Marcha relembra golpe militar e rechaça prisão domiciliar a torturadores argentinos

Multidão crítica presidente argentino Mauricio Macri e organizações de direitos humanos exigem investigações sobre assassinato de Marielle Franco

Alê Goes Alves

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Mal passava das 13 horas e a Avenida de Mayo já se encontrava tomada por bandeiras e gritos: "30 mil desaparecidos. Presente, hoje e sempre!" Neste sábado (24/03), data que marca o 42º aniversário do golpe civil-militar argentino (1976-1983), milhares de pessoas se reuniram no centro histórico de Buenos Aires para reafirmar o direito à memória e dizer que existe um só lugar possível para torturadores: a prisão.

"Reiteramos que não permitiremos nenhum retrocesso sobre a memória, a verdade e a justiça. Nossa sociedade deve construir sua identidade a partir da verdade. Até que apareça a última dessas crianças, hoje adultos, a identidade de todos está em dúvida", afirmou à multidão a presidenta da organização Avós da Praça de Maio, Estela de Carlotto. 

Alê Goes Alves

"Sem perdão nem esquecimento” foi lema presente em inúmeros cartazes e gritos.

Durante a manifestação, em documento sobre fragilidades democráticas na Argentina e na América do Sul, lideranças da marcha do dia 24 lembraram do caso da vereadora carioca Marielle Franco e de seu motorista Anderson Pedro Gomes, executados no centro do Rio de Janeiro. As organizações presentes exigiram investigações sobre o assassinato.

Entre gritos de "onde quer que vão, nós iremos buscá-los", os manifestantes rechaçaram a concessão de métodos alternativos de privação de liberdade a torturadores. A reação se deve à divulgação, na última terça-feira (20/03), de uma lista feita pelo Sistema Penitenciário Federal (SPF) que incluía Alfredo Astiz entre os réus com possibilidades de deixar a prisão comum e acessar penas alternativas. Conhecido como "anjo da morte", Astiz é um dos torturadores mais emblemáticos da última ditadura militar argentina, condenado no ano passado à prisão perpétua por crimes de lesa humanidade cometidos na Escola de Mecânica da Armada (ESMA), centro clandestino de detenção e tortura por onde passaram cerca de cinco mil pessoas entre 1976 e 1983.

Alê Goes Alves

Cartazes mostram nomes de desaparecidos da última ditadura militar argentina

 

Chamado pelos manifestantes de “lixo que apoiou a ditadura”, o presidente Maurício Macri declarou no sábado que o 24 de Março, considerado Dia da Memória pela Verdade e Justiça, era importante para a sociedade argentina se unir e voltar a dizer "nunca mais ao terrorismo de Estado". O presidente fez a declaração na cidade de Mendoza, onde participava da assembleia do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). 

Encontro de gerações

Diferentes gerações caminharam pela Avenida de Mayo, unindo as conquistas do passado aos desafios do presente, na busca de um futuro sem segredos de Estado. Famílias inteiras, com destaque para a presença massiva de crianças e adolescentes, acompanhavam a movimentação da multidão.

“Hoje, ela me perguntava por que vínhamos à marcha e eu disse que essa é a única maneira de dizer com o corpo que não queremos que esse passado se repita. A nova geração tem muito conhecimento sobre os seus direitos e deve exercitar isso”, conta a professora Karina Fernandez, de 43 anos, apontando para a filha Jazmin, de 10, e acompanhada pela mãe, Marisa Cabrera.

“Sem perdão nem esquecimento” foi um lema presente em inúmeros cartazes e gritos. “Torturadores doentes devem receber os cuidados na prisão, como outros presos”, afirma a estudante Mora, de 17 anos, presente na marcha pela sétima vez. Para Mariano Carabelli, de 57 anos, julgar e prender torturadores em cárcere comum não é vingança, mas justica. “Vingança seria desaparecer com os torturadores e jogá-los ao mar, como eles fizeram com os desaparecidos”, avalia ele, que presenciou todas as marchas do 24 de Março.

Por volta das 16 horas, a multidão abriu caminhos para o caminhão que levava as Avós para o palco montado na Praça de Maio. Muitas tem a cabeça coberta pelo pano branco que virou símbolo do grupo e acenam para a multidão emocionada que as ovaciona: “Avós da Praça, o povo lhes abraça”.

Emergentes

Manifestantes de diferentes idades marcharam por memória, verdade e justiça

Fragilidades da democracia

No palco, Mães e Avós de Maio cumpriram a tradição e se revezaram para ler o documento preparado para a marcha por inúmeras organizações de direitos humanos. Além de enfatizar a identidade como um direito a ser “garantido por todos”, o documento exigia a independência do Poder Judiciário, criticado por “conivência com a impunidade”.

O documento criticou a fragilidade da democracia argentina atual e exigia a libertação de Milagro Sala, dirigente política indígena presa desde janeiro de 2016 por liderar acampamentos de cooperativas contra Gerardo Morales, governador da província de Jujuy, no norte do país. "Marchamos contra o ajuste, a repressão e a impunidade, por uma democracia sem presos políticos como Milagro Sala", afirmou Taty Almeida, integrante da Linha Fundadora das Mães de Maio.

Outro caso lembrado foi o do ativista Santiago Maldonado, cujo corpo foi encontrado 78 dias após sua morte no rio Chubut, na Patagônia. Maldonado foi dado por desaparecido em agosto de 2017, após violenta repressão da Gendarmeria (polícia militarizada) em um assentamento mapuche localizado em terras vendidas ao empresário italiano Luciano Benetton. O documento também repudiou a “militarização promovida pelo governo Temer” no Brasil.
 

Alê Goes Alves

Manifestantes exigem investigações sobre o assassinato de Marielle Franco, vereadora do PSOL, e seu motorista Anderson Pedro Gomes

Após 42 anos de busca e 127 netos encontrados, as Mães e Avós da Praça de Maio estimam ainda ter outros 300 netos para encontrar. Se torturadores continuam calados sobre o paradeiro dos desaparecidos durante o regime militar, as matriarcas estão mais acompanhadas do que nunca por uma multidão que grita “Iremos buscá-los”.

 

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