Repressores da ditadura chilena presos por crimes contra direitos humanos pedem visita de Eduardo Bolsonaro

Advogado dos ex-oficiais da ditadura de Augusto Pinochet entregou carta ao deputado brasileiro solicitando visita aos presos por "razões humanitárias"

Victor Farinelli

A visita de Eduardo Bolsonaro ao Chile, que começou quinta-feira (13/12) e vai até este domingo (16/12), mobilizou os advogados que representam os detentos do complexo penitenciário de Punta Peuco, para promover uma visita do deputado da extrema-direita brasileira aos seus defendidos alegando “razões humanitárias”. Na prisão estão exclusivamente os 112 ex-militares chilenos condenados por crimes de violação aos direitos humanos, tortura, sequestro, desaparições forçadas e execuções políticas durante a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

Raúl Meza, um dos advogados que mais tem atuado para concretizar essa possível visita, chegou a levar uma carta ao filho do presidente eleito Jair Bolsonaro, que está em Santiago realizando encontros com líderes da direita pinochetista chilena como José Antonio Kast, Jacqueline Van Rysselberghe e Ignacio Urrutia.

Trechos da carta de Meza foram reproduzidos por alguns meios chilenos, mostrando os apelos a supostas “razões humanitárias” para que o deputado brasileiro faça um gesto a favor dos seus defendidos: “esperamos que você possa constatar pessoalmente o estado de saúde dos internos, todos eles de avançada idade, todos eles soldados como o seu pai, e que se encontram confinados em um campo de extermínio, com a cumplicidade do governo que ajudamos a eleger”. A última parte da frase faz referência ao atual governo, de Sebastián Piñera, político de direita liberal que iniciou seu segundo mandato não consecutivo em março deste ano (seu primeiro período foi entre 2010 e 2013), e que foi eleito com o apoio dos setores mais conservadores e pinochetistas.

Em outro momento da carta, Meza diz que “não queremos deixar passar a oportunidade de sua estadia no Chile para informar ao Brasil que nosso país ainda possui presos políticos militares que estão encarcerados por terem defendido a sua pátria (...)queremos que você nos ajude, junto com o seu pai, para que possamos organizar a defesa daqueles valores e princípios que nos representam e que foram abandonados”.

Entretanto, os promotores chilenos da visita de Eduardo Bolsonaro negaram ter recebido a carta, segundo o jornal chileno La Tercera. Um desses realizadores seria o também advogado Francisco Javier Leturia, integrante do Conselho para a Transparência e amigo do deputado brasileiro, que afirmou que sua agenda no Chile não contemplaria tal visita.

Não é a primeira vez que ex-agentes da ditadura chilena tentam se aproximar da família Bolsonaro. A iniciativa anterior foi somente uma semana antes, no dia 5 de dezembro, quando um grupo de seis presos (Miguel Estay, Aquiles González, Daniel Guimpert, Carlos Herrera, Eduardo Iturriaga Neumann e Manuel Muñoz) enviaram uma carta diretamente ao presidente eleito Jair Bolsonaro, também solicitando sua visita ao complexo penitenciário – este apelo parte da suposição de que o Chile seria o destino da primeira viagem oficial do futuro mandatário após a sua posse, rumor que tem sido difundido por alguns meios de imprensa chilenos desde novembro.

“Seria de grande valor para nós que o presidente do Brasil se encontrasse com um grupo reduzido de familiares nossos, que são os que mais vêm sofrendo por esta injusta situação que nos afeta há tanto tempo”, expressaram na carta ao presidente eleito.

Punta Peuco

O complexo penitenciário de Punta Peuco foi construído especialmente para os condenados por crimes da ditadura chilena, os quais passaram a ser processados e sentenciados pela Justiça a partir dos anos 1990, graças aos resultados das duas comissões da verdade realizadas no país: o Informe Rettig, de 1991, e a Comissão Valech, cujos trabalhos se estenderam entre 2003 e 2010.

Para muitos ativistas dos direitos humanos e organizações de familiares de vítimas da ditadura, Punta Peuco se trata de uma “prisão de luxo”, onde os presos contam com áreas de lazer como salão de jogos e televisão, quadra de tênis e churrasqueira. Contudo, os diversos recursos judiciais pedindo o fechamento do complexo e o traslado dos presos a presídios comuns jamais foram acatados pela Justiça chilena.

A visita de Eduardo

Eduardo Bolsonaro chegou ao Chile na quinta-feira (13/12) e sua visita vem rendendo algumas controvérsias, pois ele não se encontrou somente com ministros do governo de Sebastián Piñera, como Alfredo Moreno (Desenvolvimento Social) e Felipe Larraín (Fazenda), mas também com representantes da direita extraparlamentar, como o ex-deputado José Antonio Kast, que desde outubro vem se proclamando como o representante do bolsonarismo no país andino.

Em 2017, Kast foi candidato à presidência, ficando em quarto lugar no primeiro turno, com 7,9% dos votos (pouco mais de 500 mil), e desde então está em campanha para 2021. Porém, o colega brasileiro acabou frustrando sua tentativa de fortalecer a imagem de bolsonarista chileno: segundo o meio digital El Desconcierto, Eduardo Bolsonaro declarou, em um de seus encontros, que “se eu fosse chileno, votaria por Jacqueline Van Rysselberghe”, em referência à senadora e presidenta do partido pinochetista UDI (União Democrata Independente), que forma parte da base aliada do governo de Piñera.

Em outras declarações, o parlamentar brasileiro disse que sua visita também tinha como objetivo “observar mais de perto o modelo previdenciário chileno”, que é baseado na gestão de empresas privadas (as chamadas AFP, administradoras de fundos de pensão), embora este seja um dos principais motivos de insatisfação social no país nos últimos anos, com multitudinárias marchas promovidas pelo movimento NO + AFP devido aos valores miseráveis das aposentadorias e pensões entregues aos idosos. Em uma das últimas atividades de sua agenda no Chile, que termina neste domingo (16/12), ele se encontrou com José Piñera, irmão do atual presidente e criador do atual sistema previdenciário – o projeto foi implementado em 1982, quando Piñera era ministro do Trabalho da ditadura de Pinochet.

Em sua conta no Twitter, o deputado federal por São Paulo comentou sobre a visita ao ex-ministro Piñera com a seguinte mensagem: “Esse é um daqueles momentos que não tem preço. Vinho e resenha com José Piñera, o homem que com 29 anos fez as reformas que colocaram o miserável Chile nos trilhos e foram a base para que hoje tenha renda per capita de USD 25.000 e reduzido a pobreza em 50%. Um dia o Brasil chega lá!”. 

No entanto, essa estatística ignora o fato de que o Chile é, justamente desde a ditadura de Pinochet, um dos países com maior diferença de renda e riqueza entre os setores mais ricos e mais pobres da população, segundo estudos de entidades como a CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) e a chilena Fundação SOL, o que impõe um questionamento aos dados sobre a renda média da população.

Talvez estimulado por essa última visita, o filho de Jair Bolsonaro não poupou elogios aos chamados Chicago Boys – os economistas chilenos pós-graduados na Universidade de Chicago, que instauraram o neoliberalismo a ferro e fogo em seu país, tutelados pela ditadura, sendo José Piñera um deles. “O Chile teve a sorte de ter os Chicago Boys nos anos 1980, por isso está tão bem financeiramente. O Brasil agora terá o seu Chicago Boy, que é o Paulo Guedes”, afirmou o Eduardo Bolsonaro, lembrando que o futuro ministro da Fazenda viveu no Chile nos anos 1980, quando foi professor da Universidade do Chile e colega de academia de alguns dos “boys” originais. Também fez elogios ao ditador Augusto Pinochet, dizendo que ele “salvou o Chile de se tornar uma nova Cuba”.

Reprodução/Twitter
Eduardo Bolsonaro se reuniu com o ex-deputado Jo´se Antônio Kast

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