'Democracia sempre esteve em crise na América Latina', diz Frei Betto

Teólogo e escritor participou do evento 'Brasil: Democracia em Crise. Um Alarme para a América Latina', na Itália, organizado pelo comitê Lula Livre e Fundação Lelio e Lisli Basso; encontro teve participação de intelectuais, juristas e professores

Janaina Cesar

Roma (Itália)

“A democracia sempre esteve em crise na América Latina, tendo passado por vários ciclos políticos nos últimos 60 anos”. Esta é a opinião do escritor e teólogo Frei Betto, durante encontro que aconteceu em Roma, na última terça (14/05), intitulado  “Brasil: Democracia em Crise. Um Alarme para a América Latina”. 

Frei Betto divide em três os ciclos políticos que marcaram o território latino-americano nos últimos sessenta anos. O primeiro deles foi o ciclo das ditaduras militares implantadas pela CIA. A do Brasil durou 21 anos. “Hoje sabemos porque apenas nos Estados Unidos não teve um golpe militar, porque em Washington não tem embaixada americana”, disse, arrancando risadas do público.


Com o fracasso dos regimes ditatoriais, o continente entrava no segundo ciclo, que Frei Betto chama de “supostamente democrático”. “Não é porque tem eleição que um governo é democrático. Chegaram ao poder governos messiânicos neoliberais: no Brasil, o Collor; na Argentina, Carlos Menem; na Venezuela Rafael Caldera; no Peru, Fujimori etc. Após as oscilações econômicas, políticas e institucionais desse ciclo, a América Latina acreditou que poderia viver uma época diferente. Era a vez dos governos democráticos populares e das reformas sociais. Agora, o último ciclo, aquele atual, é formado por governos neofascistas, de direita. O Brasil não tem um governo militar, mas de militares”.

Ao falar sobre a mudança política de um governo progressista para um neofascista, Frei Betto lembra que Jair Bolsonaro chegou à presidência porque “o candidato que deveria ser eleito estava na prisão”, referindo-se ao ex presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado por corrupção em um processo visivelmente político. “Precisamos fazer uma análise do que aconteceu. Para começar, aquela facada que tirou do Bolsonaro dos debates”, disse. “Nesse ponto, sou ateu, não acredito que houve”, afirmou o teólogo. 

“Nós não cuidamos de alfabetizar politicamente as pessoas, a direita faz isso o tempo todo, no sentido do processo político que estamos vivendo. No barraco da favela tem tudo: geladeira, fogão, celular, televisão etc. São bens pessoais, mas faltam os bens sociais. As pessoas foram acostumadas a consumir, a querer mais. Cabeça de pobre tende a ser hotel de opressor”, disse, citando Paulo Freire.

Em relação aos casos de corrupção, para Frei Betto faltou uma verdadeira autocrítica. “Alguns se declararam culpados, se autoexcluíram, mas foram eles e não o partido a fazer mea culpa”, disse o escritor. “A Odebrecht corrompeu todos os governos da América Latina,  o único governo não delatado foi Cuba. Fidel dizia: nós, revolucionários, podemos perder tudo, menos a moral, porque aí a coisa está comprometida."

Jessé Souza

Organizado pelo comitê Lula Livre e Fundação Lelio e Lisli Basso, o encontro também contou com a participação de intelectuais, juristas e professores italianos e brasileiros como Jessé Souza, professor de sociologia da Universidade Federal do ABC. 

Souza falou da crise brasileira a partir de uma perspectiva histórica e trouxe ao público a questão do colonialismo, da escravidão e superação do racismo. “A superação do racismo é uma mentira, o consenso político no mundo inteiro é racista. Os protestantes são divinos e, os outros, são animais. Essa é a ideia que impera no mundo e que todos aceitam”, disse.

Ele explicou como essas ideias funcionam na política. “ A ideia central é de que as raças superiores são brancas. não corruptas e decentes, e isso influencia o panorama político geral. Quando você não reflete mais sobre o que te domina, você vira escravo. O brasileiro é o escravo que anseia o afago do senhor”, disse o professor. 

Para ele, a esquerda está sem projeto e não conhece a sociedade porque esta foi dominada pelas idéias colonizadoras da extrema direita. “As pessoas acreditaram na propaganda da elite de que todo o brasileiro é corrupto. Essa propaganda serve para humilhar o povo, rebaixá-lo e eliminar a sua autoconfiança”, explica Jessé. 

“É essa elite é que rouba, assalta a dívida pública brasileira. Quem tem poder está invisível. O tema da corrupção tornou o brasileiro imbecil.” Para o sociólogo, a dominação cultural se transformou em arma política. “A sociedade brasileira está agindo contra seu próprio interesse.”

Janaina Cesar/Opera Mundi
Frei Betto (dir.), durante encontro em Roma: 'democracia sempre esteve em crise na América Latina'

Comentários