, da Women for Peace Initiave [Iniciativa Mulheres pela Paz, em tradução livre] exigiu mudanças na legislação turca para proteger mulheres desse tipo de violência. “Homens matam, estupram e torturam mulheres. Este ‘Estado dos homens’ os protege. Esperamos que o Parlamento aja para acabar com a violência.”

Segundo o site turco ImcTV, o ministério da Família e de Políticas Sociais da Turquia divulgou comunicado em que se comprometeu a “se envolver” no processo judicial dos assassinos de Aslan. O ministro da Justiça, Bekir Bozdag, também divulgou comunicado afirmando que os assassinos “terão a punição mais severa que possam receber”.

 

*Com informações de LA Times, BBC News e ImcTV

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