Presidente de ONG detalha em julgamento na Itália funcionamento de aparelho repressivo da ditadura no Brasil

Brasileiro Jair Krischke, do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, depôs em Roma no processo sobre a Operação Condor - o caso do sequestro de Lorenzo Viñas - que tramita no país europeu

Janaina Cesar

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O gaúcho Jair Krischke, presidente da ONG Movimento de Justiça e Direitos Humanos, voou de Porto Alegre para Roma para depor na manhã desta quarta-feira (29/11) no processo sobre a Operação Condor que tramita na justiça italiana.

Viñas e padre Adur

Antes de entrar efetivamente no caso Viñas, Jair lembrou à Corte que um padre também foi sequestrado no Brasil por agentes da Operação Condor. “Jorge Oscar Adur era um sacerdote argentino que já vivia exilado na França, e, assim como Viñas, também era um Montonero. Naquele ano [1980], o Papa João Paulo II iria a Porto Alegre e as Mães da Praça de Maio vieram me pedir para intervir a favor delas para conseguir uma audiência com o pontífice. Elas já haviam tentando encontrá-lo em Roma, mas não foram recebidas. Consegui dez minutos. Nisso, o Oscar, que estava no exílio, voltou para Argentina ilegalmente. Ele entregaria uma carta dos Montoneros a alguns padres argentinos críticos da ditadura. Dia 26 de junho, pegou um ônibus na Argentina em direção a Porto Alegre para encontrar as Mães da Praça de Maio, que o esperavam, e desapareceu na fronteira Paso de los Libres (Argentina) e Uruguaiana (Brasil).”

No mesmo dia, Viñas pegou um ônibus da Argentina com direção ao Rio de Janeiro.  Assim como Adur, ele viajava na poltrona número 11. “Destinos diferentes, companhias de ônibus diferentes, mas o mesmo número do assento”, observa.  Viñas viajava com um nome falso:  Néstor Manuel Ayala, nascido em 1953 e residente em Buenos Aires. 

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Krischke: governos de Brasil e Argentina colaboravam desde antes da ditadura de Videla

Após anos investigando o caso juntamente com Claudia Allegrini, companheira de Viñas e mãe de sua filha, Jair descobriu que Viñas e Adur permaneceram três dias presos da Polícia Federal em Uruguaiana. Após ser entregue à repressão argentina, Viñas foi levado para Paso de los Libres e, depois, para uma prisão clandestina onde Silvia Tolchinsky, militante Montonera que também estava presa, confirma tê-lo visto e conversado com ele. 

A procuradora Cugini indaga se Jair conhece Tolchinsky. “Não pessoalmente, mas fiquei sabendo do que houve com ela”, responde com um tom de voz agora um pouco mais rouco. “Foi presa tentando sair da Argentina para o Chile, foi torturada e feita de marcadora. Foi levada para fronteira para Paso de los Libres para reconhecer visivelmente os integrantes dos Montoneros”, declara Jair. 

Segundo o brasileiro, Tolchinsky trabalhava com Mario Firmenich, um dos principais líderes do Movimento Montonero, e sabia todos os truques que os militantes usavam para se mascarar e despistar a polícia.  Ela é judia e, como tal, o governo de Israel negociou com Videla para levá-la ao país.  Após meses vivendo em Israel, se deparou com ninguém menos ninguém mais que Claudio Gustavo Scagliuzzi, seu torturador, um general que atuou no batalhão 601. Os dois se casaram e foram viver em Barcelona, onde moram até hoje.

Responsabilidade brasileira

Luca Ventrella, advogado do Estado, pede que Jair explique de onde vinham as ordens para operações repressivas no Brasil. “Nestes casos de Operação Condor, havia cumplicidade entre países. Quem autorizava essas atuações era principalmente o ministro-chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), o Comando do Exército, os chefes da agência do SNI nos Estados e o DOPS.”

Jair lembra que “a Lei da Anistia é de 1979 e que o sequestro e desaparecimento de Viñas é de 1980, e que, mesmo assim, a Justiça brasileira manda para o arquivo qualquer tentativa de processo”. O Brasil reconheceu, pelo menos administrativamente, a própria responsabilidade pelo desaparecimento de Viñas, tanto que a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos indenizou a família.

Na final da audiência, a Corte se recolheu para proferir sobre Marco Aurélio e o retirou do processo após a leitura do atestado de óbito. “Estão todos muito velhos, essa é a última chance que temos para haver Justiça”, diz Jair.

Como tudo começou

O caso Condor brasileiro é um desdobramento do grande processo Condor que em janeiro deste ano condenou 8 ex-presidentes e militares sul-americanos (e absolveu 19) à prisão perpétua por assassinatos de cidadãos de origem italiana cometidos entre 1973 e 1980. O Ministério Público italiano entrou recurso que ainda não tem previsão de julgamento.

Tudo começou em 1998, quando o procurador Giancarlo Capaldo recebeu a denúncia de parentes de vítimas ítalo latino-americanas.  Com o final das investigações preliminares, foram denunciadas 146 pessoas, mas por falta de colaboração de alguns países ou por causa do grande número de pessoas já falecidas, apenas 33 viraram réus, além os quatro brasileiros.

Além do brasileiro, também deveriam ter deposto nesta quarta em videoconferência Claudia Allegrini, a viúva de Viñas e Silvia Tolchinsky, mas o depoimento de ambas foi adiado para o ano que vem.  A Corte estabeleceu três datas para as próximas audiências: 5 e 19 de março e 9 de abril. No total, ainda falta ouvir 6 testemunhas.

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