MP italiano pede que admissão de que Brasil fez parte da Condor vire prova no processo sobre operação

Operação Condor marcou a época do terror nas ditaduras do Cone Sul e funcionava como uma rede de colaboração e troca de informações e prisioneiros políticos entre Argentina, Uruguai, Chile, Paraguai, Bolívia e Brasil

Janaina Cesar

Roma (Itália)

O Ministério Público italiano vai pedir que a admissão feita por um general sobre participação brasileira na Operação Condor seja incluída como prova no processo sobre o período que tramita em uma Corte do país. O pedido de inclusão do documento seria feito na audiência da última terça-feira (12/03) mas, por motivos burocráticos, teve que ser adiada para dia 12 de junho, às 14.30. A Corte ainda  deverá analisar se aceita o pedido do MP italiano. 

O caso julga o envolvimento dos brasileiros João Osvaldo Leivas Job, ex secretário de Segurança do Rio Grande do Sul; Carlos Alberto Ponzi, ex chefe da agência do SNI (Serviço Nacional de Informações) em Porto Alegre; e Átila Rohrsetzer, ex diretor da Divisão Central de Informações do Rio Grande do Sul, no sequestro e assassinato do ítalo-argentino Lorenzo Vinãs, ocorrido em 1980, época de atuação da Operação Condor. 

A Operação Condor marcou a época do terror nas ditaduras do Cone Sul a partir da segunda metade da década de 1970. Funcionava como uma rede de colaboração e troca de informações e prisioneiros políticos entre Argentina, Uruguai, Chile, Paraguai, Bolívia e Brasil. As forças de repressão desses países atuavam conjuntamente para debelar organizações políticas de esquerda. 

Admissão

Além de admitir que o governo militar participou da Operação Condor, o general-de-divisão da reserva Agnaldo Del Nero Augusto ainda citou como exemplo do envolvimento do governo militar nas prisões de cidadãos estrangeiros, "o caso dos dois italianos", se referindo a Viñas e a Horácio Domingos Campiglia, ambos ítalo-argentinos e militantes dos Montoneros, grupo da esquerda peronista que defendia a luta armada na Argentina.

Campiglia foi preso em companhia de Mônica Suzana Pinus de Binstock no Rio, em março de 1980, no Aeroporto do Galeão. Ela havia desembarcado de um vôo que vinha da Venezuela. Viñas foi detido em Uruguaiana (RS), em junho de 1980.

Inicialmente, o processo italiano também apurava o envolvimento brasileiro no assassinato de Campiglia, mas os investigados já haviam falecido. 

As declarações de Del Nero foram dadas ao jornalista Marcelo Godoy, que, por dez anos, apurou material e colecionou entrevistas gravadas com militares e policiais para o livro A Casa da Vovó - Uma biografia do DOI-CODI, publicado pela editora Alameda. A entrevista com o general foi publicada no jornal O Estado de S. Paulo, em dezembro de 2011. A procuradora Tiziana Cugini avalia a possibilidade de chamar Godoy para depor.

Na audiência desta terça seriam ouvidas quatro testemunhas argentinas através de videoconferência. Entre elas, estava Claudia Allegrini, ex-esposa de Vinãs. No entanto, as convocações enviadas ao governo argentino não chegaram aos destinatários. 

Visto que este é o segundo reenvio, o presidente da corte Marcelo Liotta deu três meses de tempo para que uma nova rogatória seja enviada e pediu que a Argentina avise antecipadamente em qual tribunal as testemunhas farão a videoconferência. 

Além da procuradora, estavam presentes na audiência o advogado do Estado Luca Ventrella e o advogado Marco Bastoni, que substituiu Valentina Perrone, da defensoria pública. 

MP italiano vai pedir inclusão, como prova, de admissão feita por general de que Brasil participou da Operação Condor (Foto: Janaina Cesar/Opera Mundi) 


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