Israel: Netanyahu cancela acordo com a ONU que evitaria deportações

Após pressão de conservadores, premiê volta atrás em plano acertado com as Nações Unidas; pacto previa permanência de milhares de imigrantes africanos em Israel e envio de outros para países do Ocidente

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O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, anunciou nesta terça-feira (03/04) que voltou atrás em um acordo fechado ontem com a ONU, que previa o envio de 16 mil imigrantes africanos para países ocidentais, incluindo Alemanha e Itália, e a permissão para que outros 16 mil ficassem em território israelense. Inicialmente, Netanyahu suspendeu temporariamente o acordo. Horas depois, veio o anúncio do cancelamento definitivo.

Segundo o jornal israelense Haaretz, o premiê capitulou diante da pressão de seus aliados conservadores, que não gostaram da ideia de que parte dos imigrantes permanecesse em Israel.

"Eu escutei atentamente os muitos comentários sobre o acordo. Depois de reavaliar as vantagens e desvantagens, decidi cancelar o acordo", disse Netanyahu em comunicado.

Antes do anúncio do pacto com a ONU, Israel previa deportar mais de 30 mil imigrantes, em sua maioria do Sudão e da Eritreia, de volta para seus países de origem. Se os imigrantes não obedecessem à ordem de sair, eles seriam presos.

Diante da repercussão do caso, Netanyahu acabou anunciando a suspensão do plano original e disse que uma parte dos imigrantes seria realocada em países europeus e o Canadá e que outra poderia ficar em Israel.

REUTERS

Netanyahu inicialmente pretendia deportar imigrantes, depois selou acordo para realocar parte deles e agora voltou atrás

O acordo, porém, gerou diversos problemas. Autoridades dos países que deveriam acolher os imigrantes afirmaram que desconheciam os termos. A própria ONU evitou comentar o plano, que foi divulgado por Israel.

O Ministério do Exterior italiano, por exemplo, informou que "não há um pacto com a Itália". Já um porta-voz do Ministério do Interior da Alemanha disse desconhecer qualquer plano para acolher migrantes vindos do país no Oriente Médio.

O plano de permitir que parte dos imigrantes ficasse em Israel também repercutiu mal entre a direita israelense – que argumentou que a presença de migrantes cristãos e muçulmanos representa uma ameaça à identidade do país como um Estado judeu.

O ministro da Educação do país, Naftali Bennett, por exemplo, disse na segunda-feira que "o acordo com a ONU para reassentar os infiltrados é ruim para Israel". No mês passado, ele já havia dito que permitir a presença dos imigrantes transformaria Israel em uma "agência de empregos para o mundo todo".

Após o anúncio do cancelamento do pacto com a ONU, o próprio Netanyahu adotou a mesma linguagem contra os imigrantes, que são chamados de "infiltrados ilegais" pelos conservadores israelenses.

"Apesar da crescente limitação legal e internacional, continuaremos a trabalhar com determinação para esgotar todas as possibilidades à nossa disposição para remover os infiltrados", disse o premiê no comunicado.

Por outro lado, progressistas e sobreviventes do Holocausto são contra o plano de deportações, afirmando que Israel, dada sua história, tem o dever de receber refugiados que fogem do conflito e da fome.

O polêmico plano original de deportação de africanos foi anunciado em janeiro pelo governo israelense. Não ficou claro se, com o cancelamento do acordo com a ONU, Israel pretende retomar o projeto original de deportações em massa de imigrantes para seus países de origem ou criar outro plano.

JPS/ots

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