Após Sanders criticar intervenções dos EUA na A. Latina, brasileiras lançam apoio a pré-candidato

Derrubar um governo e trocá-lo por outro pode parecer simples, mas é um ato que afeta mulheres imensamente, diz carta assinada por feministas

Redação


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Feministas brasileiras iniciaram, no Facebook, uma campanha de apoio ao senador e pré-candidato democrata à presidência dos Estados unidos Bernie Sanders após ele se pronunciar, na semana passada, de forma contrária às intervenções de derrubada de governos patrocinada pelos Estados Unidos em países da América Latina.

O texto, redigido por Andrea Gorenstein e assinado por diversas feministas, inicia agradecendo Sanders por ele ter “se pronunciado a respeito de questões nunca mencionadas por políticos tradicionais”.

Roberto Stuckert Filho/PR

Em evento realizado em Brasília na última semana, coletivos de mulheres manifestaram apoio a Dilma

Na carta, as feministas ressaltam que “à distância, derrubar um governo e trocá-lo por outra pessoa pode parecer somente uma substituição de peças de xadrez, mas não é. É um ato que afeta profundamente o cotidiano de 200 milhões de pessoas e seu acesso a direitos humanos básicos. Afeta as mulheres imensamente”.

As signatárias também criticam o fato de a ex-senadora Hillary Clinton, que disputa as primárias democráticas com Sanders, não ter se pronunciado a respeito da situação brasileira e permanecer amiga de Henry Kissinger, responsável pela política externa dos Estados Unidos nos anos 1960-1970.

“Como toda mulher, seja ela cubana, nicaraguense ou brasileira, merecemos ser vistas e consideradas pelos fazedores da política internacional. Acredito que nenhuma mulher que apoie as lutas pela igualdade de gênero deva votar em um candidato que fala a favor dos direitos das mulheres norte-americanas, enquanto se alinha a forças conservadoras que rasgarão os direitos humanos de 100 milhões de mulheres. Não posso apoiar a Senadora Clinton”, diz a carta.

Veja as declarações de Sanders (em inglês):

Leia a íntegra em português e inglês:

Caro Bernie,

Recebemos sua mensagem em alto e bom som por todo o mundo. Obrigada por se pronunciar a respeito de questões nunca, jamais mencionadas por políticos tradicionais.

Como feminista comprometida, fiquei dividida entre os candidatos democratas. O senhor falou para o meu coração e, cara, me sensibilizou. No entanto, a Senadora Clinton falou para o meu gênero.

Há dois dias, o senhor se referiu à necessidade de os Estados Unidos pararem de derrubar governos Latino-Americanos por seus próprios interesses.

O senhor não apenas disse que era um equívoco o que Kissinger havia feito nos anos 60. O senhor afirmou que os Estados Unidos têm que parar de fazê-lo neste momento, e eu o escutei.

Eu sou uma cidadã brasileira. No dia anterior ao seu discurso, assistimos à ascensão de uma tentativa ilegal de derrubar nosso governo democraticamente eleito. Ouvimos o senhor pronunciar-se contra este processo no dia seguinte. Talvez o senhor ainda não saiba, mas suas palavras significaram muito para nós. Bernie, o senhor falou para mim.

À distância, derrubar um governo e trocá-lo por uma outra pessoa pode parecer somente uma substituição de peças de xadrez, mas não é. É um ato que afeta profundamente o cotidiano de 200 milhões de pessoas e seu acesso a direitos humanos básicos. Afeta as mulheres imensamente.

A agenda dos golpistas promove ataques em cada e toda geração de direitos humanos. Ela fere nossas liberdades, nossa igualdade, nossa dignidade. De direitos trabalhistas a direitos das mulheres, cada aspecto importante da vida cotidiana de nossa gente está ameaçada. Não somos apenas um mercado de consumo. Somos humanXs, Bernie. Somos mães solteiras negras correndo o risco de sermos novamente renegadas pelo estado. Somos mulheres pobres que morrem porque não temos direito sobre nossos corpos. Somos crianças pobres sob a ameaça de morrermos de fome novamente. Somos as mulheres mortas por nossos maridos pelo pecado de sermos mulheres. Somos o país que mais mata mulheres transgênero no mundo. Somos mães trabalhadoras que arriscam perder sua estabilidade no emprego, remunerações, salário digno.

Agora, temos uma presidenta. É a primeira vez que, em nossos 500 anos de história, metade de nossos cidadãos é olhada de maneira que possamos lidar com nossas questões. Aquelas peças de xadrez significam a vida de 100 milhões de mulheres por um fio.

Uma feminista não pode apoiar o direito a trabalho doméstico digno enquanto condena as mulheres vizinhas à exploração no trabalho e à violência de gênero. Desejo que toda mulher que compreenda o feminismo como uma questão global perceba isso.

A tentativa de derrubar a primeira mulher eleita presidenta está sendo arquitetada há meses. Ao longo de todo este processo, a Senadora Clinton não fez nada além de manter-se calada a este respeito. E ela permanece amiga de Henry Kissinger.

Presidente Obama, cuja visita recente à Argentina incluiu uma extensa revisão da importância do papel dos Estados Unidos em promover e patrocinar ditaduras no continente, não disse uma palavra sobre o golpe em curso no Brasil. Pessoalmente, isso foi decepcionante. Eu dei meu tempo fazendo campanha para Obama na rede porque as políticas norte-americanas contemplam primeiramente os cidadãos norte-americanos mas nos afetam a todos, indiretamente.

Sonhamos com uma América melhor e isso se tornou realidade de diferentes formas. Mas agora, sinto como se nós, latino-americanos, estivéssemos segurando o lado mais curto do palitinho. Nós o sentimos queimando.

Como toda mulher, seja ela cubana, nicaraguense ou brasileira, merecemos ser vistas e consideradas pelos fazedores da política internacional. Acredito que nenhuma mulher que apoie as lutas pela igualdade de gênero devessem votar em um candidato que fala a favor dos direitos das mulheres norte-americanas enquanto se alinha a forças conservadoras que rasgarão os direitos humanos de 100 milhões de mulheres.

Não posso apoiar a Senadora Clinton.

Desejo que toda mulher norte-americana que acredite em igualdade de gênero também pensasse mais profundamente sobre esta questão.

Tudo de bom em sua batalha pela Casa Branca.

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Dear Bernie

We hear your message loud and clear all over the world. Thanks for speaking out on issues never, ever mentioned by traditional politicians.

As a committed feminist, I was torn between democratic candidates. You spoke to my heart, and boy was I touched. Senator Clinton, though, spoke to my gender.

Two days ago, you mentioned the need for the US to stop overthrowing Latin American goverments for its own economic interests.

You didn't just say it was wrong of Kissinger doing so back in the 60's. You said it must stop doing so right now, and I hear you.

I am a Brazilian citizen. The day before your speech, we watched the take-off of an illegal attempt to overthrow our democratically elected government. We heard you speak out against it the very next day. You may not know it yet, but those words meant a lot to us. Bernie, you spoke to me.

Seen from afar, taking down a government and putting someone else up there might look like it's just chess pieces being switched, but it is not. It thoroughly affects the daily lives of 200 million people and their access to basic human rights. It affects women disproportionally.

The overthrowers' agenda promotes attacks on each and every generation of human rights. It hurts our freedoms, our equality, our dignity. From labour rights to womens rights, every important aspect of the daily life of our people is endangered. We are not just a consumer's market. We are humans, Bernie. We are single black moms risking being renegated again by the state. We are poor women who die because we have no right over our bodies. We are poor children risking death by starvation again. We are the women killed by our partners for the sin of being women. We are the country that most kills transgender women in the world. We are working moms who risk losing job security, labor compensation, dignified pay.

We now have a woman president. This is the first time in our 500-year history where half of the citizens are seen so that our issues can be dealt with. Those chess pieces mean 100 million women lives are on the line.

A feminist cannot support the right to domestic dignified labor whilst sentencing women neighbours to sweatshops and gender violence. I wish every woman that understands feminism is a global issue will take note on that.

The attempt at overthrowing our first woman elected president is months in the making. Throughout that process, Senator Clinton has all but remained silent on the subject. She remains a friend of Henry Kissinger's. President Obama, whose recent visit to Argentina included an extensive revision of the US' role in promoting and funding dictatorships in the continent, has not said a word. That was personally disappointing. I donated my time campaigning for Mr Obama on the internet, for american policies may target primarily US citizens, but they affect all of us indirectly.

We dreamt of a better America and that has come true in many ways. But right now, I feel we Latin Americans have gotten the short end of the stick. We feel the burn.

Like all women, be they cuban, nicaraguan or brazilian, we deserve to be looked at and be taken into account by international policy makers. I believe no woman who supports the fight for gender equality should vote for a candidate that speaks in favor of american women's rights while aligning with conservative forces that will strip 100 million women of their human rights.

I cannot support Senator Clinton.

I wish every american woman who believes in gender equality would too give it a second thought.

Best wishes on your race to the White House

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Seguem assinaturas de feministas brasileirxs

Andrea Gorenstein, Katarina Ribeiro Peixoto, Gisele Dalva Secco, Inara Zanuzzi, Roberto Horácio de Sá Pereira, Tania Mara Garcia, Mauro Nadvorny, Ana Paula Ludtke Ferreira, Andrea Sirihal Werkema, Aline Marmontel, Jana Athaydes Contreiras, Denise Coitinho, Cláucia Faganello, Luciana França, Eleica Andrade, Paula Baltar, Maria Eduarda Buarque, Cristina Weissheimer, Mônica Lapa Moreira, Mônica Rodrigues, Cristina Rodrigues, Sandra Pires de Toledo Pedroso, Carla Silveira, Juliana Carapeba, Marisa Amaral Verrone, Juliana Casagrande, Cibelia Pires, Ana Paula do Amaral, Maria Fernanda Pinheiro Silva, Diogo Fornelos, Eduardo Mendes Duso, Marco Aurélio Spalding Verdi, Patricia Graeff, Liza Queiroz, Adriana Santos Rammé, Isabela Medeiros, Suzane Cerutti Kummer, Suzete Cerutti Kummer, Cintia Pereira Barenho, Heloisa Helena Marcon, Michele Kamers, Edy Klévia Fraga de Souza, Adriane Rodrigues de Oliveira, Paulo André Machado Guimarães, Maria da Glória Rodrigues, Marilda Rodrigues de Oliveira, Martiniano Francisco de Oliveira Filho, Therezinha Conceição Demori de Oliveira, Cecília Caballero, Kátia Rovana Ozório, Sérgio Ozório, Letícia Braz, Leda Ozório, Silvania Saldanha, Carla Monteiro Rosário, Gustavo Bernardes, Suzana Stigger, Suzana de Bortoli Librelotto, Angela Moysés, Thaís Rodrigues, Jussélia Bengert Lima, Fred Messias, Aika Maria Claudia Canto Cabral, Suzana Beatriz Pires, Mariangela Alvarez, Lorena Pardelhas, Marcia Rodrigues da Costa, Rosangela Kisiolar Machado, Maria Juracy Tonelli,Manuella Soares, Florencia Guarch, Claudia Moraes, Regina Padma Rinchen, Gisela Maria Belo, Alessandra Nilo, Paulinha Hirakawa, Camila Aires, Maria Teresa Barbosa Huang, Maria Luiza Vieira, Rosangela Ribeiro, Clarice Andrade, Maria Concília de Aragão Bastos, Joana Cunha-Cruz, Simone Siqueira Campos de Almeida, Íris Maria de Miranda Correia, Rita Voss, Ana Lucia Menezes, Daniel Golovaty Cursino, Lívia Patrícia Gouveia de Oliveira, Decio Rangel Junior, Maria Rosa Guimarães Loula, José Carlos Bastos, Jaqueline de Carvalho Rocha, Simone Pimentel, Angela Beatriz Trindade Girardi, Doris Laux Wiederkehr, Jocélia Matilde Lopes, Luana Lumertz, Maíra de Maupeou, Angela Broilo, Angela Girardi, Nah Abdallah, Emilia da Silva Pons, Simone Koch, Laura Vicentin Lammerhirt, Fabia Cerqueira, Deborah Guaraná, Rafael Baumhardt Erê, Paulo André Machado Guimarães, Fabiane Pianowski, Carolina Peralta Flores, Fabiano Queiroga, Juliana Pereira, Márcia Libório Chaplin, Juliana Pereira, Daniel Lobo da Rocha, Eulea Elias Gonçalves Pereira de Lima, Ana Carolina Peron Winnel, Beatriz Arcoverde, Ricardo Nonato, Rodrigo Milagre, Diego Bortoli, Antonio Mousquer, Carolina Kader, Jeims Duarte, Suzana Christina de Souza Leão, Heli Meurer, Malu Baumgarten, Camila Teixeira, Mirta Petry, Adreson Vita de Sá, Camila de Santi, Arthur Galamba, Glaucia Retamozo, Naia Oliveira, Leila Katz, Duina Porto, Tatiana Pires Cerveira, Maíra Baumgarten, Gilberto Russo Júnior, Clarissa Baumgarten, Gicelma Lima dos Santoss, Nanda Barreto, Juliana Casagrande, Raquel de Almeida Prado, Cristina Prado, Cristina Serrano, Steel Vasconcelos, Marco Aurélio Weissheimer, Alexandre Noronha Machado, Giovani Felice, Márcia Aurélio Baldissera, Diogo Costa, Suely Bragança Melo, Sydia Maranhão, Marcos Alves Lima, Auxiliadora Albuquerque, Nero Fernando Silva Lopes, Paulo Seabra, Eliza Lira, Alexandre Pereira Cruce, Paula Magalhães, Rejane Luthemayer Vinaya, Patricia Couto, Julia A. Macedo, Patrícia Couto, Elica Takimoto, Carlos Roberto Winckler, Roberta Buffone, Edison Ricardo Kenr, Mara Soares, Carlos Costa, Priscilla Tesch Spinelli, André Mussalém, Silvia Pont, Patrick Magalhães, Angela Phryston, Silvia Saes, Paulo Ricardo Sarinho, Cintia Barenho, Dinara Domingues, Danton Neto, Isabela Faria, Isadora Becker, Davi Ribeiro Dantas, Marcelo Dantas, Anderson Fernandes, Tatiana Mariz, Sandra Souto Maior, Ana Paula Graziottin, Gicelma Lima dos Santos, Celso Mello, Brigite Martin, Katia Maia, Helena Martins Gomes, Denise Lelles, Jurema Jamonot Sarmentão, Antônio Mousquer, Fernanda Rocha, Kizy Dutra, José Carlos Bastos, Naire Valadares, Paula Zimbres, Ana Tito, Clenice Venesia, Maxwell Vignoli, Maria Rosa Loula, Alessandra Barbosa, Catherine Topper, Gisele Veloso, Fernanda Castro

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