Para jornal colombiano, política brasileira se converteu em 'circo'

Segundo El Espectador, processo de impeachment contra Dilma mostra que a política na América Latina é um “jogo de retórica que pretende ocultar a falta de argumentos”

Redação

Um "festival de agressões verbais" e "falta de argumentos". Assim o jornal colombiano El Espectador se referiu, nesta segunda-feira (18/04), à votação da Câmara dos Deputados que aprovou o prosseguimento do processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff no domingo (17/04).

Agência Efe

Segundo jornal colombiano, votação na Câmara dos Deputados no domingo se transformou em "um festival de agressões verbais" 

No artigo "Quando a política brasileira se converteu em um circo", a publicação comenta o fato de a maioria dos deputados justificarem seus votos em argumentos que não estavam diretamente relacionados às acusações contra o governo de Dilma . Em vez disso, evocaram aspectos religiosos, familiares e até contra o comunismo.

"'Por minha família, por meus filhos, por minha esposa, por minha neta, por meu pai, sempre presente em minha vida', por eles votavam os deputados”, diz o artigo.

Segundo o texto, a votação “se converteu logo em um festival de agressões verbais e em uma mostra de que a política na América Latina é, também, um jogo de retórica que pretende ocultar a falta de argumentos”.

Alguns deputados baseavam seus votos favoráveis ao impeachment em uma suposta “rede de corrupção” no governo de Dilma Rousseff. No entanto, “tanto os partidos de oposição, como o governista PT, estão implicados”, diz a publicação, que lembra que 60% dos membros da Câmara e do Senado são investigados por crimes eleitorais, de corrupção ou homicídio.

O processo de impeachment na Câmara exibiu, segundo El Espectador, um retrato de nacionalismo “rasteiro” e um espetáculo “vergonhoso”.

“A votação foi se tornando, pouco a pouco, em um retrato rupestre do nacionalismo mais rasteiro e do espetáculo mais vergonhoso. Já não era política: era uma peça de teatro”.

O artigo acrescenta que "as negociações, que começaram na sexta-feira [15/04], foram feitas nos bastidores, mas ainda assim os políticos dominavam a tribuna como se se tratasse do último discurso de sua existência: com os braços agitados, a gritos, com golpes no peito alimentados de chauvinismo e religião”.

“Cunha disse ao votar: ‘Que Deus tenha misericórdia dessa pátria. Voto sim’. Necessitarão misericórdia: o desastre se cria entre sua classe política”, diz o artigo.

Alemanha: show do impeachment

O jornal Tagesspiegel, de Berlim, chamou a votação deste domingo de "show do impeachment". "Foi a sessão mais longa que o Parlamento brasileiro já teve. Foi, ao mesmo, tempo, a mais assistida, seguida por milhões de brasileiros em locais públicos, em praças e em casa. E foi uma das mais curiosas: com uma votação como em um estádio de futebol, deputados cuspiram, traíram e mandaram cumprimentos à mamãe", afirma o periódico. 

“O voto do domingo é uma grande decepção para Rousseff, que, junto com seu mentor, o ex-presidente Lula da Silva, tentou até a última hora ganhar votos. Mas o vento havia se virado há algum tempo contra Rousseff: seu parceiro de coalizão mais importante [o PMDB] pulou fora. Além disso, o vice-presidente Michel Temer conspira abertamente contra ela”, diz.

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