Chile descobre microrganismos na Antártida capazes de combater superbactérias resistentes a antibióticos

Para cientista chilena, há poucas pesquisas do gênero pela falta de interesse da indústria farmacêutica que prioriza financiar remédios mais rentáveis

Victor Farinelli

Uma equipe de cientistas do Inach (Instituto Antártico Chileno) anunciou recentemente a descoberta de microrganismos no solo do continente latino-americano que são capazes de destruir superbactérias — infecções capazes de resistir aos mais potentes antibióticos disponíveis no mercado.

“Ambientes de condições climáticas extremas possuem uma diversidade microbiológica de grande valor. Outros países que realizam pesquisas nesse mesmo campo também priorizam o trabalho em regiões polares por isso”, explica a doutora María Soledad Pavlov, porta-voz do Inach.

Divulgação/ Inach

Expedição chilena na Antártida busca novas alternativas medicinais para o combate a superbactérias


A equipe de Pavlov reuniu cerca de 200 espécies de microrganismos e descobriu em alguns deles a capacidade de gerar agentes (genes, enzimas, proteínas, entre outros) que conseguem impedir o crescimento de cepas mais agressivas das superbactérias, como Staphylococcus aureus, Listeria monocytogenes e Escherichia coli.

“Tentamos criar um produto biotecnológico interessante a partir desses microrganismos, que possa ser uma alternativa a mais em um mundo que precisa de novos descobrimentos em termos de antibióticos”, afirma Pavlov, especialista em biotecnologia que trabalha no território antártico chileno desde 2012.

“Além disso, o pouco interesse da indústria em pesquisar novidades nesse campo gerou uma defasagem. Atualmente, algumas iniciativas como a nossa procuram correr atrás do tempo perdido”, acrescenta a cientista chilena.

Contudo, Pavlov ressalta que ainda faltam passos importantes para que o estudo chileno se transforme em um produto que possa ser comercializado. Para alcançar esse patamar, segundo ela, será preciso uma série de testes e certificados, primeiro em animais e depois em humanos.

Divulgação/ Inach

Para Pavlov (foto), investigação pode ter impacto enorme na saúde pública mundial, significando muito para imagem do Chile


“Neste momento, buscamos identificar os genes que produzem a atividade antibacteriana e os seus efeitos da forma mais detalhada possível, para poder agilizar depois esse processo. Em todo caso, ainda deve demorar alguns anos para que possamos desenvolver um uso comercial”, assinala.

Superbactérias: uma ameaça ao futuro

O aumento do número de mortes causadas por superbactérias resistentes aos antibióticos existentes no mercado é um dos grandes desafios da ciência e a medicina atualmente.

Um estudo britânico divulgado em meados de 2014, baseado em dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), estima que, se a quantidade de casos seguir evoluindo no ritmo de hoje, e se não surgir nenhuma descoberta importante nos próximos anos, as superbactérias causarão mais de 10 milhões de mortes por ano em 2050. Com isso, a superbactérias superarão os cânceres, tornando-se a principal causa de óbitos no planeta.


A partir desses resultados, o governo britânico montou uma comissão especial para tratar do tema, liderada pelo economista Jim O´Neill, que sugeriu a criação — com urgência — de um fundo especial para desenvolver novos trabalhos nessa matéria.

Antártida chilena: uma alternativa

A este respeito, contudo, María Soledad Pavlov é otimista. “Surgiram algumas novidades no final do ano passado e no começo deste ano, desenvolvidas por outros países, que junto com o nosso trabalho, parece indicar que o interesse sobre o tema está ressurgindo”, comentou.

Entretanto, a cientista chilena destaca que ainda há poucas iniciativas do gênero em virtude da falta de interesse da indústria farmacêutica, que centraliza seus financiamentos em pesquisas ligadas a medicamentos comercialmente mais rentáveis.

Divulgação/ Inach

Pavlov e equipe atua e pesquisa na Antártica chilena desde 2012 na busca por alternativas medicinais


Somado a isso, as pesquisas patrocinadas pelos governos têm estado muito mais obcecadas na corrida pela descoberta da cura do câncer ou da aids nos últimos anos, o que diminui o interesse pela evolução dos antibióticos.

“O impacto que a nossa investigação pode ter na saúde pública mundial é enorme, o que também significaria muito para a imagem do Chile, porque o desenvolvimento de experimentos científicos no território antártico cresceu muito nos últimos dez anos”, justifica a pesquisadora.

Além de trabalhos científicos para fins médicos, Pavlov ressalta que também estão sendo realizadas outras pesquisas na Antártida chilena, focadas, por exemplo, na busca por alternativas para os efeitos do aquecimento global que têm até a colaboração de cientistas brasileiros.

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