Líderes da Coreia do Sul e do Norte fazem encontro histórico na fronteira entre os dois países

Pela primeira vez, um mandatário do Norte entrou em território do Sul; para Kim Jong-un, 'nova história começa agora'

Redação (*)

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Os líderes das Coreias do Sul, Moon Jae-in, e do Norte, Kim Jong-um, fizeram nesta quinta-feira (27/04), sexta 28/04 no horário local, uma reunião histórica na localidade fronteiriça de Panmunjon, marcando a primeira vez que um mandatário do Norte atravessou a Zona Desmilitarizada (ZDC) que divide as duas nações.

Ao chegar, Kim e Moon se cumprimentaram e seguiram para reuniões. Em um livro de visitas, o líder norte-coreano deixou a seguinte mensagem: “uma nova história começa agora – no ponto inicial da história e na era da paz”.

Dois presidentes sul-coreanos – Kim Dae-jung e Roh Moon-hyn – já haviam realizado encontros com Kim Jong-il, pai do atual comandante norte-coreano, em 2000 e 2007, respectivamente, mas não chegaram a grandes transformações na condução das tensões entre os dois países.

É importante registrar que não existe tratado de paz entre as duas Coreias, em uma guerra que está em cessar-fogo desde 1953 (para entender melhor a crise na península coreana, leia o dossiê da Tricontinental em inglês ou espanhol). O fim do conflito foi discutido nas reuniões de cúpula ocorridas em 2000 e 2007, mas não avançou muito. Há expectativa de que a questão volte à pauta neste novo encontro, o que confere grande relevância para a viagem de Kim Jong-un a Panmunjeon.

Política do Sol

Outro fato importante é que, logo após a posse do presidente sul-coreano Moon Jae-in, o país vizinho fez um teste com mísseis balísticos. Mesmo assim, o novo mandatário anunciou, para compor seu governo, dois nomes importantes na longa história de tentativas de melhorar o relacionamento entre as duas Coreias – o primeiro-ministro Lee Nak-yeon e o chefe da Inteligência Suh Hoon –, apesar da pressão dos Estados Unidos, do Japão e de parte dos poderes de seu próprio país para evitar a chamada ‘Política do Sol’ de reaproximação das duas nações.

O governo da Coreia do Norte continuou com o que parecia um cronograma beligerante de testes com mísseis e armas nucleares. Com a reação ruidosa e belicosa do presidente dos EUA, Donald Trump, parecia de fato que a guerra se colocava como uma realidade no horizonte da península do Oriente. Mas o que os estadunidenses não calculavam é que os norte-coreanos estavam menos interessados no conflito e mais investidos em garantir uma boa posição de negociação quando se reunissem com o vizinho do sul.

Divulgação/Korea.net

Kim Jong-un (esq.) e Moon Jae-in se encontraram na fronteira entre Sul e Norte

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Guarda-chuva nuclear

Foi inteligente a decisão norte-coreana de anunciar, na semana passada, que interromperia os testes nucleares em Punggye-ri. A medida fez parecer que o país tinha intenções sérias de acabar com a tensão nuclear na região, mesmo que o gesto, na verdade, tenha acontecido em novembro – mas ninguém estava prestando atenção. O local em si já estava deteriorado e seria pouco provável que se pudesse conduzir testes ali no futuro. Ainda assim, a ação produziu o efeito esperado: mostrou ao mundo que a Coreia do Norte está disposta a fazer concessões no âmbito nuclear.

Como dizem os diplomatas norte-coreanos, na verdade, o país não está disposto a entregar seu arsenal nuclear. Eles citam o caso da Líbia, onde o líder Muammar Qaddafi abriu mão de seu programa nuclear e viu o país ser destruído por uma guerra promovida pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Já a Coreia do Norte não está disposta a acreditar na palavra dos Estados Unidos, entendendo, nas declarações de Trump sobre o acordo com o Irã, que não é possível confiar em um aperto de mãos com Washington. Mais provável que a desnuclearização é a possibilidade de as duas Coreias transformarem o armistício de 1953 em um acordo de paz e aumentarem o nível de cooperação para além da ZDC.

Poderio estadunidense

Mas seria um tratado de paz entre a Coreia do Sul e do Norte suficiente? Afinal, uma das partes beligerantes da situação são os EUA. Foram eles que participaram da guerra entre 1950 e 1953. São bases estadunidenses com cerca de 35 mil soldados que abarrotam a Coreia do Sul, enquanto outros 40 mil estão no Japão. Navios e aeronaves de guerra com capacidade nuclear estão constantemente atravessando os mares e o ar próximo dos norte-coreanos. Se o país sob comando de Trump decidir não participar do fim da guerra, a guerra não acabará de verdade. Esse é um problema sério para Moon Jae-in, pois o líder sul-coreano não pode assinar o tratado em nome dos Estados Unidos.

A ministra das Relações Exteriores da Coreia do Sul, Kang Kyung-wha, reuniu-se com Susan Thornton, nomeada por Trump para o Departamento de Estado para Ásia Oriental e Pacífico. Lee Do-hoon, da divisão intercoreana de negociações de paz, reuniu-se com Kanasugi Kenji, do Ministério de Relações Exteriores do Japão. Os dois encontros tiveram o objetivo de garantir aos estadunidenses e japoneses que os sul-coreanos veem o diálogo como parte de um processo que não deve ser prejudicado. Talvez não saia nada de espetacular e significativo da reunião desta sexta, mas ela deve, mesmo assim, ser considerada significativa pelo simples fato de ocorrer.

(*) Com Brasil de Fato e NewsClick. Tradução: Aline Scátola

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