Espanha debate exumação dos restos mortais de Franco

Mausoléu do ex-ditador integra monumento para homenagear mortos da Guerra Civil e virou destino de peregrinação de extremistas de direita; governo quer transformar memorial num local de reconciliação nacional

Redação

Deutsche Welle Deutsche Welle

A Espanha tem debatido energicamente há semanas os planos de exumação dos restos mortais do ditador Francisco Franco. O líder militar, que governou a Espanha de 1939 até sua morte, em 1975, está enterrado numa imponente basílica que virou destino de peregrinação para simpatizantes do general e de grupos de extrema direita.

O Vale dos Caídos, na Serra de Guadarrama, a 40 quilômetros de Madri, é um complexo arquitetônico idealizado por Franco para homenagear os mortos da Guerra Civil Espanhola. Ele solicitou a construção do monumento – e de uma cruz cristã de 150 metros – para enterrar e homenagear as vítimas "caídas de Deus e da Espanha".

Em nome de uma suposta reconciliação nacional, Franco ordenou para uma cripta no local a transferência dos restos mortais de cerca de 27 mil combatentes leais a ele, assim como os corpos de 10 mil republicanos – unindo na morte aqueles que um dia lutaram ferozmente uns contra os outros. Muitos deles foram enterrados anonimamente.

Inaugurado em 1959, o local é visto como um monumento que exalta a ditadura franquista e um símbolo profundamente divisório de um passado que a Espanha ainda tem dificuldades de digerir. Muitos dos familiares de combatentes republicanos se sentem humilhados com seus entes queridos sepultados ao lado de franquistas, incluindo o seu comandante.

Em maio de 2017, o Parlamento espanhol já tinha aprovado uma iniciativa do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) que exigia que o então governo conservador de Mariano Rajoy retirasse os restos mortais do ditador do Vale dos Caídos.

A iniciativa, que não tinha força de lei nem era vinculativa, tinha como objetivo que o memorial ao regime franquista se transformasse num "espaço para a cultura da reconciliação, a memória coletiva democrática e a dignificação e reconhecimento das vítimas da guerra civil e da ditadura" espanhola. Críticos comparam a existência do local a um monumento de glorificação a Adolf Hitler.

O novo governo socialista, sob o comando do primeiro-ministro Pedro Sánchez, que assumiu o cargo em 2 de junho, logo tratou de avançar com os planos de exumação sob a alegação que a Espanha "não pode permitir símbolos que dividem". Nesta semana, Sánchez reiterou os planos e anunciou que a exumação ocorrerá em breve. O governo quer transformar o memorial num local de reconciliação nacional.

Mas os descendentes de Franco são totalmente contra a remoção de seus restos mortais, assim como simpatizantes do general. No domingo, ao menos mil pessoas se reuniram no mausoléu do falecido ditador para protestar contra os planos de Madri. Um grupo de extrema direita tinha convocado uma "peregrinação nacionalista, patriótica e religiosa" para impedir o "saque" do túmulo de Franco pelo novo governo socialista.

Enquanto se reuniam, os manifestantes cantaram o hino do partido fascista Falange, cujo fundador José Antonio Primo de Rivera está enterrado ao lado de Franco. Outros carregavam bandeiras da Espanha da época do ditador, que foram confiscadas pela polícia sob uma lei que proíbe atos de exaltação da Guerra Civil no local.

PV/lusa/afp/kna

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