Al’Nakba: A ferida que sangra e a profecia que não irá se cumprir

Nesta terça-feira os palestinos registram a passagem do 70º aniversário do que eles chamam de 'A Catástrofe' (Al’Nakba)

Wevergton Brito Lima*

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No dia 15 de maio de 1948, um dia depois da proclamação oficial da criação de Israel, os sionistas iniciaram uma cruel limpeza étnica contra o povo que habitava há séculos aquela região, chamada por todos, inclusive pelos sionistas, de Palestina.

Nesta segunda-feira (14/05), apenas um dia antes do Al’Nakba, os EUA inauguram sua embaixada em Jerusalém, de maneira ilegal e unilateral, desprezando inúmeras resoluções da ONU sobre a questão.

Tal ato representa uma clara provocação e um escárnio contra o sofrido, mas indômito, povo palestino, que mais uma vez protestou com destemor enfrentando a máquina de morte sionista. Franco-atiradores de Israel abateram, nesta segunda-feira, 58 pessoas que protestavam pacificamente em defesa da sua terra ancestral. Já são 111 mortos desde 30 de março, quando os palestinos iniciaram as manifestações.

Al’Nakba

A aprovação pela ONU da partilha da Palestina, em 29 de novembro de 1947, entregando boa parte do território palestino aos sionistas para a fundação de Israel, aconteceu em um contexto fortemente influenciado pelo genocídio contra os judeus, cometido pelo nazismo durante a 2ª guerra mundial, que recém terminara, tornando a causa da criação de um “Estado Judeu” quase que em uma obrigação moral da humanidade.

A URSS, que além disso também considerava a criação de Israel como um sinal de decadência do colonialismo britânico (cujas forças ocupavam territórios palestinos) e, portanto, um fato positivo, foi a primeira nação a reconhecer Israel depois de sua proclamação como Estado em 14/05/1948. Contudo, menos de dois anos depois, em 1950, Stálin rompe politicamente com o Estado sionista, que caminhava claramente para se tornar, como de fato se tornou, um protetorado do imperialismo estadunidense no Oriente Médio. De 1950 até o fim da URSS, esta nação foi uma firme e constante aliada da causa palestina.

De qualquer maneira, o povo palestino, que não tinha nada a ver com o genocídio sofrido pelos judeus, pagou um preço incalculável de dor e sofrimento pela criação do Estado de Israel em suas terras. Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Nacional Palestina, relata assim a Nakba:

“A Palestina e nós, sua gente (…) sofremos nossa maior catástrofe, em árabe al Nakba. Em 1948, as milícias sionistas expulsaram pela força mais de 800 mil homens, mulheres e crianças de sua terra natal, perpetrando massacres horríveis e destruindo centenas de aldeias no processo. Eu tinha 13 anos no momento da expulsão de Safad. A ocasião em que Israel celebra sua criação como Estado, os palestinos o recordamos como o dia mais sombrio de nossa história (…) hoje em dia os palestinos somam mais de 12 milhões e estão espalhados por todo o mundo. Alguns foram expulsos de sua pátria em 1948, com mais de 6 milhões vivendo no exílio até hoje. Aqueles que conseguiram permanecer em suas casas são aproximadamente 1,75 milhões e vivem em um sistema de discriminação institucionalizada no que é hoje o Estado de Israel. Aproximadamente 2,9 milhões de pessoas vivem na Cisjordânia sob uma ocupação militar – convertida em colonização, dos quais 300 mil são os habitantes nativos de Jerusalém, que até agora têm resistido às políticas destinadas a expulsá-los da cidade. Dois milhões vivem na Faixa de Gaza, uma prisão a céu aberto sujeita a uma destruição regular através da força total do aparelho militar de Israel (Jornal The Guardian, novembro de 2017).”

Reprodução/Twitter

De qualquer maneira, o povo palestino, que não tinha nada a ver com o genocídio sofrido pelos judeus, pagou um preço incalculável de dor e sofrimento pela criação do Estado de Israel

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O Sionismo e a desculpa do antissemitismo

As constantes violações de resoluções da ONU por parte do Estado de Israel e seus repetidos crimes contra o povo palestino são turvados por uma milionária e eficaz máquina de propaganda que confunde ou coopta inclusive setores da esquerda, assacando contra qualquer denúncia destes crimes e violações a pecha de “antissemitismo”.

O judeu alemão Hajo Meyer, falecido em 2014, foi um dos poucos sobreviventes do campo de concentração nazista de Auschwitz. Membro da organização “Rede Internacional de Judeus Antissionistas”, em 2012 Meyer declarou que era possível traçar paralelos entre o tratamento recebido pelos judeus na 2ª Guerra Mundial e a situação atual dos palestinos nas mãos dos israelenses.

“Os israelenses desumanizam os palestinos, tal como os nazistas tentaram me desumanizar. Ninguém deveria desumanizar o outro (Opera Mundi, 2012)”, disse Meyer, que passou dez meses em Auschwitz em 1944. Meyer afirmava também que o significado do termo “antissemita” mudou. “Antes, antissemita era alguém que odiava os judeus, por eles serem judeus. Hoje, antissemita é alguém que é odiado pelos judeus.”

De fato, a acusação de antissemitismo é um escudo usado pelos sionistas contra qualquer crítica aos crimes de Israel. “Antissemita!” bradam indignados, esquecendo-se de duas coisas: 1) Nem todos os judeus, como mostra o caso de Hajo Meyer, são sionistas ou defensores do Estado de Israel e 2) O povo árabe também é semita, partilhando com os judeus as mesmas origens étnicas e culturais. O hebraico, o aramaico e o árabe são línguas semíticas. Assim, não tem sentido acusar de antissemita quem defende o justo direito do povo semita árabe palestino a sua independência e liberdade.

Crimes impunes

O alto-comissário da ONU para os direitos humanos, Zeid Ra’ad Al Hussein, provavelmente receberá o título de antissemita pois no início de maio já havia alertado: “Toda semana, testemunhamos casos de uso de força letal por Israel contra manifestantes desarmados”. Nesta segunda-feira, o representante da Palestina perante a ONU, Riad Mansur, considerou que este foi um dia trágico, quando ocorre a abertura da Embaixada dos EUA em Jerusalém e ao mesmo tempo as forças israelenses continuam o massacre em Gaza. “Mais de 50 mortos e 2.000 feridos na fronteira entre Gaza e Israel. É muito trágico que eles celebrem essa ação ilegal (abertura da embaixada dos EUA em Jerusalém), enquanto os ocupantes israelenses continuam a matar civis inocentes. Devemos assegurar que os culpados por estes crimes respondam perante a justiça, pois a Palestina não pode ser uma exceção diante do direito internacional (Prensa Latina, 14/05)”, ressaltou.

Heroísmo indômito

Em plena Nakba, há 7 décadas, o então primeiro-ministro israelense, David Ben-Gurion, explicitou um plano: segundo ele, o conflito árabe-israelense não duraria mais de 20 anos. Depois deste tempo, dizia, quem conheceu a Palestina terá morrido, e quem nascer depois não lutará por uma terra da qual não guarda recordação.

Os sionistas se esforçaram por fazer valer a tétrica previsão, que condenava todo um povo ao desaparecimento, com doses fartas de repressão e assassinatos.

É de fato impressionante como o povo palestino, mal armado, sem infraestrutura, sem exército, teima em resistir. O símbolo de sua valentia sem limites pode ser encarnado por Fadi Abu Salah. Em 2014 este palestino perdeu as duas pernas durante um ataque israelense. Nesta segunda-feira, mesmo de cadeiras de rodas e portando apenas uma funda com uma pedra, enfrentou forças dotadas do que existe de mais moderno em termos de armas de guerra e tombou morto pelo exército sionista, assim como já morreram dezenas de milhares de palestinos desde Al’Nakba.

Apesar deste constante terror e morte, os palestinos insistem em sobreviver como povo, carregando chagas que sangram há 70 anos, chagas que clamam para que a consciência humana dê um basta nestes crimes e exija as reparações adequadas. De qualquer maneira uma coisa o povo palestino já deixou provado: a profecia de David Ben-Gurion jamais irá se cumprir.

* Wevergton Brito Lima, jornalista, membro da Comissão de Política e Relações Internacionais do PCdoB

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