Queriam que eu renunciasse porque não aceito conviver com a corrupção, diz Dilma a The Intercept

Presidente concede 1ª entrevista após afastamento; 'dizem que eu sou dura porque é muito difícil chegar a mim pra propor qualquer coisa incorreta', declarou

Redação


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Em entrevista ao site norte-americano The Intercept publicada nesta quinta-feira (19/05), a presidente brasileira, Dilma Rousseff, afirmou que os opositores ao seu governo pediram a sua renúncia porque ela “não aceita conviver com a corrupção” e por isso seria “presença incômoda”.

“Por que eles queriam que eu renunciasse? Porque a minha presença é incômoda. Como eu não tenho conta no exterior, já me viraram dos lados avessos, eu nunca recebi propina, eu não aceito conviver com a corrupção”, disse Dilma na entrevista concedida no Palácio da Alvorada, em Brasília, onde mora a presidente. “Uma das coisas que dizem que eu sou dura é porque é muito difícil chegar a mim pra propor qualquer coisa incorreta”.

Roberto Stuckert Filho/PR

A presidente eleita concedeu a The Intercept a primeira entrevista desde seu afastamento da Presidência 

Conduzida pelo jornalista norte-americano Glenn Greenwald, que reside no Brasil há mais de 10 anos e é editor de The Intercept, a entrevista foi feita na terça-feira (17/05) e foi a primeira de Dilma desde que o Senado determinou, na semana passada, o afastamento da presidente por 55 votos a 22. Segundo The Intercept, o presidente interino, Michel Temer, não respondeu ao pedido de entrevista feito pelo site.

Questionada sobre o impacto que causaria a medida mencionada por Temer de “focar” os recursos do programa Bolsa Família nos “5% mais pobres”, Dilma disse acreditar que “a população vai reagir mal”. A presidente mencionou que o programa atende atualmente 47 milhões de pessoas no Brasil, número muito superior aos cerca de 10 milhões que corresponderiam aos 5% mais pobres da população brasileira.

“Eu acho que [a possível mudança no Bolsa Família] mostra claramente o caráter de retrocesso, de conservadorismo [da gestão Temer]”, afirmou a presidente. Dilma disse ainda que o “governo ilegítimo” possui “um grande apetite para cortar gastos sociais”.

“O que está me parecendo é que este governo interino e ilegítimo será um governo bastante conservador em todos os seus aspectos. Um deles é o fato de que ele é um governo de homens brancos, sem negros, num país que o último censo, o censo de 2010, teve uma declaração que eu acho muito importante, que foi que mais de 50% se declarou de origem afrodescendente”, disse Dilma ao ser questionada sobre como reagiu ao ver a totalidade de homens brancos entre os 23 novos ministros.

José Cruz/Agência Brasil

Dilma criticou gabinete de Temer só com homens brancos: "
mostra um certo descuidado com que país que você está governando"

“Não ter uma mulher e não ter negros no governo, eu acho que mostra um certo descuidado com que país que você está governando”, afirmou.

Greenwald questionou a presidente sobre os motivos de ela ter escolhido Eduardo Cunha, presidente afastado da Câmara dos Deputados, e Michel Temer como “aliados tão próximos”. Segundo ela, o sistema político brasileiro “é um dos mais distorcidos do mundo” e faz com que sejam necessárias alianças “muito amplas” para governar. “Você tem de ter uma base de alianças. Quanto maior a base de alianças, menos política e ideologicamente alinhada”, disse.

Dilma disse que o PMDB, de Temer e Cunha, é um partido “muito bom de agir nas trevas” e que desde 1999 compõe a base parlamentar dos governos brasileiros. “Nós [PT e PMDB] começamos a ter atrito desde o primeiro dia do meu governo, do meu segundo governo. Ao longo do meu primeiro governo, nós tivemos atritos sistemáticos com ele”, afirmou Dilma, que classificou Cunha como “o líder do golpe”.

Ao ser perguntada sobre o que acharia melhor, caso seja definitivamente afastada da Presidência da República pelo Senado, entre novas eleições e um governo Temer, Dilma disse que não iria responder. “Você vai me permitir não te responder isso. Porque eu estou lutando até o fim, porque você vai entender que se eu colocar uma questão dessas para mim, eu estou me desmobilizando”, afirmou.

Lula Marques/Agência PT

Dilma Rousseff classificou Eduardo Cunha (PMDB-RJ) como "o líder do golpe"

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