Com queda de PPK no Peru, cresce número de dirigentes derrubados nos últimos 5 anos; veja lista

Dilma, no Brasil; Zuma, na África do Sul; Mursi, no Egito: ao menos nove presidentes e premiês caíram desde 2013, seja por impeachment, renúncia ou golpe de Estado

Rafael Targino

O presidente do Peru, Pedro Pablo Kuczynski, renunciou ao cargo nesta quinta-feira (21/03) e se juntou à lista de governantes que não conseguiram terminar os mandatos para os quais foram eleitos. Nos últimos cinco anos, foram ao menos oito, que perderam seus postos por impeachment, renúncias e golpes. Veja quais são os outros casos:

Peru

O presidente Pedro Pablo Kuczynski (PPK) não resistiu à forte pressão política – que chegou a vir dos próprios ministros e companheiros de partido – e renunciou em 21 de março ao cargo. O debacle de PPK começou em 2017, após dizer que não manteve relações com a construtora brasileira Odebrecht.

Pouco tempo depois, admitiu que prestou consultorias para a empresa. Ele é acusado de ter recebido mais de 782 mil dólares da Odebrecht por serviços realizados entre 2004 e 2007. Os depósitos aparecem em um documento da construtora brasileira que foi enviado à comissão parlamentar que investiga os desdobramentos da Operação Lava Jato no Peru.

Reprodução

Além destes governantes, Robert Mugabe, do Zimbábue, também renunciou após pressão política

Por conta disso, ele foi alvo de um processo de impeachment em dezembro de 2017. Contando com votos da oposição fujimorista, PPK venceu a votação e ficou no cargo. Dias depois, o presidente concedeu induto ao ex-mandatário Alberto Fujimori, condenado no país por violações dos direitos humanos. O ato provocou uma onda de protestos e PPK foi acusado de trocar o indulto pelo cargo – o que ele nega.

No dia 15 de março de 2018, os deputados peruanos aprovaram uma nova moção de cassação do presidente, ainda por conta do escândalo da Odebrecht. O pedido, no entanto, não chegou nem a ser votado: no dia 20, a oposição divulgou vídeos que mostrariam uma suposta tentativa de compra de votos para evitar ser cassado.

Com a perda do apoio político, PPK renunciou no dia 21 de março. No seu lugar, assume o primeiro-vice-presidente, Martín Vizcarra.

África do Sul

O presidente Jacob Zuma balançava no cargo que ocupava desde 2009 por conta das denúncias de corrupção – exatas 783 – que pesavam contra ele. Elas desgastaram sua imagem pública e reduziram cada vez mais sua força política dentro do próprio partido, o Congresso Nacional Africano (CNA), do qual foi destituído da liderança em 2017, após 27 anos.

As sucessivas acusações contra Zuma, somadas à insatisfação de parte do eleitorado mais jovem do país, fez com que o CNA, acostumado com resultados eleitorais na casa dos 70%, obtivesse, pela primeira vez, em 2016, "somente" 53% dos votos nas eleições municipais.

O fato acendeu o sinal amarelo no partido, que pressionava Zuma a renunciar. Em fevereiro de 2018, após Cyril Ramaphosa assumir o lugar do presidente na liderança no CNA e iniciar as articulações para que o mandatário fosse destituído pelo Congresso da África do Sul, Zuma deixou o cargo. Ramaphosa, então, assumiu a presidência do país.

Uma curiosidade: em 2008, Zuma havia sido o principal responsável pela destituição do então presidente Thabo Mbeki, que acabou renunciando por conta das pressões.

Zimbábue

Após mais de 30 anos no poder, o presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, renunciou em novembro de 2017 em meio a uma grande crise política no país. 

Mugabe vinha seguidamente recusando pedidos de renúncia após um intervenção militar ocorrida na semana anterior, que manteve ele e a primeira-dama Grace Mugabe, cotada para substituí-lo, em custódia. Ele só mudou de ideia depois de o Parlamento abrir um processo de impeachment.

Em seu lugar, assumiu Emmerson Mnangagwa, ex-vice-presidente que havia sido destituído pelo próprio Mugabe sob acusações de traição.

Coreia do Sul

Park Geun-hye, a primeira mulher presidente da Coreia do Sul, sofreu impeachment em dezembro de 2016 após um escândalo de tráfico de influência que envolvia uma amiga da mandatária. Em março de 2017, o Tribunal Constitucional do país confirmou o afastamento.

Choi Soon-sil, amiga da presidente que ficou conhecida como “Rasputina”, mesmo não exercendo nenhum cargo público, opinava em decisões que variavam da cor das roupas que a mandatária usava até discursos e grandes decisões políticas, tendo, segundo denúncias, até acesso a informações confidenciais. Além disso, Choi é acusada de arrecadar cerca de US$ 70 milhões (aproximadamente R$ 222 milhões) em doações da Federação de Indústrias Coreanas para duas fundações e desviado parte desse dinheiro.

O escândalo envolveu grandes corporações do país, como a LG e a Samsung. O vice-presidente desta última, Lee Jae-yong, admitiu que a empresa pagou o cavalo da amazona profissional Choi Yoo-ra, filha de Choi Soon-sil, avaliado em 1 milhão de wons (cerca de US$ 855 mil), uma quarta parte dos fundos supostamente fornecidos pela Samsung para financiar a carreira esportiva da jovem.

Park veio a público em outubro de 2016 e admitiu ter recebido aconselhamento de Choi Soon-sil. A mandatária se desculpou durante uma entrevista coletiva de imprensa, afirmando ter agido sempre “com um coração puro”. No entanto, de acordo com Park, Choi a teria aconselhado, editando seus discursos, apenas em 2012 (durante a campanha presidencial) e 2013.

A ex-mandatária, assim como a amiga, foi presa e a procuradoria do país pediu pena de 30 anos de detenção.

De acordo com as regras sul-coreanas, uma nova eleição foi realizada e o presidente Moon Jae-in tomou posse em maio de 2017.

Brasil

Em 2016, um golpe de Estado destituiu a presidente Dilma Rousseff (PT), reeleita dois anos antes. A articulação para a remoção de Dilma foi feita pelo então vice-presidente Michel Temer (PMDB-SP), que assumiu o cargo com a saída da mandatária, e pelo então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), hoje preso em Curitiba.

Os protestos pedindo a saída de Dilma haviam começado pouco após sua reeleição em 2014. Vestidos de verde e amarelo, os manifestantes, incentivados por grupos econômicos como a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e movimentos políticos de direita, exigiam a destituição da petista e contaram com grande cobertura da mídia hegemônica.

Ainda em dezembro de 2015, Cunha, rival político de Rousseff, acolheu um pedido de impeachment contra a ex-presidente, em retaliação ao anúncio do PT de que não iria ajudá-lo no processo de cassação que o próprio enfrentava no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados. 

Foto: Roberto Stuckert Filho

Em 2016, um golpe de Estado destituiu a presidente Dilma Rousseff (PT), reeleita dois anos antes

Sob acusações (bastante contestadas) de ter cometido crime de responsabilidade fiscal, o processo de impeachment de Dilma foi à votação no plenário na Câmara em abril de 2016 e aprovado no Senado em agosto do mesmo ano.

Michel Temer assumiu o governo interinamente desde a votação na Câmara e foi empossado finalmente em mês de agosto. Desde o início de sua gestão, deu início a um processo de retrocesso dos direitos conquistados pela população brasileira nos últimos anos. A lista não inclui premiês que perderam o mandato de acordo com as regras tradicionais do sistema parlamentarista, quando este é o regime adotado pelo país.

Guatemala

Em 2015, após a revelação de um escândalo de corrupção envolvendo o presidente Otto Pérez Molina e a vice-presidente Roxana Baldetti, uma forte onda de protestos contra o governo guatemalteco tomou as ruas do país. A divulgação de relatórios que incriminavam a alta cúpula do governo comprovava que empresários haviam subornado membros do governo em troca de isenções fiscal. O escândalo conhecido como “La línea” levou à prisão de Baldetti e à renúncia de Pérez Molina, também detido pouco tempo depois.

Alejandro Maldonado assumiu o governo provisoriamente até que novas eleições ocorressem em setembro daquele ano. As urnas deram a vitória ao comediante, conservador e religioso Jimmy Moralez, do partido Frente de Convergência Nacional. O candidato, que concorreu com o cientista social Manuel Baldizón e a candidata de centro-esquerda Sandra Torres, se apresentava como um antipolítico.

Wikimedia Commons

Escândalo conhecido como “La línea” levou à prisão de Baldetti e à renúncia de Pérez Molina, também detido pouco tempo depois

Ucrânia

Após o ex-presidente Viktor Yanukovych ter rejeitado um acordo comercial que aproximaria os laços da Ucrânia com a União Europeia (UE), expressiva parcela da população, principalmente do oeste do país, inicia uma série de protestos contra o então presidente pró-Rússia. Tal onda de protestos cresceu gradativamente na passagem do ano de 2013 para 2014, num movimento que ficou conhecido como “Euromaidan”.

Yanukovych, ameaçado pelos protestos pró-UE, que pediam a retirada imediata de seu governo, inicia uma forte repressão contra os manifestantes, o que resulta em grande número de mortos. Em 22 de fevereiro de 2014, ele foi deposto do cargo e se refugiou na Rússia.

Em março, a Rússia, que apoiava Yanukovych, anexou o território da Criméia, oficialmente ucraniano, mas majoritariamente habitado por russos. A anexação foi resultado de um referendo realizado pelo parlamento da Crimeia que visava a separação da Ucrânia, em resposta às novas articulações políticas em Kiev. Inspirados no exemplo da Crimeia, as regiões de Donetsk e Lugansk se declaram independentes e se recusam a reconhecer o governo de Kiev.

Dois meses depois, Petro Poroshenko venceu as eleições presidenciais e permanece no cargo até hoje. Em setembro, Kiev e os separatistas assinaram um acordo de cessar-fogo na Bielorrússia. Há acusações mútuas de quebra do acordo desde então.

Tailândia

Em maio de 2014, militares deram o 12º golpe de Estado desde 1932 na Tailândia. Liderados pelo chefe do Exército do país, Prayuth Chan-Ocha, as Forças Armadas aproveitaram uma lei marcial para tomar o poder.

O país atravessava uma crise política, com uma série de protetos, desde que outro golpe havia deposto o então primeiro-ministro Thaksim Shinawatra em 2006. No começo do mês, a então premiê Yingluck Shinawatra, irmã de Thaksim, eleita após a saída dele do cargo e acusada de corrupção, havia sido destituída pelo Tribunal Constitucional do país. Ela foi substituída, interinamente, pelo ministro do Comércio, Niwattumrong Boonsongpaisan.

Com o golpe, os partidos políticos do país foram banidos.

Em outubro de 2017, Chan-ocha – que havia dito que ficaria no poder temporariamente – anunciou que realizaria eleições em novembro de 2018. Este pleito deveria ter acontecido em 2015, foi remarcado para 2016 e novamente adiado.

Egito

Em 2013, ainda sob os efeitos da Primavera Árabe, o então presidente Mohammed Mursi, da Irmandade Muçulmana, que havia sido eleito após a destituição do ditador Hosni Mubarak, sofreu um golpe de Estado dado por militares.

Mursi foi destituído do cargo após manifestantes terem tomado as ruas pedindo por eleições antecipadas. O exército egípcio aderiu ao movimento, dando um ultimato a Mursi para que ele atendesse às exigências populares. Com a demanda negada, tanques de guerra cercaram o palácio presidencial e derrubaram o então presidente.

O líder do movimento foi o então ministro da Defesa, Abdel Fattah al-Sisi, que, depois de um período de transição, foi eleito em 2014 o novo presidente do país em uma eleição na qual levou 97% dos votos.

Mursi, por sua vez, foi condenado por, entre outros supostos crimes, entregar documentos relacionados com a segurança nacional às autoridades do Catar e espionagem. Ele chegou a ter a prisão perpétua decretada, mas a sentença foi anulada. Ele permanece detido.

(*) Com Lucas Estanislau

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