A um dia de eleição, Israel tem disputa acirrada entre Netanyahu e Herzog

Resultado das últimas pesquisas indica que nomeação de premiê só sairá após negociações entre legendas, que devem durar pelo menos um mês; inédita coligação árabe-judaica aparece em terceiro

Guila Flint

As últimas pesquisas divulgadas antes das eleições desta terça-feira (17/03) demonstram que os votos dos eleitores israelenses se dividirão entre 11 partidos médios e pequenos e que, após a revelação dos resultados, provavelmente não se saberá quem será o próximo primeiro-ministro do país.

Os dois principais candidatos do pleito, o trabalhista Itzhak Herzog e o direitista Benjamin Netanyahu, aparecem com 20,8% e 17,5% das preferências, respectivamente. Como terceira força política das eleições em Israel, desponta, com 10,8% dos votos, a coligação árabe-judaica, que, pela primeira vez, agrupou em uma legenda só todos os partidos árabes, além de grupos esquerdistas que incluem cidadãos judeus.

Efrat Tordjman

Cartaz do partido Likud em Tel Aviv - "Somos nós ou a esquerda, Só o Likud, Só Netanyahu"

O partido Likud, liderado pelo atual premiê, Benjamin Netanyahu, no poder desde 2009, contaria com apenas 21 das 120 cadeiras no Knesset, o Parlamento israelense. Para compor uma coligação governamental Netanyahu precisa do apoio de pelo menos 61 deputados.

Já para o Campo Sionista, coligação de centro-esquerda liderada pelo líder do Partido Trabalhista, Itzhak Herzog, as pesquisas preveem 25 cadeiras. Esta vantagem poderia garantir a Herzog a prioridade para tentar formar uma coalizão governamental e buscar o apoio de pelo menos 36 deputados para obter uma base parlamentar.

De acordo com a legislação eleitoral em Israel, após as eleições é o presidente do país quem decide qual dos líderes políticos terá a primeira chance de tentar formar um governo, baseando-se nos números do pleito e nas recomendações de todos os partidos.

Diante do quadro que se configura nas pesquisas existe a possibilidade de que o presidente Reuven Rivlin escolha Herzog para negociar a coligação. Caso o líder trabalhista não consiga obter uma base de apoio suficiente para constituir o governo, depois de algumas semanas o mandato para negociar passaria para Netanyahu.

Tensão e incerteza

Os resultados das pesquisas agravam a situação de tensão e incerteza na qual se encontra o país, pois demonstram que todas as possibilidades continuam abertas:  ao final das negociações, Israel poderá ter tanto Netanyahu à frente de uma coligação que una direita, extrema-direita e religiosos; quanto um governo de centro-esquerda liderado por Herzog. Um terceiro cenário traria um governo de união nacional liderado em conjunto por estes dois principais candidatos.

Então, quem será o proximo premiê de Israel? Qual será a linha de seu governo? Quem serão seus parceiros? O atual chanceler, Avigdor Lieberman, que recomendou "decapitar" cidadãos árabes "desleais", ou a Lista Conjunta, composta pelos partidos árabes e de esquerda, que integra árabes e judeus?

Provavelmente, Israel só terá estas respostas um mês após as eleições.

Efrat Tordjman

Cartazes da coalizão árabe-judaica com dizeres em hebraico e árabe: 'A Minha Resposta contra o Racismo - A Lista Conjunta'

Aliados naturais e o fiel da balança

Segundo a última pesquisa, divulgada pela rádio pública de Israel, Kol Israel, o bloco liderado por Netanyahu e que incluiria seus aliados naturais poderia contar com 57 cadeiras no Parlamento. Já o bloco liderado por Herzog, obteria 54 cadeiras. Configura-se um quase empate entre o bloco de direita e o de centro-esquerda, sendo que nenhum deles teria base parlamentar sólida para constituir o governo.

Nestas circunstâncias, tudo poderia depender de Moshe Kahlon, lider do partido de centro Kulanu (Todos Nós, em tradução livre), para quem a pesquisa prevê 9 assentos no Parlamento. Durante a campanha, Kahlon não se comprometeu com nenhum dos dois blocos, manteve uma posição vaga em relação ao conflito com os palestinos e concentrou-se em uma propaganda focada em diminuir o custo de vida no país.

Não se sabe qual bloco Kahlon escolheria para se aliar. Alguns analistas dizem que ele seria um parceiro "natural" de Netanyahu, pois é dissidente do Likud. Outros afirmam que Kahlon "não suporta" Netanyahu e que preferiria trabalhar com Herzog.

Os parceiros considerados naturais de Netanyahu são os três partidos ultraortodoxos — Shas, Yahadut Hatorah e Yahad — além do partido religioso-nacionalista Habait Hayehudi, que representa os colonos israelenses que moram em assentamentos nos territórios ocupados. O partido de extrema-direita Israel Beitenu, liderado pelo atual chanceler, Avigdor Lieberman, também está entre os aliados naturais do atual premiê.

Entre os aliados naturais de Herzog estão o partido de esquerda Meretz, a Lista Conjunta de partidos árabes e ativistas de esquerda e o partido de centro Yesh Atid, liderado pelo ex-ministro das Finanças no último governo de Netanyahu, Yair Lapid.

A saída de Lapid da equipe ministerial de Netanyahu em dezembro foi, inclusive, o episódio que expôs o racha na coligação governista após desentendimentos e críticas públicas ao premiê, que defendia a aprovação de uma lei definindo Israel como “Estado-nação” do povo judeu, à qual Lapid se opôs. O racha na base do governo obrigou o premiê a convocar novas eleições, antecipando para amanhã o pleito que estava previsto para 2017.

Lapid, cuja principal bandeira é a oposição à coerção religiosa, é odiado pelos partidos ultraortodoxos que declararam que não entrariam em uma coligação governamental com ele "em hipótese alguma".

O partido de esquerda Meretz anunciou que não entraria em um governo com Netanyahu e com os partidos de extrema-direita.

Tanto Netanyahu como Herzog disseram que existe um "abismo" entre eles e negaram a possibilidade de um governo de união nacional.

Efrat Tordjaman

Outdoor com imagem de Herzog e Livni: "somos nós ou ele" (aludindo a Netanyahu)

Abstenção e indecisão

Segundo os cálculos dos institutos de pesquisa, entre 10% e 20% dos eleitores ainda estão indecisos e irão escolher o candidato só no dia do pleito. Os votos desses indecisos poderão mudar todo o quadro que se configura nos levantamentos.

Outro fator que poderá alterar o cenário é o índice de abstenção dos eleitores. Quanto maior for o comparecimento às urnas, maior será a cláusula de barreira, estabelecida em 3,25% do total dos voto. Neste caso, os partidos menores precisarão de mais votos para atingir o índice mínimo, correndo o risco de não ultrapassar a barreira e ficar fora do Parlamento.

Um destes partidos é o ultraortodoxo Yahad, liderado pelo ex-ministro do Interior, Eli Ishai, que se aliou a um grupo racista de extrema-direita que prega a expulsão em massa de todos os palestinos do país.

De acordo com as últimas informações, a Lista Conjunta, que, pela primeira vez, uniu todos os partidos árabes, deu vazão a um maior entusiasmo entre os cidadãos árabes-israelenses, que representam 20% do total da população do país. Desta forma, espera-se que o índice de comparecimento às urnas desta faixa demográfica aumente dos 54% registrados nas últimas eleições para 70%. Se as pesquisas se confirmarem, a Lista Conjunta deverá obter 13 cadeiras no Parlamento, despontando como o terceiro maior grupo partidário do país — e líder da oposição, no caso de um governo de união nacional entre Netanyahu e Herzog.

Nova esperança

A possibilidade de que os eleitores israelenses acabem retirando Netanyahu do poder desperta uma esperança inusitada no campo da centro-esquerda.

Efrat Tordjman

Cartaz do partido ultraortodoxo Shas com seu lider espiritual,o rabino Ovadia Yossef , e a frase: 'nosso pai está olhando lá de cima'

De acordo com o editorial do jornal Haaretz, "desde que voltou ao poder, Netanyahu conduziu Israel ao aprofundamento da ocupação e da colonização dos territórios [palestinos]”. Segundo o jornal, o premiê também levou o país a "duas guerras desnecessárias em Gaza e à crise nas relações com os Estados Unidos”. A "cisão" com a Europa, gerada por Netanyahu, expôs o país a ameaças de boicote e de sanções, acrescenta o Haaretz, que também menciona a legislação antidemocrática conduzida por Netanyahu que considera os cidadãos árabes do país um "estorvo".

"Há uma chance de trocar o governo de direita e levar Israel a trilhos diplomáticos moderados e de integração social", afirma o jornal, com otimismo cauteloso.

Segundo o veterano jornalista de esquerda, Uri Avnery, "agora é possivel conter a marcha da direita e restaurar alguma sanidade para nosso país".

De acordo com a imprensa local, há um clima de "pânico e desânimo" no Likud em vista do desgaste do partido, direção para a qual as últimas pesquisas vêm apontando.

Já no Campo Sionista, liderado por Herzog, o clima de otimismo é tanto que membros do partido já foram à prefeitura de Tel Aviv para reservar a maior praça da cidade, a Praça Rabin, para festejar a vitória na noite das eleições.

(*) Guila Flint cobre o Oriente Médio para a imprensa brasileira há 20 anos e é autora do livro 'Miragem de Paz', da editora Civilização Brasileira.

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