Diplomatas brasileiros foram instruídos a defender 'visão do governo' sobre gênero, diz Folha de S. Paulo

Segundo reportagem publicada pelo jornal, funcionários do Itamaraty foram orientados a reforçar 'posição' do governo brasileiro de que gênero é apenas sexo biológico

Diplomatas do Itamaraty receberam instruções oficiais de superiores para que o órgão reforce a posição do governo brasileiro em tratativas com outros países de que a definição de gênero é apenas sexo biológico, informou nesta quarta-feira (26/06) o jornal Folha de S. Paulo.

Em reportagem da jornalista Patrícia Campos Mello, o periódico afirma que os funcionário da diplomacia do Brasil foram orientados a reiterar "o entendimento do governo brasileiro de que a palavra gênero significa o sexo biológico: feminino ou masculino". De acordo com especialistas, gênero e orientação sexual são construções sociais que não são necessariamente determinadas pela condição biológica de cada indivíduo. 

Segundo o jornal, diplomatas brasileiras receberam instruções para que sustentassem a posição do governo com relação ao que a extrema direita convencionou chamar de "ideologia de gênero" em pelo menos duas reuniões multilaterais que o Brasil participou, uma na ONU e outra na Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA.

Flickr/Itamaraty
"Mudança de visão" sobre gênero concorda com diversos posicionamentos e discursos de Bolsonaro e Ernesto Araújo

Fontes de dentro do Itamaraty ouvidas pela Folha de S. Paulo afirmaram que "o Brasil quer evitar ambiguidades". Procurada, a chancelaria brasileira disse que as instruções apenas retomam a "definição tradicional" de gênero.

Em entrevista à Folha, a coordenadora da ONG Conectas, Camila Asano, afirmou que se a medida não for revertida, "o Brasil se unirá a diplomacias que propagam posições retrógradas em espaços internacionais, ignorando avanços nacionais e globais na luta contra desigualdades e preconceitos".

O jornal ainda destaca que a "mudança de visão" sobre gênero proposta pelos superiores do Itamaraty concorda com diversos posicionamentos e discursos do presidente Jair Bolsonaro e seu ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. 

O chanceler e o presidente brasileiros são críticos do que a extrema direita chama de "globalismo" (suposta ideologia que pretende acabar com fronteiras, família, homem e mulher), do "racialismo" (suposta ideologia que entende a sociedade divida em raças) e do ecologismo que, segundo o próprio ministro das Relações Exteriores, é a ecologia transformada em ideologia.

Comentários