Paraguai: mais ossos são encontrados em imóvel que pertencia ao ex-ditador Stroessner

No começo do mês, foram encontrados ossos humanos - entre eles, ao menos três crânios - no banheiro da residência, conhecida em Ciudad del Este como 'Casa do Terror'

O grupo que ocupa a casa que pertencia ao ex-ditador paraguaio Alfredo Stroessner (1912-2006), em Ciudad del Este, encontrou novos ossos em outro local da residência - desta vez, embaixo do piso do cômodo principal.

Segundo o jornal ABC Color, este cômodo fica a seis metros do banheiro, onde, no começo do mês, foram encontrados ossos humanos - entre eles, ao menos três crânios. As ossadas achadas agora são menores, e uma perícia vai verificar se elas são de animais ou de seres humanos.

Ainda de acordo o o jornal, o grupo que ocupa a casa recebeu informações de que, sob a residência, existiria um túnel onde, supostamente, estariam depositados outros restos humanos. As buscas por mais restos mortais continuam na residência, que é conhecida na cidade paraguaia como “Casa do Terror”, por conta das torturas que aconteceram no local contra opositores do regime. A procura por outros ossos também vai se expandir para outras casas no terreno.

Desde o dia 24 de agosto, cerca de 300 famílias ocupam o imóvel do ex-ditador. Dois dias depois da ocupação, um dos netos de Stroessner se identificou como o atual responsável pelo local.

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Novos ossos foram encontrados na residência de Stroessner em Ciudad del Este

Stroessner: violento, pedófilo e elogiado por Bolsonaro

Em fevereiro, o general Stroessner foi publicamente elogiado pelo presidente brasileiro Jair Bolsonaro, que chamou o paraguaio de “estadista”. "[Um] homem de visão e estadista, que sabia perfeitamente que seu país, Paraguai, só poderia prosseguir, progredir, se tivesse energia (…) Então aqui, a minha homenagem ao general Alfredo Stroessner", disse.

O paraguaio deu um golpe de Estado em 1954 e foi “eleito” em um pleito indireto, sem participação da oposição. Ao assumir o poder, Stroessner suprimiu garantias constitucionais e começou um período de dura repressão. 

O regime, marcadamente anticomunista e pró-EUA, fez com que o Paraguai se tornasse um terreno fértil para a corrupção. Ao todo, governou por oito mandatos, em processos marcados por fraude. Em 1967, Stroessner fez uma Constituição que permitia apenas uma reeleição para presidente. Em 1977, ela foi modificada para permitir sua reeleição indefinidamente.

Filho de um imigrante alemão, o ditador também foi conivente com refugiados nazistas. Eduard Roschmann, conhecido como o açougueiro de Riga, responsável pela morte de 30 mil judeus na Letônia, e Josef Mengele, médico nazista, receberam acolhida e cidadania do general.

Stroessner era um pedófilo convicto. Durante a ditadura, ordenou a criação de uma espécie de “harém de meninas”, em que crianças de dez a 15 anos eram estupradas repetidamente por ele e por seus ministros, e exigia dos assessores que estes o “fornecessem” meninas virgens. Em quase 40 anos, o ditador teria estuprado mais de 1.600 crianças.

Ao todo, estima-se que entre 3.000 e 4.000 pessoas tenham sido assassinadas em seu governo por conta da perseguição política, marcada pelo emprego da tortura, sequestro e assassinatos políticos. O número de presos por motivos de perseguição política passa de 150 mil. De acordo com um relatório de 2008 da Comissão de Verdade e Justiça paraguaia, foram 18.772 torturados e 3.470 exilados. Além disso, segundo a Coordenadoria de Direitos Humanos do Paraguai (Codehupy), 236 crianças e adolescentes foram presos, 17 nasceram na prisão e houve 459 desaparecidos.

Em 1992, foram descobertos os Arquivos do Terror, uma série de documentos e memorandos internos que mostram como Stroessner colaborou com as ditaduras do continente e participou da Operação Condor, um acordo militar articulado pelos EUA e levado adiante por Brasil, Chile, Equador, Bolívia e Uruguai, que visava perseguir opositores às ditaduras.

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