Medicina cubana está a serviço dos mais pobres no mundo, diz médico do país

Em entrevista, Jesus Rafael Mora Gonzalez falou sobre saída de Cuba do programa Mais Médicos e sobre a formação dos profissionais cubanos

Mateus Fiorentini

Algumas mudanças já começam a ocorrer após a eleição de Jair Bolsonaro para a Presidência do Brasil. As declarações e posturas do presidente eleito provocaram rechaço de grande parte da comunidade internacional. Além disso, comprometeu a economia e a sociedade brasileira.

O caso mais recente, que gerou grande parte das polêmicas, foi o comunicado por parte do governo de Cuba anunciando sua saída do programa Mais Médicos. A saída ocorreu após as declarações do futuro mandatário em relação à ilha. O retorno dos médicos cubanos à sua pátria deixará cerca de 1.500 cidades sem serviço médico.

Jesus Rafael Mora (Foto: Facebook)Os médicos cubanos estão presentes em aproximadamente 100 países de todo o mundo. Para que compreendamos melhor a posição do governo cubano, a medicina do país e a participação internacional dos seus médicos, o diretor de Relações Internacionais da Associação Nacional de Pós-graduandos (ANPG), Mateus Fiorentini, conversou com Jesus Rafael Mora Gonzalez. 

Mora, como é conhecido, é médico graduado pela Universidade de Ciências Médicas de Sancti Espíritu e especialista em Medicina Geral Integral (MCI). Além disso, possui larga trajetória internacional, na qual podemos destacar seu trabalho junto à Federação Mundial das Juventudes Democráticas (FMJD), organização criada durante a resistência ao nazifascismo na Segunda Guerra Mundial. Assim, entre 2008 e 2012 e entre 2014 e 2015, Jesus ocupou a Secretaria-Geral da organização, período em que desenvolveu, também, atividade médica em distintos países.

Atualmente, Mora trabalha na Assembleia Nacional de Cuba, tratando de temas internacionais ligados ao parlamento cubano. 

Leia a entrevista:

Como é a formação do médico em Cuba? O que se estuda durante a graduação, qual o currículo e a relação entre teoria e prática na sua formação?

Em Cuba, a formação tem um amplo sentido humanista e prático. Sua formação está baseada na atenção primária de saúde. Nada mais que resolver a grande quantidade de problemas nas comunidades. Nos formamos médicos cubanos durante um período de seis anos e adquirimos uma formação prática. Ou seja, desde o início da graduação estamos vinculados à população, sobretudo à atenção primária de saúde. Nos preparamos, também, para ser parte da sociedade cubana. Nos formamos com um ensino proletário prático, sem aspirações para ser ricos, nem para chegar a ser uma classe superior no nosso país.

Por meio de projetos como a Escola Latino-americana de Medicina (ELAM), Cuba tem formado médicos de todas as partes do planeta. Como se dá essa formação? Quais são os desafios de formar um médico de outra nacionalidade?

Através dos projetos da Escola Latino-americana de Medicina, Cuba colocou [a formação em medicina] em função de todos os países, não apenas latino-americanos, uma vez que existem jovens de mais de 90 países estudando em Cuba. 

O país colocou sua formação em função dos pobres, em função dos que não tenham acesso a estudar nos seus países para que possam, quando regressarem, ir às comunidades e também atender pessoas que estão hoje sem atenção de saúde e que morrem, inclusive, por muitas enfermidades que possivelmente poderiam ser curadas. Igualmente, eles se formam no mesmo princípio, a partir de uma formação social prática, solidária e humana, que recebem em todas as comunidades e se mantém pelo constante intercâmbio com a população.

Como as autoridades cubanas reagiram às declarações de Bolsonaro? Por quê Cuba se retirou do programa?

O parlamento cubano condenou a posição de Bolsonaro. Creio que [a declaração do presidente eleito] é uma chantagem. Esperamos que não interfira nas relações que vêm se mantendo entre nossos países, mas não vamos aceitar chantagens. Cuba se retirou, creio que tem sido claro, pelas próprias declarações deste presidente. O pessoal cubano que coopera nas missões interacionalistas o faz sobre a base do princípio de cumprir com um dever internacionalista.

Há uma frase de Máximo Gomez (líder da luta independentista cubana no século XIX), em que ele afirma que ser internacionalista é saldar nossa própria dívida com a humanidade. Somos um povo formado sobre a base de receber sempre ajuda internacionalista por meio do apoio que nos dão contra o bloqueio ou nas lutas por condenar as ações dos EUA. 

O único dever que nos ensinou Fidel é retribuir com amor, paz, transmitindo nosso conhecimento, compartilhando o que temos, não o que nos sobra. Isso tem sido um princípio da formação do nosso país também.

Como a saída dos médicos cubanos do Brasil impactou em Cuba?

Bom, em Cuba impacta pois é claro ao povo que milhões de cidadãos brasileiros ficaram sem serviço. Como nos ensinou Fidel, compartilhar o que temos implica colocar à disposição dos mais pobres os serviços que temos na área da saúde. 

O povo rechaça, obviamente, as palavras do presidente eleito e também sofre diante do que acontecerá com os milhões de pobres brasileiros. A solidariedade é para com os humildes, com os pobres, aos que ficarão sem este serviço. A disposição é que seus filhos [da pátria cubana], ou seja, os médicos que aí estão, possam regressar [ao Brasil] em algum momento para continuar essa atenção.

O que você gostaria de dizer ainda sobre a medicina e a sociedade cubana?

É importante dizer que Fidel, sempre, desde que a Revolução triunfou, teve como um de seus sonhos converter Cuba em uma potência médica mundial. Para nós, ser potência médica mundial implica formar todo esse capital humano que tem contribuído para que um país, que, apesar de bloqueado, apesar de ser subdesenvolvido, tem uma população com uma expectativa de vida de 81 anos. 

Cuba possui uma taxa de mortes por nascimento inferior a 4% e tem ainda uma indústria biotecnológica que colocou a disposição todo o seu conhecimento para encontrar medicamentos. Isso foi um sonho de Fidel. Creio que o mérito de Fidel deve ser reconhecido. Sua condução, sua sábia decisão de que, mesmo nos momentos mais difíceis, a formação dos profissionais de saúde estava priorizada. 

Isso sim, tive a oportunidade de viver, pois estudei durante os anos mais duros - a década de 90 - , durante o período especial. Contudo, nunca faltaram livros, nunca faltou atenção e, mesmo quando os estudantes universitários renunciaram aos honorários que lhes davam, Fidel rechaçou porque sempre teve claro que Cuba poderia contribuir com o mundo, principalmente diminuindo a pobreza, ajudando os pobres, colocando seus especialistas à disposição dos pobres do mundo.


(*) Mateus Fiorentini é professor de História, mestrando junto ao Programa de Pós Graduação em Integração da América Latina da USP e Diretor de Relações Internacionais da ANPG. Morou em Havana, Cuba, entre 2011 e 2014. A entrevista foi publicada na página Internacionalistas pela Democracia.

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