Sucessão em Cuba: sete fatos para entender o governo de Raúl Castro

Após dois mandatos à frente da ilha, histórico líder cubano dará lugar a um novo presidente; veja alguns dos acontecimentos que marcaram seu mandato

Redação

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Após 10 anos como presidente de Cuba, Raúl Castro termina seu mandato, e seu sucessor deve ser eleito nesta quinta-feira (19/04). À frente da ilha desde 2008, quando sucedeu Fidel Castro (de maneira definitiva, já que em 2006 havia assumido o cargo interinamente), Raúl foi responsável por medidas de abertura econômica e agiu de maneira efetiva para melhorar as relações diplomáticas da ilha. Opera Mundi separou sete fatos para explicar como foi o mandato do histórico líder cubano. Veja:

1) Reproximação com os EUA

Após 18 meses de negociações secretas, Raúl e o então presidente norte-americano Barack Obama anunciaram a reaproximação diplomática entre os dois países. As nações haviam rompido relações em 1961, com a imposição do bloqueio econômico por parte dos EUA.

A reaproximação, que teve como um dos principais mediadores o papa Francisco, proporcionou fatos históricos como a ida de Raúl aos EUA para participar da Assembleia Geral da ONU; a libertação de presos políticos cubanos nos EUA; a retirada da ilha da lista norte-americana de países patrocinadores de terroristas; o hasteamento da bandeira cubana em Washington, após 54 anos, e a dos EUA em Havana durante a visita de John Kerry, que se tornou o primeiro secretário de Estado norte-americano a visitar o país em sete décadas.

Em março de 2016, no auge dos movimentos de reaproximação, Obama foi a Cuba, na primeira visita de um chefe de Estado norte-americano à ilha em 88 anos.

No entanto, em junho de 2017, o governo do atual presidente, Donald Trump, recuou em várias medidas alcançadas pelos governos de Raúl e Obama. As reversões não chegaram a representar uma nova ruptura diplomática, mas sim a suspensão de alguns termos acordados em 2014.

2) Porto de Mariel

Foi durante o governo de Raúl que se inauguraram as obras do porto de Mariel, que se tornou um dos maiores terminais de importação e exportação do Caribe e um símbolo da colaboração econômica entre Brasil e Cuba. Brasília foi responsável pela maior parte dos investimentos usados na construção do porto, sendo 682 milhões de dólares financiados pelo BNDES.

À época da inauguração, a então presidente Dilma Rousseff afirmou que o Brasil pretendia se tornar “parceiro econômico de primeira ordem de Cuba” e respondeu as críticas sobre a obram dizendo que não se tratava apenas de apoiar um governo aliado, mas também de abrir portas para empresas atuarem na ilha.

3) China

As relações diplomáticas e econômicas entre Cuba e China chegaram ao seu ponto alto durante o mandato de Raúl. Apenas em 2014, o governo chinês assinou 29 acordos econômicos com a ilha, envolvendo as áreas de biotecnologia, agricultura, infraestrutura e energias renováveis.

Em 2017, o diretor-geral do Departamento de Assuntos da América Latina e Caribe da China, Zhu Quingqiao ,afirmou que os vínculos entre Havana e Pequim estavam em sua melhor etapa histórica e destacou que “Cuba possui vantagens comparativas em relação a outras nações da região, sobretudo no setor da medicina, pelo qual a China deseja ampliar, ainda mais, os laços nessa área”.

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Após 10 anos de mandato, o presidente de Cuba, Raúl Castro, deixará o cargo nesta quinta-feira (19/04)

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4) Mais médicos

Símbolo de uma parceria bem sucedida entre Brasil e Cuba, o programa Mais Médicos teve início em 2013, quando o governo cubano - comandado justamente por Raúl Castro - enviou aproximadamente 4.000 profissionais da saúde para trabalharem em municípios brasileiros.

De acordo com relatório da ONU divulgado em 2016, o programa trouxe benefícios ao Brasil e poderia ser adotado por outros países. Segundo as Nações Unidas, “o projeto é replicável e é potencialmente benéfico para qualquer país que decida adotá-lo. O Brasil fez um investimento econômico substancial para a realização do projeto; porém, os benefícios a longo prazo superam esses investimentos”.

5) Paz na Colômbia

O governo de Raúl desempenhou um papel fundamental no processo de paz entre o governo colombiano e as então Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Havana foi palco por quatro anos de uma série de reuniões envolvendo diplomatas e dirigentes de ambos os lados.

Além disso, Cuba nomeou Rodolfo Benítez, funcionário do governo cubano, para se mediador dos diálogos de paz. Em 2016, o acordo foi finalmente oficializado em cerimônia formal realizada na capital cubana, com a presença do presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, dos dirigentes da FARC e de diversos líderes latino-americanos. 

6) Reforma política

Mudança estrutural ocorrida no governo cubano, a reforma política proposta pelo presidente Raúl Castro e levada a cabo em votação na Assembleia Nacional alterou o tempo do mandato presidencial em Cuba. De acordo com a lei aprovada em 2013, o mandato do presidente deve durar cinco anos, sendo permitida a reeleição.

“Deve ser garantida na linha de frente do poder estatal e governamental a unidade executiva frente a qualquer contingência pela perda do líder, de modo que se preserve, sem interrupções de nenhum tipo, a continuidade e a estabilidade da nação", afirmou o líder cubano à época.

Raúl cumpre, em 2018, 10 anos no poder - dois mandatos - e, por isso, deixa o cargo para um sucessor.

7) Estabilidade política e econômica

A partir de 2008, Raúl iniciou um processo de maior flexibilização econômica em Cuba, dando mais abertura ao trabalho privado e aos investimentos estrangeiros. Atualmente há mais de meio milhão de pessoas trabalhando por conta própria no país, o que permitiu que a ilha diversificasse a oferta de bens e serviços com maior nível de qualidade.

Apesar de restrições impostas pelo governo Trump, o PIB, sustentado pelo bom desempenho cubano nas áreas da agricultura, turismo e exportação de serviços, tem demonstrado um crescimento equilibrado. No ano passado, o crescimento foi de 1,6%.

Segundo Raúl, o “discreto resultado alentador", menor que os 2,2% previstos, ocorreu porque o governo cubano não renunciou à ideia de amparar a população em detrimento de questões puramente econômicas. “Esta premissa, que corresponde ao princípio de que ninguém ficará desamparado, condiciona em grande medida a velocidade da atuação do modelo econômico cubano, no qual é inegável a influência da crise econômica internacional e, em particular, os efeitos de bloqueio contra Cuba”, afirmou em discurso transmitido pela TV cubana.

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