O que pensam brasileiros que vivem na África do Sul sobre o impeachment de Dilma?

Para Safiya, na Cidade do Cabo, possível impedimento da presidente brasileira 'é golpe sem precedentes'; já Marília, em Joanesburgo, diz que PT 'destruiu o Brasil'

Amanda Lourenço

O processo de impeachment que a presidente Dilma Rousseff enfrenta na Câmara dos Deputados tem mobilizado brasileiros que moram no exterior contra e favor da destituição da mandatária.
 
Na África do Sul, a reportagem de Opera Mundi ouviu brasileiros que vivem em Pretória, Cidade do Cabo e Joanesburgo. Safiya Beatriz Barbosa, que vive na Cidade do Cabo, é contra o possível impedimento da presidente brasileira, lembrando que Dilma "ganhou uma eleição presidencial dentro de um processo democrático". Barbosa também destaca o machismo de que Dilma é alvo. "Atacam a honra dela por ser mulher, é um ato de covardia", acredita.
 
Já Marília Martone, que vive em Joanesburgo, diz que é a favor do impeachment "desde a época do Lula". "O povo gosta de paizinho nos moldes comunista, popular, e enquanto isso o PT destruía o Brasil", diz a advogada. "Aqui [na África do Sul] eu trabalho duro, mas consigo comprar um carro e pagar minhas contas. Mas no Brasil o PT distribui Bolsa Família porque o povo não gosta de trabalhar."
 
Leia a seguir os depoimentos de brasileiros na África do Sul contra e a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff:
 
 
Safiya Beatriz Barbosa, 44 anos, dona de casa e chef de cozinha, moradora da Cidade do Cabo
 
Sou contra o impeachment de Dilma e acredito que o que estão querendo fazer é um golpe sem precedentes. Não vejo com bons olhos esse movimento. Acompanho tudo pela internet e pelos grupos de WhatsApp e acho que nada disso faz sentido. Dilma ganhou uma eleição presidencial dentro de um processo democrático. Não apoio a corrupção, claro, porém culpar Dilma e o PT por tudo pode até dar uma impressão de justiça, mas não é a realidade. Além disso, acho que Dilma representa uma afronta ao machismo e como muçulmana assisto com preocupação a incitação à violência. Atacam a honra dela por ser mulher, é um ato de covardia. Engraçado que por morar fora algumas pessoas acham que a gente não pode opinar, como se por ser expatriada eu perdesse meus direitos. É um argumento muito limitado. Aqui na África do Sul o presidente Jacob Zuma também está sob pressão de um impeachment, mas o caso dele é completamente diferente. Zuma roubou dinheiro público em benefício próprio e admitiu. Até por crime de estupro ele já respondeu. Veja só a discrepância dos dois pedidos de impeachment.
 
 
Anderson Barroso de Oliveira, 27 anos, estudante de mestrado, morador de Pretória
 
Sou contra o impeachment da presidente Dilma por uma razão muito simples: não existe crime de responsabilidade contra ela. Não há argumentos legais. Acho que a indignação de parte dos brasileiros contra o PT começou desde os escândalos de corrupção durante o governo Lula, que foram investigados e levaram à cadeia pessoas próximas ao ex-presidente. Estou completamente de acordo com estas investigações. Mas nunca conseguiram provar que Lula estivesse envolvido nesses esquemas. Já com a eleição e a reeleição de Dilma, a oposição, especialmente o PSDB e outros partidos de direita e também os ricos do Brasil, se indignaram contra o governo, com um misto de inveja pela aceitação popular da presidente e despeito pela derrota de Aécio Neves (PSDB) no segundo turno. Como cidadão brasileiro de origem pobre e nortista que sou, reconheço os méritos do governo PT, porém também tenho minhas críticas nesses últimos anos. Acho importante a alternância de partidos no poder, mas Dilma foi eleita democraticamente, e a meu ver a história das pedaladas fiscais não justifica seu impeachment. Essa tentativa de tomar o poder à força sem um crime de responsabilidade sobre a presidente é um golpe travestido de impeachment. Eu, como brasileiro, mesmo morando longe do meu país, sou contra essa tentativa de se levar o Brasil ao caos.
 
 
Marília Martone, 55 anos, advogada, moradora de Joanesburgo
 
Sou a favor do impeachment desde a época do Lula. Desde o mensalão já havia indícios de crime, tanto que José Dirceu e sua turma foram condenados. Dilma não estava envolvida nesta época, mas todos do partido estavam. Mas o PT gritou tanto que o povo ouviu, infelizmente. O povo gosta de paizinho nos moldes comunista, popular, e enquanto isso o PT destruía o Brasil. Destruíram a Petrobras, destruíram o BNDES, acabaram com a credibilidade do Brasil. Não temos mais moral, eu tenho vergonha de responder as perguntas que meus amigos estrangeiros me fazem. Eles querem saber porque depois de um governo bom como o do FHC, que deu credibilidade ao Brasil com o plano Real, os brasileiros votaram nestas pessoas. Eu tento explicar, mas não tem mesmo como entender. Tentei voltar a morar no Brasil em 2010, mas não consegui, só vi as coisas piorarem. O PT ganha eleição com marketing. Aqui eu trabalho duro, mas consigo comprar um carro e pagar minhas contas. Mas no Brasil o PT distribui Bolsa Família porque o povo não gosta de trabalhar.
 
 
Ruan Galdino, 20 anos, bailarino, morador de Joanesburgo
 
Tenho 20 anos agora, e nos dois últimos anos passei mais tempo fora do que dentro do Brasil, sempre acompanhando as notícias de lá. E eu sou a favor do impeachment por causa do histórico do Brasil com a corrupção. A sociedade brasileira já é conformada com a corrupção política. Penso que o impeachment seria a forma mais radical para estabelecer um novo começo, ou ao menos tentar. Uma maneira de mostrar que realmente há esperança para os brasileiros. Dilma já mostrou diversas irresponsabilidades, como a omissão em relação aos problemas que aconteceram em uma das maiores empresas do Brasil, a Petrobras, e também o atraso nas responsabilidades orçamentárias e fiscais do governo. Por isso sou a favor do impeachment, pois seria um marco para o Brasil, seria uma forma da nação ‘acordar’ e também o mundo ver que o Brasil pode ser menos passivo e mais ativo. Enfim, dentro da minha jovem e humilde consciência política e conhecimento, penso desta forma e sou a favor do impeachment.

 

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