Chanceler diz que golpe de 1964 - que instalou ditadura de 21 anos - serviu para que Brasil 'não virasse ditadura'

'Eu não considero um golpe. Considero que foi um movimento necessário para que o Brasil não se tornasse uma ditadura. Essa é minha leitura da história', disse chanceler brasileiro

Redação

São Paulo (Brasil)

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, afirmou nesta quarta-feira (27/03) que considera o golpe militar que ocorreu em 1964 um "movimento necessário" para evitar uma "ditadura" no Brasil. O golpe instalou, justamente, uma ditadura no país.

"Vossa Excelência me perguntava se eu considero 1964 um golpe. Eu não considero um golpe. Considero que foi um movimento necessário para que o Brasil não se tornasse uma ditadura. Não tenho a menor dúvida disso. Essa é minha leitura da história", respondeu Araújo quando foi questionado pelo deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ).

O parlamentar ainda questionou o ministro se ele considerava democrático o período de 21 anos de ditadura que se seguiu após o golpe. Araújo não respondeu. A declaração de Araújo vem após o presidente Jair Bolsonaro ter ordenado que os 55 anos do golpe militar de 1964 sejam "comemorados" no Brasil no próximo dia 31 de março.

O chanceler participou da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados, presidida pelo deputado federal e filho do presidente Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).

De acordo com o porta-voz da presidência da República, Bolsonaro ordenou que as Forças Armadas fizessem as "comemorações devidas" no dia 31 de março, dentro dos quarteis.

Ditadura

A ditadura durou de 1964 a 1985 no Brasil. Durante esse período, houve o fechamento do Congresso Nacional em diversos momentos, a restrição a liberdades civis, tortura e morte de opositores. Segundo a Comissão da Verdade, que investigou os crimes cometidos no período, 434 pessoas foram mortas ou desapareceram.

Em 2014, a comissão entregou à então presidente Dilma Rousseff um relatório pedindo a responsabilização de 377 pessoas pelas atrocidades cometidas durante o período repressivo.

A decisão de Bolsonaro de comemorar a data 31 de março no Brasil desagradou até a ala militar do governo. Generais da reserva que integram o primeiro escalão do Executivo pediram cautela para evitar ruídos desnecessários durante os debates da reforma da Previdência.

Durante sua campanha eleitoral à Presidência, Bolsonaro elogiou o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, coronel que chefiou o DOI-Codi, órgão de repressão do regime militar. Bolsonaro também já afirmou que ditadura militar brasileira deveria ter "matado [mais pessoas] do que matou".

Venezuela e EUA

O ministro ainda tratou de temas como a Venezuela e as relações brasileiras com os EUA. Segundo Araújo, o governo está utilizando meios "puramente diplomáticos e políticos para fazer pressão" contra o presidente venezuelano Nicolás Maduro.

Ainda de acordo com o chanceler, não existe "entreguismo" por parte do atual governo, mas que em administrações passadas havia uma "subserviência em relação aos EUA".

"Eu acho que o que existia antes era um complexo de inferioridade em relação aos Estados Unidos, no qual se tinha a sensação de que qualquer cooperação com os EUA viria em detrimento do Brasil", disse.

Itamaraty/Flickr
'Considero que foi um movimento necessário para que o Brasil não se tornasse uma ditadura. Essa é minha leitura da história', disse Araújo

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