Após questionar relatório da OCDE sobre Brasil, José Serra critica OMC durante visita a Paris

Alvo de protestos durante visita à capital francesa, ministro de Relações Exteriores afirmou que Organização Mundial do Comércio 'pode se tornar insignificante'

Redação

Atualizada às 18:16

Após classificar como "bobagem" um relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) com previsões negativas para a economia brasileira nesta quarta-feira (01/06), o ministro das Relações Exteriores do Brasil, José Serra, afirmou nesta quinta-feira (02/06) durante uma reunião ministerial em Paris, na França, que a OMC (Organização Mundial do Comércio) "pode se tornar irrelevante".

No encontro que reuniu 20 dos 162 países que integram a OMC, Serra afirmou que a “capacidade” do órgão, dirigido pelo diplomata brasileiro Roberto Azevedo, “em continuar sendo um fórum de negociação significante está em questão”. O chanceler também disse que “a experiência dos últimos dez anos [do Brasil com a OMC] não tem sido recompensadora”.

"Não temos sido capazes de ajustar a assimetria em setores econômicos e ao acesso entre produtos agrícolas e industriais. Não temos sido capazes de dar continuidade às preocupações dos países em desenvolvimento para facilitar sua crescente participação no comércio internacional ", declarou em discurso durante encontro ministerial da OMC, realizado a portas fechadas na sede da OCDE.

Reprodução/ Facebook Ministério das Relações Exteriores

Antes da reunião na OCDE, José Serra foi ao Palácio do Eliseu onde se encontrou com o presidente francês, François Hollande

“Se as coisas não funcionarem como gostaríamos [na OMC], estamos prontos para tentar novos caminhos, desde que as questões importantes para nós continuem sobre a mesa”, afirmou. O conteúdo do discurso do chanceler, empossado no dia 12 de maio como parte do governo liderado pelo vice-presidente em exercício da Presidência do Brasil, Michel Temer, foi divulgado por sua assessoria após o encontro.

Durante a primeira visita de Serra à sede da OCDE, na quarta-feira (01/06), um grupo de pelo menos 15 pessoas protestou contra a presença do chanceler em Paris e contra o afastamento da presidente brasileira, Dilma Rousseff, e o governo Temer.

Os manifestantes, brasileiros e franceses, seguravam cartazes que acusavam o ministro de “golpista” e pediam que os participantes da reunião ministerial anual da OCDE, finalizada nesta quinta-feira, não negociassem com um “governo ilegítimo”. 
 

A polícia dispersou o protesto e os participantes alegaram terem recebido duas ligações das autoridades francesas para advertir sobre a proibição de realizar uma manifestação, supostamente sob orientação do próprio Serra. O episódio foi publicado em uma reportagem da Radio France International.

“Você é quem escreveu aquela bobagem, desculpe. (...) Eu não pedi [para proibir], portanto sua matéria é falsa, é mentira”, disse Serra à repórter autora da matéria durante uma entrevista coletiva na sede da OCDE.

Reprodução/Facebook Ministério das Relações Exteriores

Em reuniões na OCDE, ministro interino criticou entidade e OMC

No mesmo dia, Serra criticou a organização, que havia divulgado um relatório em que previa uma “recessão profunda” até 2017 para o Brasil devido à incerteza política e aos desdobramentos das investigações de corrupção no país.

“A OCDE não afirma coisa nenhuma. Eles estão especulando. Isso é bobagem. Eles estão especulando com as poucas informações de que dispõem (...) O relatório da OCDE não tem essa sofisticação de análise”, afirmou o chanceler brasileiro, que entregou à entidade como resposta ao relatório um documento de uma página e meia com uma visão mais otimista sobre o Brasil.

A OCDE reúne as 34 maiores economias do mundo e conta com uma equipe de mais de 150 profissionais no setor de economia, dos quais três são encarregados de acompanhar a situação brasileira. Antes de ser publicado, o estudo sobre o Brasil foi validado por uma equipe de especialistas.

Em entrevista à imprensa brasileira, o secretário-geral da entidade, Angel Gurría, afirmou que vai incorporar os dados fornecidos pelo chanceler em futuras avaliações sobre a economia brasileira. "Recebemos com muito interesse os comentários do Brasil. Claro que nossos técnicos e experts vão incorporá-los em futuras avaliações", declarou.

O Brasil não faz parte da OCDE, sendo um país parceiro. Entretanto, segundo Serra, o órgão ofereceu uma vaga como membro e sugeriu eliminar passos intermediários para a inclusão do Brasil no bloco. O ministro disse que levará a proposta ao presidente interino Michel Temer.

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