Justiça italiana ouve nova testemunha em caso de ex-militares brasileiros acusados de assassinato na ditadura

Lorenzo Viñas era militante dos Montoneros e desapareceu em Uruguaiana, na Fronteira Oeste, em 26 de junho de 1980; uruguaia Silvia Tolchinsky foi a última pessoa a vê-lo vivo, já na prisão

Janaina Cesar

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“Me levaram para uma casa próxima a Campo de Mayo, foi ali que encontrei Lorenzo Viñas. Eu estava algemada a uma cama quando o carcereiro entrou com ele na cela. Estava encapuzado, mas teve um momento em que o carcereiro pediu para que tirasse o capuz e, naquela fração de momento, trocamos duas palavras. Foram cinco minutos, não mais do que isso, tempo suficiente para ver as marcas das sessões de tortura estampadas em seu corpo, ele já estava lá há 90 dias.”

Esse é o início do relato de Silvia Noemi Tolchinsky Brenman, 70 anos, ex-militante do movimento Montoneros, testemunha argentina que depôs na manhã desta segunda-feira (19/03), no processo que julga o envolvimento de ex-generais e agentes brasileiros no assassinado do ítalo-argentino Lorenzo Viñas Gigli. A audiência aconteceu em Roma.

Viñas era membro dos Motoneros e desapareceu em 1980 Os brasileiros acusados são: João Osvaldo Leivas Job, Calos Alberto Ponzi e Átila Rohrsetzer.  Segundo o Ministério Público italiano, na data em que Viñas foi sequestrado, Leivas Job era secretário de Segurança do Rio Grande do Sul; Ponzi chefiava a agência do Serviço Nacional de Informações (SNI) em Porto Alegre; e Rohrsetzer era diretor da Divisão Central de Informações do Rio Grande do Sul.

Tolchinsky atualmente mora na Espanha e depôs através de videoconferência por causa de sua condição de saúde debilitada. Ela foi a última pessoa a ver Lorenzo Viñas vivo e, como secretária foi secretaria dos Montoneros, responsável pela catalogação de documentos, dados e informações do movimento, até setembro de 1980, quando foi sequestrada pelo regime militar argentino na fronteira com o Chile. 

“Estava indo para o México, fugindo da Argentina porque o governo já havia sequestrado meu irmão, minha cunhada, minha prima e assassinado o meu marido", diz, com um tom de voz baixo. E prossegue: “Naquela época, meus filhos eram pequenos, tinham 4, 6 e 8 anos. Fui levada para vários lugares e depois para Buenos Aires, mas não consegui ver nada porque estava encapuzada, com as mãos algemadas. Até que cheguei na casa próxima a Campo de Mayo, onde vi e ouvi Viñas”, declarou a argentina.

Lorenzo Viñas era militante da organização Montoneros, que lutou contra a ditadura na Argentina. Desapareceu em Uruguaiana, na Fronteira Oeste, em 26 de junho de 1980, época de plena atuação do Plano Condor, uma rede de colaboração, troca de informações e prisioneiros entre as ditaduras do Cone Sul. O ítalo-argentino já havia sido preso em 1974, mas, por conta da perseguição política, resolveu vir para a Itália com a esposa Claudia Olga Allegrini. Em junho de 1980, embarcou em um ônibus em Buenos Aires com destino ao Rio de Janeiro — sua esposa faria o mesmo percurso um mês depois e juntos viriam para o país europeu – mas não completou a viagem.

Ela contou que estava algemada a uma cama até que percebeu Viñas entrando encapuzado na sala onde se encontrava. Naquele momento o carcereiro tirou o capuz do ítalo-argentino e seus olhos cruzaram os de Tolchinsky. “Falamos cinco minutos, no máximo. Viñas estava em péssimas condições, ele até pediu ao carcereiro para levantar sua blusa para que eu pudesse ver suas feridas das sessões de tortura. Já fazia uns 90 dias que ele estava naquele lugar”, disse a argentina. Foi naquela casa de tortura que ela viu uma foto que o italiano guardava junto ao corpo. Era da filha dele, uma bebê nascida menos de 20 dias antes.

Tolchinsky conta que não sabia o nome da esposa de Viñas. “Durante o nosso rápido encontro, ele não pronunciou o nome da companheira para preservá-la. Toda a conversa seguiu na frente do carcereiro. Só descobri a identidade dela depois que deixei o cárcere. Escrevi cartas para ela contando o que havia visto e o que Viñas havia dito”, declarou. Depois de um tempo na casa de tortura, a argentina foi levada para Paso de los Libres, onde permaneceu por 8 ou 9 meses.

Lá ficavam os marcadores, isto é, pessoas que conheciam os truques e disfarces dos militantes Montoneros e os entregava ao regime militar. “Eu fiquei nas mãos da repressão até 5 de maio de 1982 quando me libertaram, mas fiquei em liberdade vigiada até abril de 1983.”

Tolchinsky ainda lembra que quem comandava em Paso de los Libres era o Destacamento de Inteligência da cidade e o Batalhão 601. Antes de encerrar, a procuradora Cugini juntou aos autos do processo uma cópia da certidão de nascimento de Viñas, cópia da foto com a filha que ele teria mostrado a Silvia Tolchinsky e cópia da Diário Oficial brasileiro que reporta o pagamento de indenização a viúva de Viñas.

A próxima audiência está marcada para 9 de abril e terá o depoimento de Mirtha Guianze, ex-procuradora uruguaia e atual presidente do Instituto Nacional de Direitos Humanos do Uruguai. 

Opera Mundi é o único veículo de comunicação brasileiro a acompanhar o processo. O caso é um desdobramento do grande processo Condor que em janeiro deste ano condenou oito ex-presidentes e militares sul-americanos (e absolveu 19) à prisão perpétua por assassinatos de cidadãos de origem italiana cometidos entre 1973 e 1980.

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