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Ex-líder dos Montoneros depõe em processo que tramita em Roma contra agentes da ditadura brasileira

Após dizer que conhecia ítalo-argentino Lorenzo Vinãs, assassinado em 1980, Mario Firmenich voltou atrás e afirmou não tê-lo visto; processo investiga atos relacionados à Operação Condor

Janaina Cesar

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Contradições e nervosismo marcaram a audiência do Processo Condor que aconteceu nesta terça (06/11) e que julga o envolvimento de agentes da ditadura brasileira no assassinato do ítalo-argentino Lorenzo Vinãs, ocorrido em 1980. O ex-líder dos Montoneros Mario Firmenich depôs por mais de duas horas por meio de videoconferência realizada com a Espanha, país onde reside atualmente.

Firmenich comandou durante dez anos a organização. Ele saiu da Argentina em 1976 e, em 1980, liderou, do exterior, uma contraofensiva contra o então governo ditatorial do Uruguai. Ela resultou na morte e desaparecimento de cem militantes e guerrilheiros do movimento. De 1980 a 1985, viveu exilado em Cuba, e, depois, Europa. 

Anos mais tarde, foi detido no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1984, e extraditado para a Argentina, onde foi condenado a 30 anos de prisão - ele foi anistiado em 1990 pelo então presidente Carlos Menem. Desde 1996 vive em Vilanova, Espanha. 

No início do depoimento, enquanto explicava à corte a história dos Montoneros, Firmenich estava calmo e tranquilo. “Em 1980, percebemos que o governo ditatorial estava mais enfraquecido e vimos ali a chance de voltarmos para o país para tentarmos derrubá-lo de vez”, diz o argentino. “Naqueles anos, a resistência social que se manifestava com as greves mostrava que o povo estava se mobilizando contra a ditadura, haviam perdido o medo do regime”, completa.

Desaparecimentos

Quando os Montoneros voltaram ao Uruguai, em 1980, o governo intensificou a perseguição. O padre Jorge Oscar Adur, que pretendia aproveitar da visita do papa naquele ano para denunciar a repressão em seu país, e Lorenzo Vinãs desapareceram na da Argentina com o Brasil em 26 de julh. E, segundo o Ministério Público italiano, nesta data João Osvaldo Leivas Job atuava como secretário de Segurança do Rio Grande do Sul; Carlos Alberto Ponzi chefiava a agência do SNI (Serviço Nacional de Informações) em Porto Alegre, e Átila Rohrsetzer era diretor da Divisão Central de Informações do Rio Grande do Sul.

Adur e Vinãs pegaram um ônibus da Argentina com direção ao Rio de Janeiro. Seus destinos eram diferentes, assim como as companhias de ônibus, mas o mesmo número do assento era o mesmo: 11. Viñas viajava com o nome falso de Néstor Manuel Ayala. Ambos permaneceram três dias presos na Polícia Federal em Uruguaiana. Após ser entregue à repressão argentina, Viñas foi levado para Paso de los Libres e, depois, para uma prisão clandestina.

Indagado pela procuradora Tiziana Cugini se ele conhecia Vinãs, Firmenich afirmou ter sido apresentado a ele durante um período de treinamento militar que ambos fizeram no Líbano. A versão foi contestada pela procuradora, que leu trecho de um depoimento prestado por Firmenich em 2002 a outro procurador italiano em que dizia, literalmente, não conhecer Vinãs. O ex-Montonero voltou atrás e confirmou que não conhecia Viñas.

A procuradora também quis entender a relação de Firmenich com Silvia Tolchinsky, ex militante Montonera que atuou como informante do Exército argentino na fronteira Paso de los Libres-Uruguaiana. Ela teria sido a última pessoa a ver Vinãs com vida durante o tempo em que ficou presa no centro clandestino de detenção do Campo de Mayo, dependência do Batalhão de Inteligência 601 do Exército argentino localizado em Buenos Aires.

“Durante anos, ela foi secretária do movimento, não era minha secretária particular, mas da direção da organização”, disse o argentino. Cugini queria saber se, pelo cargo que ocupava, poderia ter tudo acesso a informações privilegiadas como codinomes de integrantes do movimento, por exemplo. “Ninguém conhecia todos os companheiros. Porém ela conhecia a direção e sabia como funcionava a organização. Todos os militantes a conheciam”, disse.

O interesse da procuradora é baseado também na deposição que Firmenich prestou anteriormente à Justiça italiana, durante o qual lhe havia sido mostrado um documento do Batalhão 601 que trazia um elenco de codinomes de presos que seriam Montoneros. Nervoso e falando alto, o argentino disse não lembrar de nenhum documento do Batalhão 601. 

Após uma cópia do documento ser enviada à procuradora que acompanhava o depoimento do argentino na Espanha, Firmenich voltou a dizer que não lembrava do papel, mas não excluía a possibilidade de tê-lo visto. Ele afirmou que reconhecia somente um dos codinomes na lista.

A próxima audiência do caso foi marcada para dia 6 de fevereiro do próximo ano. Neste período, será enviada uma carta rogatória à Argentina para solicitar o depoimento de quatro testemunhas, entre elas Claudia Allegrini, ex-esposa de Vinãs.

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