Não há mudança de posição sobre Palestina, diz Itamaraty após ameaçar mudar voto na Unesco

Em resolução da Unesco de abril, Brasil votou favoravelmente a palestinos; sob comando de Serra, Itamaraty afirmou que texto é 'parcial e desequilibrado'

Matheus Pimentel

Atualizado em 14/06/2016 às 14h46

O Ministério das Relações Exteriores do Brasil, o Itamaraty, afirmou nesta segunda-feira a Opera Mundi que “não há mudança” na diplomacia brasileira em relação à questão Israel-Palestina após ameaçar alterar o voto em uma resolução da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) favorável à Palestina. Na última quinta-feira (09/06), o Itamaraty emitiu uma nota oficial sobre uma decisão da Unesco votada em abril a respeito da defesa do patrimônio cultural nos territórios da Palestina ocupados por Israel, incluindo Jerusalém Oriental.

No comunicado, o governo brasileiro ameaça mudar o voto favorável aos palestinos “caso as deficiências apontadas na referida decisão não sejam sanadas em futuro exame do tema pela Unesco”. Procurado por Opera Mundi, o Itamaraty declarou que “não há mudança na posição brasileira em relação à questão palestina”.

EFE

Votada em 14 de abril, a resolução da Unesco, entre outros pontos, solicita que Israel garanta acesso de palestinos à Esplanada das Mesquitas

“O fato de que a decisão não faça referência expressa aos vínculos históricos do povo judeu com Jerusalém, particularmente o Muro Ocidental, santuário mais sagrado do judaísmo, é um erro, que torna o texto parcial e desequilibrado”, diz a nota da semana passada. O Brasil foi um dos 33 países que votaram a favor da resolução — 6 foram contra, 17 se abstiveram e 2 estiveram ausentes.

Segundo a assessoria do Itamaraty, a nota se concentra nos itens 19 e 20 do documento, que versam sobre o status de patrimônio mundial da Unesco conferido à Cidade Velha de Jerusalém e sobre as “medidas unilaterais israelenses” sobre o acesso ao local. O uso do termo “potência ocupante” no texto, em referência a Israel, foi alvo de críticas dos países que votaram contra a resolução.

A Opera Mundi a Unesco afirmou que não iria comentar o assunto.

“Devemos repudiar essa nota, que não diz que [a atuação de Israel] se trata de uma ocupação criminosa”, disse Soraya Misleh, integrante da Frente em Defesa do Povo Palestino, a Opera Mundi. De acordo com Misleh, o comunicado do Itamaraty apresenta um “contrassenso” tendo em vista que equipara o direito às práticas religiosas de judeus e muçulmanos, mas os últimos têm tal direito tolhido.

A Frente em Defesa do Povo Palestino ainda não se reuniu para tratar do assunto, portanto não existe um posicionamento do grupo. Misleh afirma que existem integrantes da Frente que veem a nota como um possível indicativo de mudança da postura do governo brasileiro sobre a questão palestina, interpretação de que ela não compartilha. “A nota é negativa, é péssima, mas não se trata de um retrocesso”, disse. Segundo ela, o governo brasileiro anterior, do PT, “adotou uma retórica pró-Palestina, mas continuou a firmar acordos com Israel”.

Procurada pela reportagem, a Conib (Confederação Israelita do Brasil) disse que “não vê uma mudança na posição brasileira sobre o conflito” e que “o Brasil continua a defender a solução de dois Estados para dois povos e a paz definitiva entre Israel e Palestina”.

“A nota do Itamaraty sobre o voto na Unesco apenas representa o reconhecimento dos vínculos do povo judeu com Jerusalém. Acompanhamos o tema com atenção e esperamos que a Unesco em seu conjunto corrija a absurda decisão, de conteúdo claramente antissemita”, declarou a Conib. Em uma nota publicada em seu site na última sexta-feira (10/06), a Conib classificou a decisão da Unesco como “mais um pretexto do mundo árabe para propagar o ódio contra Israel”.

Itamaraty sob comando de Serra

Desde que passou a ser chefiado por Serra, o Itamaraty tem emitido notas que indicam mudanças de postura em assuntos diplomáticos. O Ministério das Relações Exteriores do Brasil rechaçou “enfaticamente” as declarações oficias dos governos de Cuba, Bolívia, Venezuela, El Salvador e Nicarágua e do secretário-geral da Unasul (União de Nações Sul-Americanas), Ernesto Samper, que questionaram a legitimidade do afastamento da presidente Dilma Rousseff.

José Cruz/Agência Brasil
Após assumir interinamente a Presidência, em 12 de maio, Michel Temer (PMDB) indicou José Serra (PSDB) para comandar o Itamaraty
 
Ao discursar em sua cerimônia de posse, Serra criticou a diplomacia conduzida pelos governos do PT, que o chanceler classificou como motivada por “conveniências e preferências ideológicas”. Serra também sinalizou uma mudança de prioridades na política externa brasileira, que, segundo ele, se voltará a diálogos bilaterais e buscará acordos comerciais.
 
Em entrevista a Opera Mundi no “Duelos de Opinião”, Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores durante todo o governo Lula, disse que “José Serra está errado” e que as mudanças sinalizadas pelo novo chanceler levariam o Brasil de volta a uma época em que era “um país menor e menos importante no cenário internacional”. Para Rubens Barbosa, embaixador em Washington e em Londres durante o governo FHC, “não houve mudança significativa, ou seja, América do Sul, Mercosul, multilateralismo e relações Sul-Sul continuaram como prioridades”. Barbosa afirma que “o que mudou foram as ênfases”.
 
Jerusalém Oriental
 
A Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém Oriental, é um dos locais mais sagrados para a religião islâmica e onde se encontram a Mesquita de Al-Aqsa e o Domo da Rocha. De acordo com a tradição judaica, a área é conhecida como Monte do Templo, considerado o lugar mais sagrado para o judaísmo. O local é ocupado por Israel desde 1967.
 
Em setembro do ano passado teve início uma escalada de violência no local e palestinos chegaram a ser barrados de entrar no perímetro da Esplanada.

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