Em meio à crise, guerrilheiro do ELN expõe dificuldades no diálogo de paz na Colômbia

Integrante da maior guerrilha colombiana concede entrevista exclusiva ao BdF; ele comenta relação com governo Santos

Fania Rodrigues

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A mais antiga guerrilha da América Latina atualmente, o Exército de Libertação Nacional (ELN), da Colômbia, está sentada na mesa de negociação à espera do governo colombiano para discutir o quinto ciclo dos diálogos de paz, em Quito, no Equador. O encontro estava agendado para esta quarta-feira (31/01), porém, na última segunda (29/01), o presidente Juan Manuel Santos anunciou a suspensão dos diálogos com a organização. 

"O quinto ciclo de diálogo só será retomado quando a conduta do ELN for compatível com a exigência de paz que tem o povo colombiano e da comunidade internacional", disse Santos.

O cancelamento por parte do governo aconteceu depois que o ELN realizou uma operação militar na qual cinco policiais foram mortos na cidade de Barranquilla, no litoral norte da Colômbia, no último sábado (27/01). O acordo de cessar-fogo entre o governo e o ELN havia terminado no dia 9 de janeiro e teve 101 dias de vigência.

Em uma entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, o integrante da delegação do ELN na mesa de negociação Bernardo Téllez explica que a guerrilha retomou suas atividades militares como uma forma de se defender, pois o próprio governo colombiano postulou que uma de suas condições para dialogar era não baixar armas nem deixar de combater a guerrilha.

"Foi o próprio presidente Juan Manuel Santos que impôs as condições da negociação. Quando nos procurou pela primeira vez, há cinco anos, disse que se quiséssemos conversar seria em meio à guerra, que os diálogos deveriam ser no exterior e que seriam conversas diretas, sem intermediários", conta Téllez.

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Desta forma, o líder guerrilheiro garante que não descumpriu nenhum acordo com o governo, já que, desde o início, a regra era negociar em meio ao enfrentamento, sendo apenas o período entre 8 de outubro de 2017 e 9 de janeiro de 2018 como o acordado para não ataques bilaterais.

"Depois que terminou o cessar-fogo bilateral todas as nossas atividades de defesa foram reativadas. Isso porque durante o período do cesse, o governo descumpriu vários dos acordos e protocolos. Portanto, manter a suspensão das atividades militares implicava um alto risco para nós", afirma.

Segundo informações divulgadas pelo ELN, a violência política e a perseguição a militantes de esquerda aumentou nos últimos meses. "O mais grave dessa crise é que o cessar-fogo não alcançou seu objetivo, que era melhorar a situação humanitária da população. O regime agravou a perseguição a líderes sociais e opositores políticos. Antes do cesse, assassinavam um líder de movimento social a cada três dias. Durante o cesse, no mês de janeiro, assassinaram um líder a cada dois dias", informou a guerrilha no comunicado divulgado esta semana.

Tornar-se guerrilheiro

Camponês de profissão, Bernardo Téllez conta que não escolheu ser guerrilheiro. No entanto, a luta armada foi imposta pela realidade violenta em que vivia como a única opção para se manter vivo, após o início da perseguição a líderes de um grande protesto realizado nos anos de 1980, o Paro Costeño (Paralisação Litorânea, em português), que reivindicava melhores condições de vida à população colombiana.

Cerca de 30 anos depois de ter ingressado na organização guerrilheira, coube a Téllez a tarefa de integrar a delegação do ELN encarregada de dialogar e negociar os possíveis termos de um acordo de paz com o governo colombiano.

Desde o dia 8 de fevereiro de 2017, o ELN e o governo estão em processo de negociação pela paz. Apesar dos avanços obtidos desde então, Bernardo Téllez ressalta que o fim da guerra não depende apenas da guerrilha ou do desarmamento desse grupo insurgente. Ele explica que, para falar de paz, o governo e a guerrilha precisam necessariamente discutir os temas estruturais que provocaram o conflito armado.

"O conflito armado tem como causa alguns problemas estruturais como a profunda desigualdade social que existe no país, a exclusão política, a corrupção política e eleitoral. Além disso, as forças militares mantém uma doutrina totalmente contrainsurgente", aponta Téllez.

Em sua opinião, o governo precisa enfrentar os temas complexos que levaram o país ao atual nível de violência. "A superação do conflito armado na Colômbia depende do fim da perseguição aos militantes de esquerda, líderes de movimentos sociais e defensores dos direitos humanos. É por isso que não foi possível até agora chegar ao fim do conflito. O governo nega que a doutrina militar do exército sustente uma 'guerra suja' contra os movimentos sociais", afirma o integrante do ELN.

Somente este ano já foram assassinados 14 líderes camponeses e dois integrantes da Força Alternativa Revolucionária do Comum (FARC), a antiga guerrilha armada e que agora é um partido político. Após quatro anos de negociação e três diálogos de paz fracassados em governos anteriores, as FARC e o governo colombiano assinaram o acordo de paz em setembro de 2016, ponto fim a um enfrentamento armado de mais de 50 anos.

"Fim" do conflito

Para a analista política colombiana Maria Fernanda Barreto, intelectual radicada na Venezuela, só haverá paz quando houver justiça social completa. "A paz é muito mais que o abandono das armas por parte da guerrilha. Veja o caso das FARC. Depois de meses de abandonar as armas, o governo descumpre quase tudo o que havia sido acordado. O pouco que se cumpriu foi em ritmo muito lento".

Maria Fernanda também diz que não existe uma disposição sincera em se chegar a um acordo. "O exército colombiano não está se preparando para a paz, mas sim para a guerra. Em documentos do exército publicados na internet verificamos que ele está se preparando para se converter em um exército mercenário, disposto a colocar-se a serviço de empresas transnacionais e imperialistas".

De acordo com a analista, as Forças Armadas da Colômbia cita em seus documentos oficiais, "uma possível guerra" contra o ELN. "Nos documentos sobre a Doutrina Damasco,  que é uma doutrina nova, o exército estabelece como deve ser o combate dos grupos à margem da lei, em tempos de 'pós conflito', que, na verdade, deveriam chamar 'pós acordo'. Lá eles mencionam textualmente o ELN, no caso de a guerrilha não firmar os acordos de paz", revela Maria Fernanda, que estuda o conflito colombiano há muitos anos e escreve sobre o tema no site venezuelano Misión Verdad.

Balanço

No dia 8 de fevereiro se cumprirá um ano da instalação da mesa de diálogo entre o Exército de Libertação Nacional e o governo do presidente Juan Manuel Santos. Apesar da atual crise que as negociações atravessam neste momento, Téllez destaca os pontos positivos e os resultados alcançados. "Houve avanços em temas como a participação da sociedade. Foram realizadas algumas audiências, em outubro do ano passado, na região de Tocancipá (departamento de Cundinamarca, no centro do país). Muitos setores sociais discutiram como deveria ser a participação da sociedade nos diálogos de paz. Esse é um fato a ser ressaltado", recordou Téllez.

A paralisação das ações militares entre outubro e janeiro foi outra conquista dos diálogos, segundo o guerrilheiro. "Pela primeira vez desde a fundação do ELN, conseguimos um acordo de cessar-fogo bilateral nacional. Mesmo com as dificuldades enfrentadas nesse período, foi um fato positivo e histórico", disse Téllez.

Entre os obstáculos, que impedem que as negociações avancem, está o fato de que o governo não conseguiu criar as condições para desenvolver a agenda de diálogo tal como estava acordada.

Em uma entrevista ao site colombiano Verdade Aberta, a defensora dos Direitos Humanos Diana Sánchez, que faz parte da Associação Minga, afirma que a interrupção dos diálogos e a crise enfrentadas nas negociações já eram esperadas. "Era algo que vinha sendo cozinhado há um tempo, porque a mesa passa por um processo de desgaste por parte do governo, que não propôs nada. Tudo o que se fez até agora, incluindo as audiências preparatórias e o cesse bilateral, foi resultado de uma pressão do ELN e das organizações sociais", destaca Sánchez.

Ela afirma ainda que "o governo não está assumido sua responsabilidade" de propor soluções para o conflito. "O governo não é proativo e tem queimado tempo. Para complicar, a isso se soma o descumprimento dos acordos de paz com as FARC e os ataques aos líderes sociais. Todas essas questões criam um ambiente muito difícil que as partes devem resolver", ponderou.

O integrante da guerrilha afirma que a organização ainda acredita em saída pacífica do conflito. "A vontade política de acabar com o conflito não depende unicamente do ELN, que sim a temos. Mas, depende também do governo da Colômbia e da possibilidade de instalar o quinto ciclo de negociação. Temos que avançar em alguns temas e garantir que a chegada de um novo governo não destrua o que nós já conquistamos. Isso é o que queremos e vamos fazer todos os esforços para instalar esse quinto ciclo", ressaltou Téllez.

Na terça-feira (30/01), o ELN difundiu um comunicado em que afirma: "A delegação de diálogos do Exército de Libertação Nacional espera que o governo cumpra a agenda nesta quarta-feira, em Quito, para reiniciar as conversações, e como fruto delas, poder pactuar um novo cessar-fogo bilateral".

Publicado originalmente em Brasil de Fato

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