Venezuelanos apostam na economia solidária para superar bloqueio

Associação reúne 181 famílias que debatem política e garantem a alimentação comum

A associação Alpargatas Solidárias foi criada há quatro anos como uma forma de evitar a guerra de preços que atinge a Venezuela, além de organizar os cidadãos do país em torno de uma nova forma de se relacionar, conviver e produzir. Para isso, dividem-se em cinco eixos básicos: troca e também venda direta, formação, produção coletiva e consumo coletivo.

Em 2015, a Venezuela foi considerada uma ameaça “não usual” pelo presidente estadunidense Barack Obama e sofreu os efeitos das primeiras sanções emitidas pelos Estados Unidos no final do ano anterior. Naquele ano começava o desabastecimento e a especulação nos mercados convencionais.

Como uma resposta, integrantes dos coletivos Tiuna El Fuerte e Ateneo Cultural criaram um espaço comum para construir relações pessoais e econômicas alternativas ao sistema capitalista. 

“Aqui não é um lugar apenas para consumir, mas para desenvolver uma forma alternativa de nos relacionarmos. Seguimos com esse sonho de criar uma humanidade mais humana”, afirma a bióloga Jaheli Fuenmayor, uma das fundadoras das Alpargatas Solidárias. 

O nome é uma referência ao ditado popular venezuelano “Pónganse las alpargatas que lo que viene es joropo”, que significa “Coloquem suas alpargatas (calçados de uso comum no campo) porque a crise vem forte”.

O movimento reúne hoje 181 famílias, divididas em 12 núcleos, ou melhor, “nós”, que se encontram mensalmente para organizar a compra e a venda de alimentos básicos. Nos últimos sábados de todos os meses, é realizado um consumo coletivo, que se trata da distribuição de sacos com cerca de 20kg de legumes, frutas e hortaliças, a uma média de 40 mil bolívares (cerca de R$ 28). Esse valor é suficiente para comprar os alimentos e pagar o frete do caminhão. 

Isso é possível porque os alimentos são produzidos por uma cooperativa que há 50 anos aglutina 1300 pequenos e médios produtores dos estados de Lara, Yaracuy, Portugues e Trujillo, no altiplano venezuelano. O cultivo cooperativo faz com que a venda, organizada em assembleias e de forma democrática, tenha preços muito mais baratos que no mercado comum. 

Um quilo de cebola comprado na sede da CECOSESOLA, em Barquisimeto, capital larense, custa 3 mil bolívares (cerca de R$ 2,15), metade do valor cobrado nas feiras em geral. O mesmo acontece com o tomate, que passa de 4 mil bolívares (R$ 2,80) para 1 mil bolívares (R$ 0,70). Ou o quilo da banana que chega a custar 4 mil bolívares em qualquer supermercado, mas na cooperativa sai por 700 bolívares (R$ 0,50). 

Todos os meses, os núcleos se revezam nas funções básicas organizativas, que são definidas nas assembleias operativas. Nesse mês de maio, Meresvice Morán foi a responsável por comprar os alimentos, junto com três outras pessoas do seu “nó”, chamado Ubuntu. Depois de passar a madrugada viajando 365 quilômetros com mais de três toneladas de alimentos, a socióloga não esconde o sorriso de satisfação. “É trabalhoso, mas é um compromisso, você deve ir e buscar o que há de melhor, porque o que você escolhe é o que todo mundo vai consumir”.

Graças às escolhas de Meresvice, cada família voltou para casa, no último sábado (25/05), com um saco de 18 quilos contendo abóbora, abobrinha, abacate, batata, beterraba, cebola, cenoura, tomate, banana e abacaxi.

Como formigas carregadeiras, todos os alpargateiros trabalham em alguma função. Alguns separam as cebolas, cortam pedaços de abóbora que serão divididos em cada um dos 181 sacos, enquanto outro “nó” se encarrega da merenda coletiva. Há também quem exponha artigos de produção própria, como sabonetes, chás, temperos, tortas, que podem ser vendidos ou trocados; e ainda há uma comissão de recreação das crianças, que são muitas e, nesse sábado, além de brincar e ganhar pinturas faciais, receberam formação lúdica sobre educação sexual com integrantes do coletivo feminista Faldas R. 

Consumo e organização política

Além de ser um sistema coletivo de compra, venda, troca, doação, empréstimo e compartilhamento, as Alpargatas Solidárias buscam organizar as famílias em torno de um horizonte revolucionário.

“Estamos num contexto de reconfiguração, de crise econômica, de ameaças, de uma reformulação do modo de fazer política que praticamos há muitos anos na revolução bolivariana. Esse espaço tem como objetivo unir esforços e ver que, em comunidade e de forma coletiva, podemos satisfazer necessidades, discutir política e encontrar soluções também em conjunto. A via para transformar essa sociedade capitalista, mercantil, que vivemos e construir outra sociedade é essa”, conta Maria Eugenia Freitez, comunicadora e uma das fundadoras da organização. 

Realmente não se trata apenas de distribuição de alimentos. Em meio a abraços, sorrisos e olhares acolhedores, andar pelo centro cultural Tiuna El Fuerte, onde se realiza o consumo mensal, termina sendo um exercício revigorante. Por considerar que as relações que se estabelecem entre cada membro são centrais, a organização atende um número limitado de famílias. 

“Há duas coisas transversais nessa iniciativa que são a comunicação e o afeto. Então, à medida que novas pessoas se somam às Alpargatas, sempre vamos discutindo como manter o intercâmbio, a proximidade, esse cuidado um com o outro para não deixar que tudo se resuma a resolução de uma necessidade”, explica Jaheli Fuenmayor.

A solidariedade presente no nome do movimento também é evidente no diálogo com os alpargateiros. Se um companheiro não dispõe de 40 mil bolívares, os sacos podem ser divididos, ou também estão aqueles que dividem o seu consumo mensal com a vizinhança. 

“Quando temos um objetivo comum, uma necessidade comum, que nos mobiliza, que nos toca, é uma motivação enorme para seguir trabalhando. O fato de poder ver outros companheiros, saber que estão bem, porque a crise também gera um ambiente hostil, ver que alguns estão em situação mais sensível economicamente e que podemos ajudar, eu penso que vale a pena continuar realizando essa batalha até podermos vencer”, finaliza a alpargateira e comunicadora audiovisual Patrícia Franco.

*Publicado originalmente em Brasil de Fato

Michelle de Melo/Reprodução
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